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Este médico está tornando a cirurgia cardíaca acessível aos pobres por meio da produção em massa

Em vez de procurar o governo para consertar nosso sistema de saúde, deveríamos estar procurando por inovadores como o Dr. Devi Shetty

  • Brittany Hunter
  • Foundation for Economic Education
 | Pixabay
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O serviço de saúde é um assunto delicado. Tão delicado, de fato, que compará-lo a algo tão impessoal quanto a produção em massa de carros parece quase frio. Mas e se alguns dos nossos problemas mais graves de saúde, como o aumento dos custos dos procedimentos cirúrgicos, pudessem ser resolvidos tratando a indústria mais como a famosa fábrica de Henry Ford na Piquette Avenue? 

Na década de 1920, Henry Ford revolucionou a indústria automobilística quando encontrou uma maneira de produzir em massa o automóvel a um preço que a classe média podia pagar. Antes do modelo T da Ford, os automóveis eram um luxo reservado apenas para os ricos. Mas através de economias de escala e da linha de montagem, a Ford dominou a arte da produção em massa. Ao maximizar sua produção de carros, ele conseguiu reduzir os custos marginais, o que, por sua vez, introduziu o automóvel a uma classe inteiramente nova de pessoas. 

Mas o que o Modelo T de Henry Ford poderia nos dizer sobre tornar os procedimentos cirúrgicos mais baratos e mais acessíveis para uma ampla gama de pessoas? Acontece que ele pode dizer bastante. 

À medida que os custos dos serviços de saúde americanos continuam a subir, muitos não conseguem pagar pelos procedimentos de que necessitam tão desesperadamente. De fato, alguém precisando de uma cirurgia de coração aberto nos Estados Unidos deve pagar quase um milhão de dólares em despesas médicas. E enquanto os políticos continuam discutindo sobre como tornar os cuidados de saúde mais acessíveis, os inovadores médicos estão tirando uma página do manual de Henry Ford. Um desses inovadores é o Dr. Devi Shetty. 

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Um tipo diferente de médico 

Desde que ele era um menino pequeno crescendo no sul da Índia, Shetty sabia que ele queria ser um médico. Durante toda a sua infância, ele assistia com assombro quando os médicos locais de Mangalore reviviam seu pai cada vez que ele entrava em coma diabético. Isso deu a Shetty e seus oito irmãos e irmãs um tremendo respeito pela profissão que repetidamente salvou a vida de seu pai. 

Quando ele estava na quinta série, a professora de Shetty animadamente informou à turma que o primeiro transplante de coração do mundo havia sido realizado. E enquanto seus colegas de turma se maravilhavam com esse milagre médico, o jovem Shetty teve uma epifania: ele seria um cirurgião cardíaco. 

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Depois de concluir a faculdade de medicina na Índia, Shetty partiu para a Inglaterra, onde realizou cirurgias cardíacas no prestigiado Guy's Hospital, em Londres, durante seis anos. Enquanto ele estava contente com seu trabalho, decidiu voltar para a Índia depois que um proeminente industrial lhe ofereceu uma posição em um novo hospital de coração que ele estava abrindo em Calcutá. Esta decisão, e as experiências que ele encontrou enquanto operava neste hospital, redefiniriam mais tarde toda a carreira do Dr. Shetty. 

Ao retornar à Índia, o Dr. Shetty ganhou destaque depois que a mundialmente famosa missionária católica Madre Teresa procurou seus cuidados depois de sofrer um ataque cardíaco. Depois de ter recebido a cirurgia que salvou sua vida, administrada pelo médico, e de ter se recuperado com sucesso, a futura santa então pediu que ele fosse seu médico pessoal, uma oferta que ele dificilmente poderia recusar. E embora essa paciente famosa tenha sido quem inicialmente o levou ao centro das atenções públicas, é sua abordagem única à cirurgia cardíaca que torna o Dr. Shetty verdadeiramente extraordinário. 

Enquanto ele continuava a realizar cirurgias cardíacas em Calcutá, Shetty ficou triste ao saber que a maioria de seus pacientes não tinha meios para pagar pelo procedimento. US$ 2.400 eram muito dinheiro para seus pacientes e muitos simplesmente não o tinham. “Quando eu dizia aos pacientes o custo, eles desapareciam. Eles literalmente nem perguntavam sobre baixar o preço”, ele disse uma vez. Mas o Dr. Shetty não se contentou em simplesmente ficar ali enquanto seus pacientes ficavam sem cuidados. Em vez disso, ele encontrou uma maneira de revolucionar completamente o campo da cirurgia cardíaca abordando-a com uma perspectiva empreendedora. 

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Muito como Henry Ford, Shetty tinha uma visão de pegar o que era considerado um item de luxo que apenas os ricos podiam pagar e torná-lo acessível a todas as pessoas. 

Economias de escala 

Se o Dr. Shetty quisesse baixar os custos da cirurgia, ele precisaria cortar custos e, ao mesmo tempo, maximizar a produção. Mas, para ter autoridade para tomar essas decisões administrativas, ele teria que abrir seu próprio hospital. Então foi o que ele fez. 

Em 2001, o Hospital Narayana Hrudayalaya abriu as suas portas. Completamente financiado por entidades privadas, a instalação possui mais de 1.000 leitos. Para entender como esse número é realmente impressionante, nos Estados Unidos, os hospitais têm em média cerca de 160 leitos para pacientes que recebem cirurgia cardíaca. Isso permitiu que o hospital multiplicasse drasticamente o número de cirurgias que poderiam ser realizadas a cada dia. Também reduziu os custos – e muito. 

Conforme relatado pela Harvard Business School: 

“O objetivo do hospital era oferecer cuidados de saúde para as massas… O aspecto interessante da sua fórmula de negócio era a sua capacidade de oferecer cirurgias complexas como a de ponte aorto-coronária (popularmente conhecida como cirurgia de ponte de safena) por cerca de US$ 2.000, o que era um valor substancialmente menor do que o de outros hospitais com equipamentos similares na Índia.” 

Para colocar esse preço em perspectiva, a mesma cirurgia nos Estados Unidos custaria ao paciente cerca de US$ 75.345. Isso porque, em muitos países, como nos Estados Unidos, existem regulamentações que restringem o número de cirurgias que podem ser realizadas por cada cirurgião. Por esse motivo, a maioria dos hospitais norte-americanos realiza apenas 32 cirurgias cardíacas por dia. Mas limitar o número de cirurgias realizadas a cada dia vai contra a demanda do mercado e serve para manter o custo da cirurgia alto, controlando a oferta. 

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No hospital de Shetty, os médicos respondem à demanda real; se houver pacientes precisando de cirurgia, eles encontrarão uma maneira de atender a essa demanda. Em média, Shetty e sua equipe de cirurgiões realizam mais de 300 cirurgias cardíacas por dia. De fato, no decorrer de sua carreira, o Dr. Shetty realizou mais de 20.000 cirurgias cardíacas. Esse número é cerca de seis vezes maior do que o cirurgião americano médio deve realizar em sua vida. E com apenas 62 anos, o Dr. Shetty tem ainda muitas cirurgias para realizar. 

Comentando sobre seu modelo único de atendimento de saúde, Shetty disse: 

“Empresas japonesas reinventaram o processo de fabricação de carros. É o que estamos fazendo nos cuidados de saúde. O que a saúde precisa é de inovação de processo, não de inovação de produto.” 

Mas enquanto muitos estão aplaudindo o que Shetty foi capaz de realizar, há outros que temem que o aumento de quantidade possa resultar em uma queda na qualidade. 

“Por um lado, é uma ideia muito boa. A minha única questão com isso vem do fato de que, se você busca volumes por atacado, pode abrir mão de algo – que, geralmente, é a qualidade”, disse o médico indiano Amit Varma. Ele continuou: "Eu acho que ele chegou ao ponto em que se você aumentar o volume mais, você poderia comprometer o atendimento ao paciente, a menos que apoiado por procedimentos operacionais e processos padrão muito robustos.” 

E enquanto há alguma validade para os medos de Varma, no caso de Shetty, o oposto parece ser o caso. O Hospital Narayana Hrudayalaya tem uma taxa de mortalidade de 1,4 por cento, comparada à média de 1,9 por cento nos hospitais dos Estados Unidos. Mas mesmo essas comparações não contam a história completa, como o Wall Street Journal aponta: 

“Não é possível comparar verdadeiramente as taxas de mortalidade, diz o Dr. Shetty, porque ele não ajusta sua taxa de mortalidade para refletir a idade dos pacientes e outras doenças, no que é conhecido como taxa de mortalidade ajustada ao risco. O Conselho de Credenciamento para Hospitais e Profissionais de Saúde da Índia pede que os hospitais forneçam suas taxas de mortalidade para cirurgia, sem ajuste de risco. 

... As taxas de sucesso do Dr. Shetty seriam ainda melhores se ele se ajustasse ao risco, porque os pacientes dele muitas vezes não têm acesso a cuidados básicos de saúde e sofrem de doença cardíaca mais avançada quando finalmente chegam para a cirurgia.” 

Quando perguntado sobre como seus cirurgiões são capazes de realizar um número tão alto de cirurgias cardíacas de alta qualidade, Dr. Shetty diz: 

“A prática faz a perfeição. Existe o aprender ao fazer. Quanto mais vezes você fizer alguma coisa, melhor você se sairá nela”. 

O Futuro da Assistência à Saúde 

Embora ele já tenha mudado e salvado muitas vidas, o Dr. Shetty não se contenta em parar em cirurgias cardíacas. À medida que os custos dos cuidados de saúde aumentam, o turismo médico também aumenta. Como muitas jurisdições têm regulamentações rigorosas de saúde, a inovação foi sufocada. Como resultado, muitos consumidores americanos e europeus de saúde estão optando por viajar ao exterior em busca de cuidados menos dispendiosos. E com médicos com reputação como a de Shetty, quem pode culpá-los? 

Continuando sua missão de tornar os cuidados de saúde de qualidade acessíveis a todos, Shetty está envolvido em um projeto chamado Health City. Localizado nas Ilhas Cayman, o Health City é onde muitos dos pupilos de Shetty agora praticam. Oferecendo serviços médicos a um terço do custo dos Estados Unidos, Health City se tornou um importante ponto turístico médico. De fato, muitos dos procedimentos vêm em pacotes que incluem passagem aérea e hospedagem, tudo oferecido a um preço muito menor do que o procedimento custaria nos Estados Unidos. 

Mas há algo mais nesse local além de ser um destino para os americanos em busca de cuidados de saúde de baixo custo: sua proximidade a lugares como o Caribe, por exemplo. Como Shetty explica: 

“Há 40 milhões de pessoas vivendo no Caribe. Antes da Health City, a única opção para cuidados médicos sérios era os Estados Unidos – supondo que o paciente pudesse pagar por isso. Agora há uma alternativa.” 

Ao tratar os cuidados de saúde como um produto de massa, Shetty conseguiu aumentar a qualidade dos serviços, ao mesmo tempo em que os tornou financeiramente acessíveis para uma ampla gama de pessoas. Em vez de procurar o governo para consertar o nosso sistema de saúde, deveríamos estar olhando para inovadores como o Dr. Devi Shetty.

©2018 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês

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