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Mounjaro e Ozempic

Como os medicamentos para obesidade silenciam o “ruído alimentar”

Medicamento na formulação de caneta para tratar a obesidade.
As famosas "canetas emagrecedoras", quando utilizadas com acompanhamento médico, são capazes de reduzir o "ruído alimentar". (Foto: Haberdoedas | Unsplash)

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A utilização de medicamentos para obesidade permitiu que pesquisadores da Universidade da Pensilvânia identificassem, pela primeira vez, o mecanismo cerebral que silencia o ruído alimentar. Através de eletrodos intracranianos, sensores colocados dentro do crânio, a equipe registrou como os fármacos modernos interrompem os sinais elétricos da compulsão.

O estudo inédito, publicado na revista Nature Medicine, revelou que a tirzepatida (Mounjaro) suprime a atividade no núcleo accumbens, responsável pela sensação de prazer e pelo controle de impulsos. 

Os cientistas notaram que a medicação "desliga" o padrão elétrico associado à busca desenfreada por alimentos. A descoberta comprova que o desejo constante por comida possui uma origem biológica rastreável.

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O que é “ruído alimentar”?

O ruído alimentar é definido como um conjunto de pensamentos persistentes e intrusivos sobre o consumo de alimentos que “invadem” a mente de forma repentina.

Segundo pesquisadores da Universidade de Indiana, liderados por Emily J. Dhurandhar, essa experiência assemelha-se à ruminação – processo mental de repetição constante de ideias indesejadas.

Exemplos desse estímulo mental incluem pensar frequentemente se você está comendo a quantidade correta ou quando será a próxima refeição, mesmo sem fome física.

O estudo publicado na revista Nature destaca que essas sensações causam sofrimento mental e social, diferenciando-se dos pensamentos rotineiros pela sua intensidade e caráter perturbador.

Por que o ruído alimentar dificulta o controle do peso?

O ruído alimentar interfere diretamente no modo como o cérebro processa os sinais biológicos de saciedade e desejo. Quando a mente está ocupada com pensamentos constantes sobre comida, torna-se difícil distinguir a fome real da fome emocional.

O sistema de recompensa cerebral libera dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer, em resposta ao consumo calórico. O impulso de comer motivado por sentimentos cria um ciclo de busca por recompensa constante. O autocontrole se torna um desafio biológico.

A ciência demonstra que o problema não reside na falta de disciplina, mas em uma predisposição biológica onde o cérebro prioriza estímulos alimentares em vez dos sinais internos de energia.

Logo, a redução desse estímulo mental diminui quadros de compulsão e ansiedade associados ao ato de comer.

Medicamentos para obesidade podem reduzir o ruído alimentar

Os medicamentos para emagrecer e o comportamento alimentar estão conectados pela atuação de substâncias em áreas específicas do cérebro, como o hipotálamo, o centro regulador da fome e da saciedade.

Substâncias como a semaglutida (presente no Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) pertencem à classe dos agonistas de GLP-1. O GLP-1 é um hormônio natural que sinaliza a saciedade ao cérebro. Ao imitar essa ação, os fármacos reduzem o desejo impulsivo por lanches e o foco constante na próxima refeição.

A semaglutida e a tirzepatida também agem no núcleo accumbens, o centro de recompensa cerebral que guia as decisões por prazer. Segundo pesquisas da Universidade da Pensilvânia, esses remédios diminuem a atividade elétrica que gera pensamentos intrusivos. O processo acalma os impulsos que levam ao consumo descontrolado de calorias.

No entanto, é necessário ter cautela ao analisar esses mecanismos. O pesquisador Casey H. Halpern, chefe de Neurocirurgia na Universidade da Pensilvânia, afirma em entrevista ao site da universidade:

“Até que entendamos melhor sua ação no cérebro, é muito cedo para chamar os inibidores de GLP-1 e GIP de medicamentos milagrosos para mais doenças além do diabetes tipo 2 e da obesidade”.

O efeito pode ser temporário?

Sim, a tirzepatida e a semaglutida podem apresentar variações de eficácia no apetite ao longo do tempo em alguns indivíduos. O estudo de caso da Universidade da Pensilvânia observou que, embora o padrão elétrico ligado às compulsões tenha desaparecido inicialmente, ele retornou em um dos pacientes monitorados após meses de uso contínuo da medicação.

Os pesquisadores sugerem que esse retorno ocorre devido à tolerância neurológica. O processo acontece pela dessensibilização dos receptores, ou seja, quando as células cerebrais deixam de responder ao estímulo do remédio com a mesma intensidade.

Nesses casos, o cérebro retoma a sinalização de busca por prazer, reativando o pensamento compulsivo conhecido como 'food noise' (termo em inglês para ruído alimentar).

Fármacos em formulação estilo caneta utilizada para diabetes e obesidade.Fármacos em formulação estilo caneta utilizada para diabetes e obesidade. (Foto: Haberdoedas/Unsplash)

A descoberta indica que o sistema nervoso busca formas de compensar a presença do fármaco. Embora os agonistas de GLP-1 – hormônios sintéticos que controlam a saciedade – sejam eficazes, a biologia de cada paciente reage de forma única. O acompanhamento médico é imprescindível para ajustar as expectativas sobre o tratamento.

Há diferenças entre reduzir o “ruído” e simplesmente perder o apetite?

O ruído alimentar se distingue da perda de apetite comum por envolver a interrupção da obsessão mental pela comida. Enquanto a perda de apetite retira a sensação de fome física, o silenciamento do ruído faz com que a mente pare de ser ocupada por pensamentos que surgem involuntariamente sobre o que comer em seguida.

Uma analogia útil é comparar o cérebro a um computador com muitas abas abertas ao mesmo tempo. Os medicamentos para obesidade agem fechando essas abas que rodam em segundo plano. Uma pessoa pode não sentir fome física, mas ainda sofrer com a mente "barulhenta" caso a medicação não atue diretamente nos centros de recompensa do cérebro.

Ruído alimentar: o que ainda precisamos descobrir

Embora o debate sobre o ruído alimentar tenha crescido nos últimos anos, os cientistas ainda buscam uma definição clínica formal e métodos precisos de medição para o food noise.

Pesquisas futuras também visam refinar os medicamentos para obesidade a fim de avaliar o impacto real no cérebro humano. Até então, os principais efeitos colaterais conhecidos dos agonistas de GLP-1 são náuseas e desconforto gastrointestinal.

Além disso, existe a questão da tolerância neurológica. Especialistas alertam que o uso desses fármacos para transtornos como compulsão alimentar carece de evidências robustas.

Se, por um lado, há uma lista de dúvidas a serem respondidas, por outro, o futuro das pesquisas com medicamentos para obesidade traz otimismo para quem busca equilíbrio mental e físico.

A ciência avança para entender como o sistema nervoso processa o prazer e a saciedade de forma individualizada. Com novas descobertas, o tratamento se consolida como um campo focado na biologia, permitindo que as pessoas recuperem a autonomia sobre seus hábitos alimentares.

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