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Cada vez mais, os ricos estão se opondo à riqueza herdada. Laurene Powell Jobs, viúva de Steve Jobs, não pretende deixar sua fortuna para os filhos. O apresentador de televisão Simon Cowell quer deixar seu patrimônio para uma instituição de caridade voltada a “crianças e cães”, em vez de para o filho. A herdeira austríaca Marlene Engelhorn entregou grande parte de sua herança a uma “amostra representativa da população da Áustria” para que fosse distribuída como julgassem adequado. Quando o prefeito Zohran Mamdani foi eleito, Alex Soros — filho de George Soros e herdeiro de sua fortuna — publicou uma foto com Mamdani. É uma imagem poderosamente irônica: o descendente de uma imensa riqueza literalmente abraçando alguém que quer confiscar sua fortuna.
Não são apenas os super-ricos que se opõem à herança. Cinquenta e um por cento da Geração Z apoiam um aumento do imposto sobre heranças “para combater a desigualdade econômica”, uma porcentagem maior do que em qualquer outra geração. Políticos nos Estados Unidos e na Europa adotaram a mesma mentalidade, impondo pesados impostos sobre heranças e espólios para penalizar a transferência intergeracional de riqueza. Doze estados norte-americanos e o Distrito de Columbia agora cobram seus próprios impostos sobre espólios, além do imposto federal. O Reino Unido aprovou no ano passado uma lei que ampliou o número de famílias sujeitas ao imposto sobre herança.
Essa oposição cultural e política à herança pode estar se tornando cada vez mais popular, mas é venenosa. A herança é a forma pela qual as sociedades acumulam as conquistas de gerações passadas, preservando empreendimentos produtivos e construindo riqueza ao longo do tempo. O sentimento anti-legado corre o risco de minar o empreendedorismo, a continuidade institucional e os mecanismos historicamente associados à prosperidade de longo prazo.
Pense no quão central a herança é para nossa economia. Nos Estados Unidos, empresas familiares respondem por mais de 56% do PIB do país e empregam mais de 60% de sua força de trabalho. Essas empresas geralmente são ricas em ativos, mas pobres em caixa, com capital imobilizado em terras, equipamentos ou folha de pagamento, em vez de poupança líquida. Quando seus proprietários morrem, porém, os herdeiros às vezes são forçados a vender o negócio apenas para pagar o imposto sobre o espólio.
Relativamente poucas empresas estão sujeitas hoje ao imposto sobre espólios. Mas propostas recentes de reforma, como a American Housing and Economic Mobility Act de 2024 (AHEMA), reduziriam os limites de isenção e exporiam mais espólios a tributos devastadores.
As fazendas familiares estão especialmente em risco. Em 2024, por exemplo, agricultores de Wisconsin alertaram que a AHEMA “paralisaria” essas fazendas ao forçá-las a vender suas propriedades.
Famílias do Reino Unido tiveram uma experiência semelhante. Depois que a Grã-Bretanha ampliou seu imposto sobre heranças, um grupo de lobby pesquisou 4.200 empresas e fazendas familiares. Muitos entrevistados relataram cortes drásticos em contratações e investimentos. Outros disseram ter cogitado vender suas propriedades. O aumento do imposto teria colocado “200.000 empregos em risco”.
As consequências econômicas mais amplas vão além das empresas familiares. O Tax Policy Center constatou que beneficiários de uma ou mais heranças ao longo dos últimos 20 anos tinham cerca de 13 pontos percentuais a mais de probabilidade de se tornarem empresários. Cada US$ 1 milhão adicional herdado aumentava essa probabilidade em aproximadamente 1 ponto percentual. Ao reduzir as heranças após impostos, os tributos sobre herança enfraquecem diretamente um dos caminhos mais confiáveis para o empreendedorismo.
Os impostos sobre espólios podem distorcer o comportamento de uma empresa muito antes da morte do proprietário. Empreendedores normalmente reinvestem os lucros em vez de acumular ativos líquidos. Mas a perspectiva de pagar impostos sobre herança induz os proprietários a desviar capital para ativos não produtivos, como seguros de vida, para cobrir futuras obrigações fiscais. Isso reduz a inovação e freia o crescimento econômico de longo prazo.
A riqueza que construiu universidades, hospitais e instituições de caridade não surgiu do nada. Ela foi criada e transmitida por pessoas que acreditavam que suas obrigações se estendiam além de suas próprias vidas
As empresas familiares já são frágeis: 70% não sobrevivem à segunda geração. Isso, por sua vez, dificulta que empreendedores de classe média acumulem riqueza. Até mesmo Janet Yellen, que não é crítica da redistribuição, reconheceu que as heranças são “comuns entre famílias abaixo do topo da distribuição de riqueza e suficientemente significativas para que possam, de fato, desempenhar um papel em ajudá-las economicamente”.
Em um nível mais amplo, social, a riqueza herdada, associada a um senso de dever, cria a infraestrutura de uma civilização. A riqueza que construiu universidades, hospitais e instituições de caridade não surgiu do nada. Ela foi criada e transmitida por pessoas que acreditavam que suas obrigações se estendiam além de suas próprias vidas.
Os Rockefellers fundaram universidades e programas de saúde pública que ainda moldam a medicina global. Os Carnegie construíram bibliotecas e instituições educacionais que enriqueceram a vida de gerações de americanos da classe trabalhadora. Ainda hoje, as fundações dessas famílias financiam importantes programas de arte, ciência e ação social.
A crescente hostilidade em relação à riqueza geracional é uma crise moral e social. “Cada geração enxerga mais longe do que a que a precedeu porque se apoia nos ombros dessa geração”, observou Ronald Reagan. A riqueza herdada é um meio de preservar o que funciona, melhorar o que não funciona e transmitir adiante as conquistas acumuladas do passado.
A vergonha e a suspeita estão corroendo a ética da responsabilidade. Uma sociedade que ensina seus cidadãos mais capazes a sentir culpa em vez de dever não se tornará mais justa. Ela se esvaziará material, cultural e moralmente, até que reste pouco que valha a pena herdar.
©2026 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês: In Defense of Inherited Wealth



