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O rei Philippe, da Bélgica, (à esquerda)
O rei Philippe, da Bélgica, (à esquerda) ouve explicações sobre a máquina LNP (Lipid Nano Particle) durante uma visita ao local de produção da vacina Pfizer-BioNTech em Puurs, Bélgica, em 30 de março de 2021.| Foto: EFE/EPA/STEPHANIE LECOCQ / POOL

A inflamação do músculo cardíaco (miocardite) e do revestimento do coração (pericardite) são efeitos colaterais conhecidos da vacina de mRNA. Esses casos parecem ocorrer numa frequência muito baixa de poucas dezenas por milhão de vacinados, mas há desconfiança que em homens jovens poderiam ser mais frequentes. Nas redes sociais, céticos quanto à segurança e eficácia da vacina têm coletado casos de atletas com dor no peito e incapacitados por sintomas de inflamação cardíaca. Mas um novo estudo, justamente com atletas, sugere que a própria COVID-19 pode ser culpada por miocardite neles.

O dr. Jean Jeudy, professor e radiologista da Escola de Medicina da Universidade de Maryland em Baltimore, coletou 1.597 exames de ressonância magnética do coração num congresso de atletas chamado Big Ten. Trinta e sete desses atletas (2,3%) foram diagnosticados com miocardite associada à Covid-19. Metade deles não tinha sintomas e só descobriu o problema por causa da ressonância magnética — outros testes cardíacos não revelaram anormalidade. Esse exame revelou-se sete vezes mais sensível para detectar a miocardite que os outros métodos. O efeito a longo prazo é desconhecido, alguns desses pacientes tinham cicatrizes no músculo cardíaco deixadas pela inflamação. A miocardite é responsável por quase 20% das mortes de atletas por mal súbito.

Um estudo maior, do dr. Bradley Petek do Hospital Geral de Massachusetts e colaboradores, envolveu mais de três mil atletas dos dois sexos, com média de idade de 20 anos, que tiveram Covid-19. Somente 1,2% deles tinha sintomas que persistiam por mais de três semanas e 4% tinham sintomas que apareciam ao se exercitarem. Os que tinham apenas sintomas persistentes, apesar disso, não apresentaram sequelas da infecção.

Mas 9% dos que tinham dificuldades ao fazer exercícios apresentaram sequelas: os que tinham dor no peito (24 atletas) foram submetidos à ressonância magnética, que confirmou associação com a COVID-19 em cinco deles.

Como se vê, uma limitação desse estudo é que a ressonância só foi feita naqueles que tinham dor no peito, enquanto o estudo de Jeudy encontrou marcas de miocardite em atletas sem esse sintoma. Podemos especular, portanto, que a quantidade de atletas com miopericardite no estudo de Petek seria o dobro, o que nos dá a estatística de aproximadamente três casos de miopericardite em mil (atletas) infectados com o vírus SARS-CoV-2. Porém, seria necessário ajustar essa estatística com mais estudos para saber o real risco para a população em geral.

Comparando o risco da Covid-19 ao coração com o risco da vacina

A Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA) detectou no país um crescimento do número de pacientes com miocardite anterior à pandemia, desde 2004. Dois terços desses pacientes eram homens, o que indica que o sexo masculino é mais vulnerável à inflamação do músculo do coração, independentemente da vacina. A UKHSA relata que com frequência a causa dessa inflamação é a infecção viral. Interessantemente, um estudo veterinário com cães e gatos implica a variante alfa do novo coronavírus no desenvolvimento de miocardite nesses animais.

Temos dois grandes estudos israelenses das inflamações cardíacas induzidas pelas vacinas de mRNA, envolvendo cinco milhões e dois milhões e meio de pacientes, respectivamente. Os estudos são discutidos pelo iraniano Amir Abbas Shiravi da Universidade Isfahan e seus colegas na revista Cardiology and Therapy. Na população em geral que tomou Pfizer, duas pessoas em 100 mil desenvolvem miopericardite. Entre jovens de 16 a 29 anos, pode chegar a dez em 100 mil, e, entre rapazes de 16 a 19 anos, 14 em 100 mil.

A chance de uma pessoa que teve Covid-19 desenvolver miocardite é quase 20 vezes maior que a de uma pessoa que não teve a doença. Já a chance de uma pessoa vacinada ter miocardite é pouco mais que três vezes maior que a de um não-vacinado. São as conclusões de um estudo de Noam Barda e parceiros, citado por Shiravi, que menciona que 95% dessas inflamações são leves e não parecem apresentar grandes riscos a longo prazo.

Discutir casos individuais é importante, e é algo que não acontece só nas redes sociais, mas também na própria literatura médica. Haverá tragédias envolvendo o coração em todos os grupos: os infectados e não-vacinados, os não-infectados e vacinados e os infectados vacinados. A questão premente e ainda em desenvolvimento é se a solução é tão ruim quanto o problema. Somente métodos quantitativos rigorosos podem responder à questão.

No momento, um consenso das publicações é que o risco apresentado pelas vacinas ao coração é inferior ao risco apresentado pela doença. Porém, essa diferença, que antes se pensava ser de ordens de magnitude, agora é de “até seis vezes”, como diz o pré-prelo de Mendel Singer e colegas. Os rapazes continuam sendo o grupo de maior risco apresentado pela vacina de mRNA. Os políticos que estão tornando essa vacina obrigatória se responsabilizam?

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