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Novos dados divulgados pelo governo dos Estados Unidos indicam que o divórcio dos pais está associado a prejuízos duradouros na vida dos filhos. Esta é a principal conclusão de um estudo encomendado pelo Departamento do Censo do país, que acompanhou a trajetória de mais de 5 milhões de pessoas desde a infância até a vida adulta.
Segundo o levantamento, americanos entre 25 e 30 anos, cujos pais romperam o relacionamento quando eles estavam na primeira infância, têm renda média até 13% inferior à das demais pessoas. Além disso, as taxas de natalidade na adolescência entre filhos de pais divorciados aumentam 63% após a separação, em comparação com os níveis pré-divórcio.
Já o risco de morte antes dos 25 anos aumenta até 55% no momento da separação e permanece elevado por pelo menos uma década. Os índices de encarceramento, por sua vez, são três vezes maiores, na comparação com os de adultos cujos genitores permaneceram juntos.
Maggie R. Jones, que atua como pesquisadora do Departamento do Censo dos EUA, produziu a análise em parceria com Andrew C. Johnston, da Universidade da Califórnia, e Nolan G. Pope, da Universidade de Maryland. Eles cruzaram dados do próprio censo, registros do recolhimento de impostos e informações da Administração da Segurança Social do país.
O artigo que descreve e resume o levantamento explica que a motivação para realizar o trabalho foi demográfica: antes de 1950, menos de 2% das crianças americanas viviam com um único pai ou mãe divorciado(a), separado(a) ou solteiro(a). Em 2000, esse número havia saltado para quase 25%.
A separação é, como descreve o texto, “um evento marcante para uma criança, que pode impactá-la negativamente ao longo de toda a sua vida”.
Ciclo interrompido
O levantamento aponta ainda que o divórcio é mais danoso para bebês e crianças de até cinco anos — em parte, porque eles vão passar mais tempo de sua formação convivendo com a divisão de lares.
Quando se compara esta faixa etária com pessoas que vivenciaram a separação já na idade adulta, o que se vê é um aumento na taxa de natalidade na adolescência em aproximadamente 60%, além de crescimento de 40% na probabilidade de ser preso e de 45% nas chances de morrer até os 25 anos.
Mas o que explica as dificuldades adicionais pelas quais as pessoas formadas em lares rompidos passam? A pesquisa se aprofunda na busca por respostas e identifica que um dos impactos mais importantes é o financeiro.
Afinal, como aponta o trabalho, quando uma família se divide em duas, a renda cai, potencialmente reduzindo a capacidade de pais e mães de fornecer os níveis de investimento e de atenção pessoal anteriores ao divórcio.
Na média, individualmente, cada um dos divorciados só recupera aproximadamente metade da renda perdida uma década depois da separação — um tempo excessivamente longo do ponto de vista de uma criança em formação.
A redução da renda tem impacto na nutrição, na qualidade do atendimento à saúde, no acesso à educação de qualidade e até mesmo na moradia: a probabilidade de mudança quase triplica após a separação.
“As famílias pesquisadas se mudaram para bairros com renda 7% menor e menos oportunidades econômicas”, aponta o relatório. “Os pesquisadores também descobriram que o rompimento aumentou a distância média entre os filhos e o pai ou a mãe que não residia com eles em 160 quilômetros, em média, uma diferença que aumentou para mais de 320 quilômetros após 10 anos”.
Além disso, ambos os pais acabam por trabalhar mais devido ao aumento da pressão financeira: as mães 8% mais horas e os pais 16% mais, o que reduz o contato com os filhos — e atinge um outro aspecto fundamental para o desempenho futuro das crianças: a transmissão direta de valores e comportamentos, o que ajuda a explicar a maternidade mais cedo e os maiores riscos de infringir a lei.
Como aponta o trabalho, um outro fator adiciona uma camada extra de dificuldade em dedicar recursos e tempo para as crianças: “Metade dos pais casa-se novamente em cinco anos, introduzindo padrastos e madrastas na vida dos filhos. Assim, os pais aumentam o número de dependentes, o que indica que o divórcio e o novo casamento criam novas responsabilidades familiares que podem dispersar a atenção e os recursos”.
Casamentos mais curtos
No Brasil, em 2024, foram registrados 428.301 divórcios em primeira instância ou realizados por escrituras extrajudiciais, uma redução de 2,8% em relação ao ano anterior, de acordo com um levantamento divulgado em dezembro de 2025 pelo IBGE. Em 45,8% das separações, o casal tinha filhos menores de idade.
Em média, os homens se divorciam aos 44,5 anos e as mulheres, aos 41,6 anos. Para cada 100 casamentos registrados, ocorreram cerca de 45,7 divórcios. O tempo médio entre a data do casamento e a data da sentença ou escritura da separação é de 13,8 anos, contra aproximadamente 16 anos em 2010 — sinal de que os relacionamentos estão durando menos, em geral.
O impacto psicológico sobre as crianças é conhecido e documentado. Um trabalho acadêmico publicado em 2020, produzido por Claudia Paresqui Roseiro, Kely Maria Pereira de Paula e Camila Nasser Mancini, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, mediu os níveis de estresse em 30 crianças de 10 a 12 anos cujos genitores estavam se separando.
A pesquisa aponta que o contexto familiar “é um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento dos sujeitos, de maneira que sua dinâmica, recursos e características serão fatores de forte influência nos desdobramentos no ciclo vital, especialmente durante a infância e adolescência”.
O documento reforça ainda que “a promoção de uma estrutura de apoio sólida e uma dinâmica de acolhimento e estimulação, já nos primeiros anos de vida, mostra-se essencial na garantia de um desenvolvimento sadio, impactando desde o bem-estar do indivíduo, até mesmo a harmonia social e a produtividade das nações ao redor do mundo”.
A pesquisa então constata: “O divórcio, associado a circunstâncias como conflito interparental, afastamento de um dos genitores, problemas financeiros e outros estressores contextuais, pode acarretar respostas de estresse, problemas de saúde física e psicológica nos filhos, afetando seu desenvolvimento, sobretudo com relação ao rendimento acadêmico, relações interpessoais e problemas comportamentais internalizantes e externalizantes”.







