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Elon Musk declarou publicamente, em maio de 2025, a intenção de construir data centers de inteligência artificial na órbita terrestre e, em um horizonte mais amplo, na superfície lunar, tendo a reação imediata de boa parte dos analistas oscilado entre o ceticismo irônico e a perplexidade. O histórico do empresário, no entanto, sugere que seria imprudente descartar a ideia sem examiná-la com seriedade. Musk já demonstrou, com a SpaceX, que é capaz de transformar projetos aparentemente quixotescos em infraestrutura operacional - e os foguetes reutilizáveis que hoje abastecem a Estação Espacial Internacional são a prova material dessa capacidade. O projeto dos data centers orbitais, porém, transcende a mera inovação tecnológica: ele representa o primeiro passo concreto para que a humanidade desenvolva as características de uma civilização interplanetária.
A inteligência artificial, tal como se desenvolve atualmente, é o processo tecnológico mais voraz em energia já concebido pela humanidade.
Para compreender a magnitude do que está em jogo, é oportuno recorrer a um instrumento conceitual formulado em 1964 pelo astrofísico soviético Nikolai Kardashev. Insatisfeito com as categorias convencionais para classificar civilizações, Kardashev propôs uma escala baseada em um critério objetivo e universalmente mensurável: a quantidade de energia que uma civilização é capaz de capturar e utilizar. A escala possui três níveis fundamentais: o Nível I designa uma civilização capaz de aproveitar toda a energia disponível em seu planeta de origem, não apenas os combustíveis fósseis ou a radiação solar incidente, mas a totalidade dos recursos energéticos planetários, incluindo fenômenos geotérmicos, eólicos, maremotrizes e a energia contida na própria biosfera; o Nível II corresponde a uma civilização que domina a energia total de sua estrela hospedeira (no nosso caso, o Sol), o que implicaria estruturas hipotéticas como a esfera de Dyson, um invólucro capaz de capturar toda a radiação solar emitida em todas as direções; o Nível III, por fim, descreve uma civilização que controla a energia de uma galáxia inteira, algo que, no estágio atual do conhecimeto, permanece no domínio da especulação teórica.
A humanidade, neste momento, não atingiu sequer o Nível I. Estima-se que nos encontramos em torno de 0,73 na escala, o que significa estarmos relativamente distantes da utilização de toda a energia disponível na Terra (a escala de Kardashev é logarítmica, e não linear). Nesse contexto, a transição para o Nível I não é apenas uma questão de gerar mais energia, e sim de reorganizar toda a base material da civilização. E é precisamente nesse ponto que o projeto de Musk adquire relevância estratégica.
A inteligência artificial, tal como se desenvolve atualmente, é o processo tecnológico mais voraz em energia já concebido pela humanidade. O treinamento de um único modelo de linguagem de grande escala consome a energia equivalente à de uma cidade de porte médio durante semanas. A inferência contínua (isto é, o uso cotidiano desses modelos por bilhões de pessoas) multiplica essa demanda por ordens de grandeza. Atualmente (fevereiro de 2026), cerca de 200 milhões de seres humanos utilizam esses modelos diariamente, enquanto cerca de 1,5 bilhão os usam esporadicamente. Se a IA for efetivamente “planetarizada”, tornando-se tão onipresente quanto a eletricidade, a pressão sobre a infraestrutura energética terrestre será insuportável dentro das restrições ambientais que já enfrentamos. O calor residual, as emissões, a degradação ecossistêmica : tudo isso constitui o que a termodinâmica denomina entropia, a desordem inevitável que acompanha qualquer processo de conversão energética. Manter toda essa entropia confinada à superfície de um único planeta é, no longo e longuíssimo prazos, insustentável.

A proposta de Musk enfrenta esse dilema de maneira frontal. Instalar data centers em órbita significa transferir para o espaço uma parcela crescente da carga computacional e, com ela, a geração de calor e o consumo energético associados. No vácuo orbital, a dissipação térmica segue dinâmicas distintas das terrestres, e a energia solar pode ser captada sem a intermediação da atmosfera, com eficiência significativamente maior. Na Lua, onde não há atmosfera nem biosfera, a geração energética e o processamento computacional podem ocorrer, em princípio, sem qualquer impacto ambiental sobre o ecossistema terrestre. A lógica é análoga à que levou as cidades industriais do século XIX a deslocar suas fábricas mais poluidoras para as periferias: quando a atividade produtiva gera externalidades insustentáveis no núcleo habitado, a solução racional é exportá-la.
Mas a ambição declarada de Musk vai além da mera descentralização computacional. Em diversas ocasiões, o empresário afirmou que sua visão de longuíssimo prazo (medida em séculos, talvez ao longo de todo o corrente milênio) consiste em converter a humanidade em uma civilização de Nível II na escala de Kardashev. Trata-se de uma afirmação extraordinária, que exige ser levada a sério justamente porque as premissas tecnológicas que a sustentam já estão sendo construídas.
Muito antes que a humanidade se converta em uma civilização Nível II, contudo, as transformações econômicas possibilitadas pela IA desencadearão uma “era de abundância”, na qual a combinação de Superinteligência Artificial, robótica autônoma e energia virtualmente ilimitada concorrerá para aproximar de zero os custos de produção de bens em quantidades e variedade que hoje soam inconcebíveis.
Essa visão não é inteiramente nova. O economista Jeremy Rifkin, em “A Sociedade de Custo Marginal Zero”, já havia antecipado que a convergência entre automação, energia renovável e internet das coisas tenderia a comprimir os custos de produção de maneira estrutural. O que Musk acrescenta a essa equação é o componente espacial: a constatação de que a Terra, sozinha, não comporta a escala de atividade energética e industrial necessária para sustentar uma civilização verdadeiramente pós-escassez. A produção virtualmente ilimitada de bens demanda extração de recursos minerais em volumes que devastariam o planeta; a geração de energia na escala necessária sobrecarregaria irreversivelmente o equilíbrio térmico da biosfera. A solução, portanto, seria estender a base produtiva para além da Terra.
A questão central, portanto, não é se essa transição ocorrerá, mas quando e sob que condições.
Há um paralelo histórico instrutivo: quando os europeus do século XV começaram a explorar os oceanos, não o fizeram por um impulso abstrato de curiosidade, mas sobretudo porque os recursos e mercados da Europa já não bastavam para sustentar as ambições das potências emergentes. As caravelas do Infante Dom Henrique não foram construídas para contemplar o horizonte, e sim para acessá-lo. De maneira análoga, os foguetes da SpaceX e os data centers orbitais não são exercícios de futurismo, mas infraestrutura de expansão.
A mineração de asteroides, já objeto de estudos avançados pela NASA e por empresas privadas, promete acesso a quantidades colossais de metais raros e materiais que, na Terra, são extraídos a custos ecológicos e humanos cada vez mais elevados. A manufatura em órbita, favorecida pela microgravidade e pelo vácuo, permite processos impossíveis ou ineficientes na superfície terrestre. A geração de energia solar no espaço, sem as perdas atmosféricas e sem a alternância dia-noite, propicia potencial energético que excede em várias ordens de grandeza qualquer fonte energética disponível na Terra. Cada uma dessas atividades, isoladamente, já constitui um campo de pesquisa robusto; combinadas, elas delineiam o esqueleto de uma economia interplanetária.
A questão central, portanto, não é se essa transição ocorrerá, mas quando e sob que condições. O projeto dos data centers orbitais de Musk funciona, nesse contexto, como uma espécie de ponta de lança: é o primeiro caso de uso economicamente justificável para a instalação permanente de infraestrutura produtiva fora da Terra. A demanda por computação de IA é tão intensa e crescente que os custos de lançamento, outrora proibitivos, tornam-se racionais diante do custo alternativo de expandir indefinidamente os data centers terrestres, com todas as suas limitações energéticas, térmicas, regulatórias e ambientais. A SpaceX, com o Starship, já reduziu o custo por quilograma em órbita a uma fração do que era há duas décadas, e ele continua em declínio.
Se esse primeiro passo for bem-sucedido, as consequências poderão se desdobrar em cascata. Data centers orbitais exigirão redes de energia solar espacial, que por sua vez demandarão estações de montagem orbital, que necessitarão de materiais extraídos de asteroides ou da Lua, que pressuporão bases permanentes fora da Terra. Cada elo dessa cadeia reforça e viabiliza o seguinte, em uma dinâmica que os engenheiros de sistemas chamam de feedback positivo. A ascensão civilizacional estaria, assim, em linha com a proposição da escala de Kardashev: ela não ocorreria por um salto súbito, mas pela acumulação gradual de capacidades que, em determinado momento, alcançam um patamar qualitativamente distinto.
O Nível I, que alguns físicos estimam poder ser atingido ainda neste século, pressupõe que a humanidade seja capaz de integrar plenamente a energia solar incidente, a geotermal, a nuclear avançada (incluindo a fusão) e, crucialmente, a energia solar captada no espaço e transmitida à Terra. Esse é um cenário ambicioso, mas não absurdo: todas as tecnologias envolvidas já existem em forma embrionária ou estão em desenvolvimento ativo. O que falta não é invenção, mas escala, e escala é exatamente o que Musk tem demonstrado saber construir.
A passagem do Nível I ao Nível II, por sua vez, compreende um horizonte de séculos ou milênios, e envolveria a construção progressiva de megaestruturas capazes de capturar parcelas cada vez maiores da radiação solar. Não é necessário imaginar uma esfera de Dyson completa; versões parciais, como enxames de coletores solares orbitando o Sol, já seriam suficientes para elevar drasticamente a capacidade energética da civilização. E, nesse percurso, a grande maioria da atividade industrial, extrativa e de geração energética teria que ocorrer fora da Terra, não por escolha ideológica, mas por necessidade física. A Terra se tornaria, progressivamente, um santuário ecológico e cultural, enquanto a base produtiva da civilização se expandiria pelo sistema solar.
Estamos, naturalmente, no domínio especulativo. Os obstáculos técnicos, econômicos e políticos são formidáveis, e a História está repleta de visões grandiosas que jamais se materializaram. Mas há uma diferença fundamental entre a especulação ociosa e a extrapolação informada: a primeira ignora os dados; a segunda parte deles. E os dados, neste caso, apontam todos na mesma direção.
Consideremos o que já se verificou apenas nos últimos vinte anos. Em 2004, a ideia de foguetes reutilizáveis era vista com ceticismo por engenheiros aeronáuticos; em 2025, a SpaceX opera uma frota deles com regularidade rotineira. Em 2010, a inteligência artificial era um campo acadêmico de relevância duvidosa para o grande público; em 2026, ela está remodelando a economia global com uma velocidade que surpreende até seus criadores. O custo de lançamento por quilograma em órbita baixa caiu de aproximadamente 54 mil dólares no programa do Space Shuttle (conhecido em português como “Ônibus Espacial”, desenvolvido pela NASA entre 1972 e 2011) para menos de 300 dólares com o Starship, uma redução de mais de 99%. Cada uma dessas trajetórias, tomada isoladamente, já seria impressionante. Tomadas em conjunto, elas compõem algo mais: a infraestrutura material de uma mudança de paradigma civilizacional.
É preciso, aliás, resistir à tentação de tratar essa discussão como ficção científica. Há uma tendência, particularmente acentuada no Brasil e na Europa, de relegar projetos dessa envergadura ao campo da fantasia, como se a ousadia fosse, por definição, sinônimo de irrealismo. Esse reflexo cultural é, ele próprio, um obstáculo à compreensão do momento em que vivemos. Enquanto países e instituições hesitam diante da escala do empreendimento, a realidade avança. A China já opera estações espaciais próprias com ambiciosos programas lunares; a Índia lança missões interplanetárias a custos que desconcertam as agências ocidentais; empresas privadas norte-americanas competem pelo direito de minerar a Lua. A corrida já começou, e a questão é quem chegará atrasado.
Há ainda uma dimensão filosófica que merece atenção. Se a humanidade efetivamente iniciar a colonização do espaço, não como exercício simbólico, mas como expansão produtiva real, estaremos diante da primeira alteração fundamental na condição humana desde a Revolução Neolítica, há cerca de doze mil anos. A transição de caçadores-coletores para agricultores sedentários não mudou apenas a economia: transformou a religião, a política, a guerra, a arte, a estrutura familiar e até a percepção do tempo. Uma transição de espécie planetária para espécie interplanetária provocaria mutações culturais e existenciais de magnitude comparável ou superior. O que significa ser humano quando a “Terra” já não é sinônimo de “mundo”? Que formas de organização política emergem quando colônias humanas operam a minutos-luz de distância, tornando a comunicação em tempo real impossível? Que tipo de consciência nasce em seres humanos para quem a Terra é um ponto azul pálido na escuridão, não como metáfora poética, mas como experiência sensorial cotidiana?
Essas perguntas podem parecer prematuras, mas não são. São exatamente o tipo de pergunta que os contemporâneos de Gutenberg poderiam ter feito sobre a imprensa e não fizeram, e cujas respostas, por terem sido formuladas tarde demais, caíram nas mãos de quem tinha poder, e não de quem tinha visão. A História ensina que as grandes transições civilizacionais raramente são percebidas como tais por seus contemporâneos. Os habitantes de Sevilha, em 1492, não sabiam que estavam testemunhando o início de uma era global; os tecelões de Manchester, em 1760, tampouco se viam como agentes de uma revolução industrial. Nós, diferentemente deles, dispomos de instrumentos conceituais (a escala de Kardashev, a termodinâmica, a teoria de sistemas) que nos permitem identificar a transição enquanto ela acontece. A questão é se teremos a coragem intelectual de levá-la a sério.
Nesse contexto, os primeiros data centers orbitais poderão ser lembrados, no futuro, não como uma proeza de engenharia, mas como o momento em que a humanidade cruzou um limiar irreversível: o ponto a partir do qual a expansão pelo cosmos deixou de ser um sonho e passou a ser um processo. Assim como a primeira fundição de bronze não foi, em si, um evento espetacular, mas inaugurou uma era inteira, o primeiro servidor a processar dados em órbita terrestre poderá ser lembrado como o evento que inaugurou a era interplanetária. E o mais vertiginoso, talvez, seja o fato de que nós estamos vivos neste exato momento, não como espectadores de um passado remoto nem como leitores de um futuro imaginário, mas como contemporâneos do limiar – presentes na criação. Pela primeira vez na História, uma geração pode olhar para o céu e saber - não apenas sonhar, mas saber, com base em dados, trajetórias tecnológicas e investimentos já realizados - que aquilo tudo será, um dia, território.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem aquelas do MRE.







