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Do carnaval da ditadura ao carnaval de Lula

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Desfile da escola Acadêmicos de Niterói no carnaval do Rio de Janeiro, homenageando Lula. (Foto: Antonio Lacerda/EFE)

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Em 1975, a Beija-Flor de Nilópolis desfilava com "O Grande Decênio", exaltando os dez anos do regime militar. O samba-enredo celebrava o MOBRAL, o PIS, o PASEP, as realizações do governo. Em 2026, a Acadêmicos de Niterói homenageia Lula no carnaval. A diferença? Em 1975, havia censura explícita. Em 2026, há cooptação voluntária. E talvez isso seja mais perigoso.

Há uma ironia histórica que os dois eventos revelam. Enquanto a Beija-Flor exaltava a ditadura em 1975, a esquerda em oposição criticava o uso político da cultura e lutava contra a censura. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma esquerda criava seu próprio patrulhamento ideológico. Exigia que os artistas se engajassem politicamente, como se a liberdade de expressão significasse liberdade para dizer apenas o que ela aprovava.

Em dezembro de 1978, quando o regime militar arrefecia e o país passava a debater abertamente a anistia (que aconteceria em 1979), com a liberdade de expressão raiando no horizonte, Caetano Veloso respondeu aos críticos que exigiam maior engajamento político.

Naquele mês, o Jornal da Tarde publicava uma declaração de Caetano dizendo que os críticos “esperam uma orientação ideológica do artista e foi isso que o tropicalismo matou nos anos 60”. Em entrevista dada no mesmo mês a outro jornal, o Diário de São Paulo, ele continuou respondendo a seus críticos, acusando-os de serem “pessoas que obedecem a dois senhores: um é o dono da empresa, o outro é o chefe do Partido”.

Se fizéssemos uma enquete sobre quem teria dito essas coisas, dificilmente alguém votaria em Caetano Veloso. Afinal, poucos artistas daquela época ainda em atividade nos dias de hoje parecem tão manifestamente ideológicos quanto ele. Mas as falas são de Caetano Veloso. E acompanhar sua mudança pode ser didático para entender melhor o país.

A patrulha ideológica

O irmão mais velho do cancelamento atual se chama “patrulhamento ideológico”. Esta expressão foi cunhada pelo cineasta Cacá Diegues naquele mesmo ano de 1978, em outra famosa entrevista, agora publicada por O Estado de S. Paulo.

Cacá vinha sendo muito criticado por seu filme, Xica da Silva, que foi sucesso de bilheteria, não ser político o suficiente. É desse patrulhamento que Caetano também se queixava. Mas talvez o que tenha doído mais foi ter sido pressionado por colegas artistas, como Elis Regina.

Na época, Elis excursionava com seu show Transversal do Tempo e ironizava publicamente Caetano por não se engajar no processo de abertura política. Em determinado momento do espetáculo, o cenário era coberto por uma enorme tela em que a palavra “gente” aparecia como se fosse o logotipo da Coca-Cola, lendo-se “beba gente”. 

A referência era a uma das músicas de sucesso de Caetano à época: Gente, que aliás está no repertório do atual show comemorativo dele com Maria Bethânia, cujo disco correspondente ganhou um Grammy em 2026. E se o leitor não compreendeu de imediato a ironia, lembre-se de que a disputa ideológica era capitalismo x socialismo (travestido de nacionalismo no Brasil). Quem simbolizava mais o capitalismo do que a Coca-Cola?

Traidores da cultura esquerdista

Mas essa patrulha contra Caetano vinha de muito antes. Em 1968, quando da produção do disco Tropicália, depois da gravação da icônica Baby, Caetano, Gal, Gil e outros, foram comemorar no restaurante Patachou, na rua Augusta, em São Paulo. Lá estava Geraldo Vandré, o renomado cantor de músicas de protesto, como Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores. Quem conta sobre o ocorrido é o próprio Caetano, em seu livro Verdade Tropical: 

“(...) ao perceber nosso entusiasmo pela gravação, [Geraldo] pediu que Gal lhe cantasse a canção recém-gravada. Quando tinha ouvido o suficiente para ter uma idéia do que era, ele a interrompeu bruscamente, batendo na mesa e dizendo: 'Isso é uma merda!'. Gal calou-se assustada e eu, indignado, disse a ele que saísse dali. Ele ainda quis argumentar dizendo que nós estávamos traindo a cultura nacional, mas não permiti que ele concluísse o discurso e, gritando, exigi que nos deixasse, ressaltando que ele ao menos deveria ter sido cortês com Gal, cujo canto suave ele interrompera de forma tão grosseira. Isso inaugurou uma inimizade pessoal que traduzia nossa divergência ideológica - mas não houve nenhuma outra discussão agressiva nem a desavença ganhou publicidade.”

Na verdade, desde antes da ditadura militar, quando Gil e Caetano estavam na faculdade, ambos já não eram bem vistos pela esquerda. Em sua (auto)biografia Gilberto Bem Perto, escrita em coautoria com Regina Zappa, Gilberto Gil revelou: “Eu não era propriamente alinhado com aquela turma. Eles tinham uma denominação específica para esse tipo de gente: linha auxiliar. Eu tomava conta da Escola de Samba Unidos do CPC. E dizia claramente: não acredito nessa utopia. (...) O justo meio está na igual possibilidade dos extremos.”

Caetano, por sua vez, disse algo semelhante em seu Verdade Tropical: “minha atitude reticente em face das certezas políticas de meus amigos suscitava neles uma irônica desconfiança. Eu era um desses temperamentos artísticos a que os mais responsáveis gostam de chamar de ‘alienados’.”

De 68 a 78, Gil e Caetano foram presos pela ditadura, exilados, e Gil compôs com Chico Buarque a icônica Cálice, em 73. Eles sempre foram de esquerda, mas nada disso bastava. Seguiram sendo acusados de alienados, desengajados, traidores da cultura esquerdista, que Vandré e outros achavam ser sinônimo de nacional.

De traidores a ícones e guardiões

Voltemos a 2026. Quanta diferença, não? De lá para cá, Caetano e Gil se tornaram mais do que ícones da esquerda cultural. Tornaram-se também gatekeepers da MPB, ou seja, porteiros que podem abrir e fechar portas a novos talentos. Quem recebe a benção de ambos, costuma ter portas escancaradas no meio artístico. Quem não, boa sorte. 

Por causa desse poder — buscado ou não —, cunhou-se a expressão “máfia do dendê”. O termo foi criado pelo jornalista e crítico cultural Claudio Tognolli, que os acusou no fim dos anos 1990 de exercer uma influência indevida sobre os cadernos culturais dos grandes jornais brasileiros, citando jornalistas que teriam sido demitidos a pedido de Caetano. Ele próprio, Tognolli, afirmou ter sido obrigado a participar da publicação de uma reportagem elogiosa a Dorival Caymmi por exigência de Gilberto Gil.

No século XXI, Gil foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008. Em 2009, a produtora de sua família, a Gege Produções, teve projetos para captação via Lei Rouanet aprovados. Dentre outras polêmicas envolvendo recursos públicos e prestação de contas, Gil continuou influente como comprova o mais recente patrocínio dos Correios, uma empresa falida, ao seu último show.

Em 2011, Maria Bethânia, irmã de Caetano, conseguiu aprovação de R$ 1,3 milhão para criar um blog. Desses, R$ 600.000 seriam sua remuneração. Com o escândalo, Bethânia desistiu do projeto. Mas não antes de Caetano ir aos jornais defender a irmã e aproveitar para se referir a Tognolli e à acusação da “máfia do dendê”. Em 2024, quando do início da turnê dos dois, anunciou-se patrocínio de mais de R$ 16 milhões do Banco do Brasil.

Se isso não é sinônimo de poder, é preciso mudar a definição nos dicionários. E talvez por isso a autonomia de 1978 tenha ficado pelo caminho. Se na época Gil e Caetano eram criticados por não se engajarem no processo de abertura política, hoje convocam manifestação e sobem no trio elétrico para gritar: “sem anistia”. Elis Regina ficaria orgulhosa.

Mais ainda, a dupla sugestiona os artistas para que se manifestem ideologicamente, como fez Paula Lavigne, esposa de Caetano, em 2021, ao ter dito ao jornal O Globo: “Quando um artista que nunca se pronunciou se pronuncia, a gente comemora”. Como se vê, o tropicalismo matou a si mesmo, não a exigência de "uma orientação ideológica", que apenas mudou de forma.

O ciclo continua

Voltemos ao desfile de domingo. A Acadêmicos de Niterói homenageou Lula no carnaval de 2026. Ninguém foi censurado. Ninguém foi reprimido. A escola escolheu livremente, ao que parece, homenagear o presidente. Mas essa liberdade é verdadeira autonomia ou reflexo de uma cooptação ideológica tão eficaz que parece liberdade artística?

Caetano Veloso, em 1978, recusava ambas, a censura e a patrulha. Mas o Caetano de 2026 provavelmente desfilaria como destaque da Acadêmicos de Niterói. E a cultura brasileira parece seguir vivendo entre duas etapas do mesmo ciclo: ou é reprimida, ou é cooptada, sempre a serviço de quem está no poder.

A questão não é mais se o desfile da Acadêmicos de Niterói poderia ou deveria acontecer, se é legal, se é propaganda eleitoral antecipada. É se a cultura brasileira conseguirá, um dia, ser verdadeiramente autônoma — ou se está condenada a trocar de patrão a cada mudança de poder.

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