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A nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS) dos Estados Unidos, divulgada no último dia 4 de dezembro, representa a mais profunda reorientação da política externa americana desde o fim da Guerra Fria, com diversas implicações para a ordem internacional. Ao romper explicitamente com os dogmas do globalismo e do livre-comércio (considerado unilateral) e abandonar o projeto de hegemonia liberal global, o documento consagra uma inflexão estratégica fundada no realismo, no equilíbrio de poder, na seletividade geográfica e na defesa prioritária do território nacional e do hemisfério ocidental.
Antes de passarmos a uma análise mais detalhada da NSS, cumpre comentar sua primeira materialização: a operação militar Absolute Resolve, realizada nas primeiras horas de 3 de janeiro corrente, sobre o território da Venezuela, e resultante na destruição de instalações militares, de comunicações e de sistemas de armas do país sul-americano, bem como na captura do ditador Nicolás Maduro e sua esposa e cúmplice nos crimes de terrorismo e tráfico internacional de entorpecentes, Cilia Flores.
O que ocorreu em Caracas é menos importante desde a perspectiva tática militar específica do que em relação a uma mudança fundamental no paradigma das interações entre os EUA e potências hostis mundo afora, em geral, e no Hemisfério Ocidental, em particular. Ademais de haver, na esteira de uma operação militar que durou cerca de 90 minutos, transferido à custódia virtual dos EUA reservas petrolíferas correspondentes a 303 bilhões de barris (USD 17 trilhões, com base na cotação atual), a ação norte-americana assinala o fim da (pessimamente utilizada) autonomia estratégica ampla da qual os países latino-americanos dispuseram nos últimos 35 anos.
Sobreveio, para a surpresa de lideranças (aliadas ou antagônicas) na América Latina e em todo o mundo, uma reprecificação brutal do custo de se opor aos interesses estratégicos dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. Trata-se de realidade que não terá escapado a nenhuma capital regional, do México a Brasília, e que poderia ter tido sua estrutura teórica desvelada pela leitura atenta da National Security Strategy, publicada quase um mês antes da operação militar na Venezuela.
Retornemos à análise: no centro da reorientação estratégica proposta, está a rejeição explícita da ideia de que os EUA devam sustentar a ordem internacional como seu principal fiador político, militar e econômico, o que teria enfraquecido o país, drenado recursos e aumentado o risco de envolvimento em guerras entre grandes potências. Nesse cenário, Washington redefine sua atuação como a de uma grande potência que reconhece limites, escolhe prioridades e aceita a lógica de um mundo multipolar.
Ainda assim – e este é um dado revelador –, a NSS foi recebida no Brasil com um silêncio quase absoluto por parte da mídia, como se uma mudança estrutural na estratégia da principal potência do sistema internacional fosse um detalhe irrelevante.
Essa indiferença não é casual. Ela expõe a precariedade do debate estratégico brasileiro, marcado por reflexos ideológicos, apego retórico, carreirismo burocrático travestido de comprometimento estratégico, fórmulas diplomáticas esvaziadas (a exemplo da defesa simplória do multilateralismo como um fim em si mesmo e da aplicação ideologicamente seletiva de normas de Direito Internacional Público, sem prejuízo de outras que serão abordadas na segunda parte deste ensaio) e profunda incapacidade de pensar poder, hierarquia e conflito em termos concretos, refletindo a ausência de direção de uma nação que insiste em se conectar ao mundo sem compreendê-lo.
Estratégia como escolha: menos ambição, mais foco
O ponto de partida da NSS é um diagnóstico contundente: ao tentar transformar praticamente qualquer tema internacional em interesse vital, os EUA acabaram por não priorizar nada. A expansão ilimitada da agenda externa diluiu recursos, corroeu apoio interno e gerou guerras prolongadas sem ganhos proporcionais.
Exemplos dessa estratégia dispersiva e custosa são a presença militar dos Estados Unidos no Afeganistão (2001-2021), a II Guerra do Golfo (2003) e o envolvimento norte-americano nas mudanças de regime na Líbia e no Egito, na esteira da “Primavera Árabe” (2010-2012), e na Guerra Civil Síria (2011-2024), dentre outros.
A nova NSS resgata um princípio elementar do pensamento estratégico: estratégia exige escolha, e escolher implica renunciar. Nem todos os países, regiões ou causas podem estar no centro da política externa americana. O foco passa a ser a proteção dos interesses nacionais centrais: segurança do território, estabilidade geopolítica entre grandes potências e preservação da base econômica, industrial e tecnológica que sustenta o poder militar.
Nesse ponto, o documento avança além do campo estritamente militar e assume dimensão político-econômica decisiva. O fortalecimento da indústria – sobretudo da Base Científica, Tecnológica e Industrial de Defesa, também integrada pela dimensão correspondente à Inteligência Artificial (IA) – deixa de ser tratado como questão técnica ou setorial e passa a ser compreendido como instrumento central de poder nacional. Sem capacidades industriais autônomas robustas, a dissuasão perde credibilidade.
Reindustrializar, nesse contexto, significa gerar empregos qualificados, reconstruir cadeias produtivas domésticas, reduzir vulnerabilidades externas e recuperar a capacidade de sustentar conflitos de alta intensidade por períodos prolongados, algo que a desindustrialização das últimas décadas tornou cada vez mais improvável. Parte-se do pressuposto de que mercados não são neutros do ponto de vista estratégico. A dependência excessiva de cadeias globais de suprimento, a externalização da produção e a submissão irrestrita às lógicas do livre-comércio revelaram-se fontes de fragilidade nacional.
Autonomia estratégica, nessa visão, não é autarquia, mas capacidade estatal de garantir os meios materiais da própria segurança. Nesse ponto, a NSS rompe com o paradigma globalista dominante desde os anos 1990, ao sustentar que o livre-comércio unilateral e a deslocalização industrial enfraqueceram gravemente a Base Industrial de Defesa americana, degradando sua capacidade de produzir armamentos, munições, plataformas aéreas, navais e terrestres, sistemas estratégicos, equipamentos médicos e medicamentos em escala compatível com as necessidades de um hegemon.
Mais do que isso, afirma-se que essas políticas contribuíram diretamente para a ascensão da China como principal rival dos EUA, processo alimentado por trilhões de dólares em subsídios indiretos, acesso privilegiado ao mercado americano e transferência de tecnologia em diversos setores. O que foi apresentado como eficiência econômica revelou-se, do ponto de vista estratégico, uma monumental transferência de poder.
Nesse contexto, reverter a desindustrialização, encurtar cadeias de suprimento e reduzir dependências externas passam a ser objetivos estratégicos tão relevantes quanto alianças formais ou presença militar avançada. Essa reorientação também busca atrair investimentos produtivos de longo prazo, ao sinalizar que Washington está disposta a coordenar, proteger e priorizar setores considerados críticos – da indústria bélica às tecnologias sensíveis, passando por energia, minerais estratégicos, logística, semicondutores e data centers de inteligência artificial, dentre outros.
O resultado esperado é duplo: reforçar a capacidade militar e reconstruir o pacto social interno, duramente afetado pela desindustrialização, pela precarização do trabalho e pela erosão da classe média.
Em termos teóricos, trata-se de uma ruptura clara com os princípios clássicos do liberalismo econômico, que pressupõem a separação entre economia e segurança e a primazia da eficiência de mercado sobre considerações estratégicas. A NSS adota uma lógica de economia política do poder, na qual Estado, indústria e segurança nacional são partes indissociáveis de um mesmo projeto estratégico.
Ao recentrar sua política externa nesses pilares, os EUA abandonam a ambição de administrar o mundo e passam a concentrar-se prioritariamente naquilo que consideram essencial à sua sobrevivência como grande potência. Menos ambição universal, mais foco estratégico. Menos retórica normativa, mais capacidade material. É essa lógica, incômoda para globalistas, que estrutura a nova grande estratégia americana.
De superpotência global a potência hemisférica
Um dos eixos centrais do documento é a redefinição do papel geopolítico dos EUA, transitando de uma superpotência com compromissos globais difusos para uma potência predominantemente hemisférica e retomando uma lógica estratégica anterior à Segunda Guerra Mundial. A ambição de presença universal cede lugar à priorização explícita do espaço geográfico considerado vital à segurança americana.
Nesse novo arranjo em que o Hemisfério Ocidental assume centralidade, os objetivos prioritários são a proteção das fronteiras nacionais, o combate ao crime transnacional, o controle dos fluxos migratórios e a exclusão de potências extra-hemisféricas de posições militares, logísticas ou infraestruturais relevantes na região.
Para a consecução de seus objetivos, Washington limitará, se necessário, a autonomia estratégica de países do Hemisfério Ocidental, particularmente no que tange a parcerias estratégicas de com potências extra-regionais que possam perfazer ameaça aos interesses estratégicos americanos.
Essa abordagem, interpretada como uma atualização da Doutrina Monroe agora adaptada ao contexto da competição geopolítica com China e Rússia, retira América Latina e Caribe da periferia diplomática e as recoloca como componentes diretos da segurança nacional americana, tendência que já se materializava na concentração de meios navais no Caribe, na pressão sobre o regime venezuelano (culminando na operação Absolute Resolve), na revalorização estratégica do Canal do Panamá como gargalo logístico crítico e no interesse explícito pela Groenlândia como ativo fundamental para a projeção de poder e vigilância no Ártico.
Coerente com essa lógica, a estratégia antecipa uma redistribuição estrutural das forças armadas americanas. A presença militar permanente na Europa e no Oriente Médio tende a ser reduzida, enquanto recursos, capacidades e atenção estratégica são progressivamente realocados para a defesa do território nacional e do Hemisfério Ocidental. Trata-se, em essência, de uma contração geográfica do poder americano, não por fraqueza, mas por escolha estratégica.
China e Rússia: realismo, acomodação estratégica e o retorno do equilíbrio de poder
Talvez nenhuma mudança seja tão reveladora da ruptura promovida pela nova NSS quanto a reinterpretação simultânea das relações com China e Rússia. Ao contrário da NSS de 2017, e, sobretudo, da adotada durante o governo Biden, o documento abandona a linguagem da ameaça existencial, da cruzada ideológica e da confrontação permanente entre democracias e autocracias.
A China deixa de ser descrita como pacing challenge militar ou inimigo sistêmico inevitável, sendo caracterizada como competidora econômica e tecnológica, defendendo-se a coexistência pacífica, a reciprocidade comercial e a competição regulada, em vez de uma estratégia de contenção militar abrangente no Indo-Pacífico. Trata-se de uma escolha deliberada: Washington reconhece que uma escalada direta com Pequim elevaria exponencialmente os riscos de um conflito entre superpotências nucleares, com custos humanos, econômicos e estratégicos incalculáveis.
Essa inflexão contrasta frontalmente com a abordagem do governo Biden, que tratou a rivalidade com a China como eixo organizador quase exclusivo da política externa americana, ampliando alianças militares, estimulando uma lógica de blocos e aprofundando a militarização do Indo-Pacífico, sobretudo por meio do Diálogo de Segurança Quadrilateral (QUAD, integrado por EUA, Japão, Índia e Austrália) e da parceria AUKUS (integrada por EUA, Austrália e Reino Unido). A nova NSS rejeita essa trajetória por considerá-la insustentável, perigosa e, paradoxalmente, contraproducente aos próprios interesses americanos.
No caso da Rússia, a ruptura é ainda mais evidente. Abandona-se a lógica da hostilidade estrutural e da contenção permanente que marcou a política americana desde 2014, na esteira da anexação russa da Crimeia, e radicalizada após o início da guerra da Ucrânia (2022). Em seu lugar, propõe-se uma reaproximação pragmática, com o objetivo de transformar Moscou de adversário em parceiro geoestratégico circunstancial. O cálculo é claro: neutralizar a aliança estratégica entre Rússia e China e restaurar um mínimo de estabilidade na arquitetura de segurança europeia.
Aqui, a inspiração no realismo clássico é inequívoca. Assim como Henry Kissinger, nos anos 1970, explorou a rivalidade sino-soviética para preservar o equilíbrio global, a nova NSS reconhece que o maior erro estratégico de Washington nas últimas décadas foi empurrar Moscou para os braços de Pequim. A cooperação seletiva com a Rússia, ainda que entre atores com valores políticos profundamente distintos, é apresentada não como concessão moral, mas como imperativo estratégico.
Esse retorno explícito ao realismo – incômodo para globalistas, intervencionistas liberais e “neocons” – redefine toda a lógica da política externa dos Estados Unidos. Competidores não são automaticamente inimigos; adversários não precisam ser eternos; e disputas regionais não justificam a mobilização permanente do aparato militar global.
É nesse contexto que a América Latina reaparece com força renovada na estratégia americana. Ao optar por acomodar China e Rússia no tabuleiro global, Washington desloca seu foco para onde considera vital: o hemisfério ocidental. A contenção da presença chinesa, russa e iraniana na região, o controle de rotas estratégicas, infraestruturas críticas e cadeias de suprimento, e a estabilidade política do entorno imediato dos EUA passam a ser prioridades centrais, com implicações diretas, profundas e ainda pouco debatidas para o Brasil.
O silêncio sepulcral da política externa brasileira diante dessa reconfiguração reflete a ausência de uma grande estratégia nacional capaz de compreender que o mundo voltou a ser governado por escolhas duras, hierarquias de poder e interesses nacionais explícitos. E silêncio, em política internacional, nunca é neutralidade: é irrelevância.
Enquanto Washington redefine suas prioridades com brutal clareza, rejeitando guerras intermináveis, acomodando rivais e concentrando poder onde considera vital para atender aos interesses nacionais, em estratégia realista sobre limites, custos e prioridades, Brasília permanece presa a slogans, automatismos ideológicos e uma diplomacia desprovida tanto de conceitos quanto de conteúdo.
A incapacidade de ler essa inflexão estratégica e de responder a ela com uma visão clara acerca dos interesses nacionais a serem perseguidos, conjugando fins, meios, recursos e atores políticos (econômicos, industriais, militares e tecnológicos) representa risco político de primeira ordem. É precisamente sobre esse descompasso entre a clareza geopolítica de Washington e a ausência de uma grande estratégia brasileira que trataremos na segunda parte deste artigo.
Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.



