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Existem poucos discursos que "voam", elevam-se acima da situação contingente e entram na história da retórica ocidental, fixando princípios a serem respeitados e indicando objetivos a serem alcançados no longo prazo. Marco Rubio, secretário de Estado, poderia entrar para o rol dos grandes retóricos ocidentais em seu discurso de Atenas, proferido por ocasião de sua viagem às capitais europeias.
Certamente o intento imediato é o de reatar as relações entre as duas margens do Atlântico, depois que seu presidente, Donald Trump, quase as rompeu com sua política nacionalista e hostil aos aliados (inclusive os de longa data). Um intento que se pode claramente perceber na segunda parte do discurso: "Porque não acreditamos que a amizade transatlântica deva ser um jogo de soma zero. Pelo contrário: nossa visão é a de uma aliança cuja força é maior do que a soma de suas partes. (…) Queremos vencer juntos. Devemos vencer juntos", conclui citando o acordo sobre a Groenlândia.
Mas a parte mais importante do discurso diz respeito à civilização ocidental. O Ocidente existe, diz-nos Rubio, mesmo que queiram esquecê-lo. Já é um caso cada vez mais raro que um líder ocidental, mesmo americano, fale em "Ocidente". Depois de Obama, parece ter caído uma cortina de constrangimento sobre essa definição, graças também a um par de crises, militares e econômicas, que demoliram o moral dos americanos. Mas fala-se pouco ou nada disso até mesmo na América de Trump, na "America First" que não olha para ninguém, nem mesmo para a relação especial com os britânicos, nem mesmo para os tradicionais aliados e vizinhos canadenses. Marco Rubio tenta reatar, afirmando, antes de tudo, a legítima pertencimento dos EUA à civilização ocidental, justamente por meio de sua descendência direta das ideias nascidas na Grécia Antiga.
"Dois séculos e meio após a fundação da república americana, do outro lado do mundo em relação a onde me encontro agora – encontro-me aqui hoje como Secretário de Estado dessa república e bisneto de colonos que chegaram ao Novo Mundo vindos da Espanha – encontro-me aqui para testemunhar uma dívida que nenhum passar do tempo, nenhuma distância no espaço jamais poderá extinguir".
Não é apenas uma questão de curiosidade pelo passado, mas há uma linha direta que conecta a civilização grega à da "Magna Europa", da Europa transferida para o novo mundo: "Aqui, em Atenas, encontramos a primeira realização plena de todos os traços essenciais que mais tarde definiriam o Ocidente: uma individualidade altiva e uma ambição implacável; uma exploração e uma invenção audazes; um desejo de descoberta, de aventura, de risco e de glória. Uma curiosidade insaciável pelo mundo e pelos princípios que o governam, uma fome de conhecer os mistérios da natureza e de agarrar os segredos do cosmos. Uma impaciência com a ideia de impossibilidade, uma aversão a qualquer fronteira e limite, um esforço para perscrutar as profundezas do desconhecido".
Estes princípios não são expressão de um super-homem, de um paganismo renascido em versão nietzschiana, em contraste com os princípios cristãos. Eles também estão na base da nossa sociedade cristã, como explica Rubio: "é a convicção de que o desconhecido pode ser conhecido. A confiança de que o mundo pode ser mapeado, medido, descrito e compreendido, e de que existe uma ordem racional no cosmos, governada por certas leis fundamentais, leis que os homens podem observar e a mente pode chegar a compreender. Este foi o fundamento da mentalidade ocidental: nossa matemática, nossa ciência, nossa medicina. Nossa filosofia, nossa ética e nossa religião. Abriu o caminho para o Evangelho de Jesus Cristo, que encontrou solo fértil na Europa e floresceu no império da cristandade. Foi o fundamento das riquezas da teologia cristã: de Agostinho e Tomás de Aquino e de toda a tradição do direito natural".
Uma linha contínua que Rubio identifica também na estética, além de nos outros ramos do conhecimento: "Aos homens que construíram o Partenon sucederam os arquitetos da cristandade europeia, que ergueram as catedrais de Milão, Colônia e Florença. A busca pela perfeição da forma humana que animava os escultores gregos antigos encontrou uma nova expressão em Michelangelo".
E aqui se chega ao ponto doloroso, sobre o Ocidente contemporâneo, em particular sobre a Europa de hoje. Porque, diz Rubio: "Hoje, grande parte do Ocidente esqueceu esta qualidade. Com o tempo, nós, ocidentais, começamos a nos envergonhar justamente daquilo que nos tornava excepcionais. Sentíamo-nos envergonhados porque nossas conquistas nos distinguiam do resto do mundo. Nossa prosperidade tornou-se, de certa forma, uma fonte de sentimento de culpa. Não acreditávamos mais que merecíamos e que tínhamos conquistado nossa grandeza. (…) E em lugares demais ensinamos nossos filhos a se envergonharem dos países que iriam herdar. Enquanto isso, abrimos nossas fronteiras, terceirizamos nossa indústria para o exterior e deixamos nossos exércitos enfraquecerem e se deteriorarem. E com o passar dos anos, parecia que terceirizávamos cada vez mais nossa soberania, transferindo nossas decisões para burocracias globais bem fora do nosso alcance de controle. (…) E enquanto a confiança do Ocidente vacilava, seus adversários e rivais tornavam-se cada vez mais assertivos, acumulando sua própria riqueza e seu próprio poder em nosso lugar. E agora, hoje, nos encontramos em uma encruzilhada. Porque a próxima década e as decisões que tomarmos escreverão a história do próximo século. O caminho que empreendermos determinará se o Ocidente manterá seu lugar no topo do mundo ou se resignará a um futuro de atrofia, servidão e declínio. Escolheremos agir agora ou perderemos completamente a possibilidade de agir".
Não há qualquer redescoberta da "diplomacia multilateral", muito menos das instituições supranacionais, da UE à ONU. Fala-se de aliança e de civilização comum compartilhada pelas nações ocidentais, de um modelo de vida e de cultura que é único no mundo e do qual, pelo menos, não devemos nos envergonhar. "A história da nossa civilização é a maior história já conhecida pelo homem. E começou aqui, com os primeiros homens e as primeiras mulheres do Ocidente. A partir deles, podemos redescobrir as virtudes, a coragem e a força para enfrentar os perigos que encontramos em nosso tempo", conclui Rubio.
© 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permissão. Original em italiano: Il discorso di Rubio ad Atene restaura il concetto dell'Occidente.



