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De maneira inédita, cientistas realizaram um estudo que classifica e analisa o impacto de medicamentos antidepressivos. A pesquisa apontou grandes diferenças entre as medicações, com algumas gerando aumento de peso e variações na frequência cardíaca que podem chegar a 21 batimentos por minuto.
O estudo, conduzido por especialistas do King’s College de Londres e da Universidade de Oxford, foi publicado na revista médica The Lancet. O levantamento apontou que as distinções nos efeitos colaterais podem afetar a saúde do medicado, bem como sua capacidade de manter o uso contínuo da medicação.
Eles alertam que ninguém deve interromper o uso do antidepressivo por conta própria e defendem que a medicação seja ajustada por especialistas para se adequar às necessidades de cada paciente.
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O que os estudos revelam sobre os efeitos colaterais dos antidepressivos?
Entre os antidepressivos analisados – agomelatina, maprotilina, fluvoxamina, nortriptilina e doxepina – o estudo encontrou diferenças de efeitos colaterais em aspectos físicos e mentais. Confira alguns dos resultados:
- Um tratamento de dois meses com agomelatina resultou na perda de 2,4 kg, enquanto a maprotilina, no mesmo período, esteve associada a um ganho de quase 2 kg;
- Houve uma variação de 21 batimentos por minuto na frequência cardíaca entre a fluvoxamina, que diminuiu o ritmo do coração, e a nortriptilina, que o aumentou;
- Observou-se uma diferença de 11 mmHg na pressão arterial entre a nortriptilina e a doxepina.
É sabido que antidepressivos podem afetar a saúde física. Mas o estudo britânico, pela primeira vez, criou uma espécie de ranking que possibilita comparar os medicamentos a fim de entender as diferenças de efeitos colaterais e seus impactos.
"Há grandes diferenças entre [os antidepressivos], e isso é importante não apenas para pacientes individualmente, mas também porque um grande número de pessoas os utiliza — então, mesmo mudanças modestas podem ter um grande impacto em toda a população", afirmou o pesquisador professor Oliver Howes.

Essas diferenças apontadas pelo pesquisador podem se combinar de forma a se tornarem clinicamente relevantes – inclusive elevando o risco de infarto ou derrame.
Ou seja, mesmo que dois pacientes tenham o mesmo diagnóstico, eles podem se beneficiar de antidepressivos diferentes, a depender inclusive de suas condições de saúde.
O projeto analisou 151 estudos sobre 30 medicamentos amplamente usados no tratamento da depressão, que envolvem mais de 58 mil pacientes.
Como saber qual antidepressivo é o "melhor pra mim"?
À BBC, o doutor Toby Pillinger traçou um cenário hipotético onde três pacientes possuíam o diagnóstico de depressão e receberam a recomendação médica de tomar antidepressivos.
- A paciente A é uma mulher de 32 anos com diagnóstico de depressão e quer evitar ganho de peso:
O especialista recomenda que a paciente seja medicada com um antidepressivo como agomelatina, sertralina ou venlafaxina – que não costumam causar aumento de peso – em vez de outros fármacos amplamente usados, como amitriptilina ou mirtazapina, associados a uma maior probabilidade de ganho de peso.
- O paciente B, um homem de 44 anos também com depressão, tem como prioridade evitar efeitos colaterais que agravem seu quadro de pressão alta.
Pillinger recomenda que o paciente evite remédios como a venlafaxina, que elevam a pressão arterial. Em razão de seu quadro, ele recomendaria opções como citalopram, escitalopram ou paroxetina.
- O paciente C, de 56 anos, também com depressão tem colesterol alto:
Nesse caso, a recomendação do médico é que se evite venlafaxina, duloxetina e paroxetina e opte por opções mais neutras em relação ao colesterol, como citalopram ou escitalopram.
O quadro acima tem apenas o propósito de ilustrar como diferentes antidepressivos podem provocar efeitos colaterais distintos e como certas condições de saúde (como hipertensão ou colesterol alto) podem tornar alguns medicamentos menos indicados do que outros para cada paciente. Ele não substitui uma avaliação médica e não deve, em hipótese alguma, ser usado como recomendação para automedicação.
Caso você apresente sinais de depressão, busque ajuda profissional. Procure, em primeiro lugar, a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima de sua casa ou um serviço de saúde de confiança para receber atendimento adequado.
Existem antidepressivos "bons" e "ruins"?
Pelo fato de alguns dos medicamentos terem um efeito colateral considerado “negativo” (como o ganho de peso), pode surgir a percepção de que eles sejam “ruins” ou de que não faça sentido utilizá-los em detrimento de outros.
Entretanto, os especialistas consideram simplista demais afirmar que existem antidepressivos "bons" e "ruins".
Por exemplo: embora a amitriptilina cause ganho de peso, aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, ela também ajuda a aliviar dores e problemas de sono.
Atualmente, a classe de antidepressivos mais prescrita é a dos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) – como paroxetina, citalopram, escitalopram e sertralina –, que em geral, provocam menos efeitos colaterais físicos.
Andrea Cipriani, professor da Universidade de Oxford, destaca que é "impossível" estimar quantas, entre os milhões de pessoas que tomam antidepressivos, deveriam estar usando outro tipo de medicação ou não tomam os remédios adequados.
Entretanto, ele aponta que a maioria dos pacientes optam por "medicamentos genéricos e baratos".
Agora, os pesquisadores trabalham para desenvolver uma ferramenta online gratuita para ajudar médicos e pacientes a escolher o medicamento mais adequado.



