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Troca no mercado

Fim das bets favorece avanço de sites adultos no futebol

Mesmo antes da proibição das bets, uniforme do Corinthians já divulgava site pornográfico.
Mesmo antes da proibição das bets, uniforme do Corinthians já divulgava site pornográfico. (Foto: EFE/Demian Alday)

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Em 25 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou a medida provisória que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, com prazo até 5 de outubro para que as marcas saiam de placas e uniformes. Na manhã do domingo seguinte, o Corinthians recebeu uma proposta de R$ 120 milhões por um ano de patrocínio máster, assinada pela Fatal Model, maior plataforma de anúncios de acompanhantes do país. O governo que regulamentou as bets em 2023 e decidiu bani-las às vésperas da eleição fez o anúncio em nome das famílias e não explicou quem vai ocupar o espaço mais caro do futebol brasileiro, um uniforme exibido na TV aberta e diante de arquibancadas com crianças.

O Corinthians confirmou que recebeu a oferta. O espaço principal do uniforme pertence hoje à Esportes da Sorte, casa de apostas que paga R$ 150 milhões por ano ao clube e agora está impedida de operar. A Fatal Model afirma ter oferecido R$ 100 milhões ao Flamengo, que recebe R$ 268,5 milhões anuais da Betano, e o clube carioca diz não ter recebido proposta alguma. "Oficializamos na manhã deste domingo propostas de patrocínios para Flamengo e Corinthians", declarou ao Lance! o diretor de negócios da empresa, Samuel Ongaratto, que contabiliza mais de 20 clubes patrocinados em dez anos de operação.

O grupo dono da Fatal Model já frequenta o Parque São Jorge. A Fatal Fans, plataforma de assinatura de fotos e vídeos pornográficos do mesmo conglomerado, fechou em junho um contrato de R$ 22 milhões, válido até o fim de 2027, para aparecer no calção do time masculino. A negociação quase foi encerrada depois da reação negativa de parte da torcida.

Em Belém, o Remo voltou à Série A depois de 31 anos com a logomarca da Fatal Model ao lado do número dos jogadores, num acordo de cerca de R$ 1 milhão pela temporada. O Vitória exibiu a mesma marca de 2023 a 2025 e, quando o contrato terminou, colocou no uniforme a Skokka, outro site de acompanhantes. O presidente do clube baiano, Fábio Mota, explicou que o dinheiro pagaria sete voos fretados no Brasileirão.

A MP de nove dias antes da urna

Lula apresentou a medida com frase de palanque. "Esse negócio de bet é a coisa mais horrorosa que eu vi na vida", disse, enquanto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, atribuía aos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro o descaso com o setor. Coube à oposição lembrar o resto da cronologia. A Lei 14.790, que criou o mercado regulado com outorga, tributação e autorização prévia da Fazenda, foi sancionada pelo próprio Lula em dezembro de 2023, com votos da bancada do PT. O governo arrecadou com as casas de apostas por quase três anos e resolveu fechá-las a nove dias do primeiro turno, com o Congresso em recesso eleitoral e por meio de um instrumento que perde a validade se não for convertido em lei em até 120 dias. O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, chamou a MP de estelionato eleitoral e previu que, se ela caducar, as bets "podem voltar com força total".

A justificativa oficial foi o vício e o endividamento das famílias. É o mesmo argumento que os críticos das plataformas de conteúdo adulto usam há meses contra os patrocínios no futebol, e a medida provisória não dedica uma linha a elas.

Confiabilidade por osmose

Em agosto, a Folha de S.Paulo publicou um debate sobre o veto à publicidade de conteúdo adulto nos clubes. O "sim" veio assinado pelo epidemiologista espanhol Miguel A. Martínez-González, catedrático de medicina preventiva e saúde pública da Universidade de Navarra e professor adjunto de Harvard, e por Rodolfo Canônico, diretor-executivo do Family Talks.

O artigo lembra que a idade da primeira exposição a material sexualmente explícito caiu para 11 anos na Espanha, segundo dados oficiais, e para cerca de 12 no Brasil. Cita uma meta-análise com estudos de sete países que associa o consumo de pornografia a maior probabilidade de agressões sexuais, sobretudo contra mulheres, e o Ministério Público espanhol, que liga esse consumo ao aumento de crimes sexuais cometidos por menores e estima que, para 30% dos jovens do país, a pornografia online é a única fonte de educação afetivo-sexual.

Os autores recusam a ideia de que a proteção caiba só aos pais, já que as regras da casa mais cuidadosa esbarram no celular do colega de escola, e encerram com um raciocínio de epidemiologista: "o tempo de agir é antes que o contágio pareça normal".

Dias antes, Samuel Ongaratto, cofundador da Atlas Technologies, dona das duas marcas, explicou à própria Folha a lógica do investimento no Corinthians. Segundo ele, uma marca adulta colocada ao lado de marcas confiáveis, num lugar de prestígio, absorve a credibilidade delas "por osmose". A repórter entrou na Fatal Model e na Fatal Fans sem passar por nenhuma verificação de idade, e o executivo respondeu que o sistema de checagem só estava funcionando em Maceió. A empresa sustenta que a presença institucional da marca no esporte não representa oferta nem acesso a conteúdo adulto pelo público dos jogos.

Na mesma página da Folha, o advogado André Marsiglia defendeu o "não". Para ele, se a empresa é lícita e a publicidade se limita à marca, sem conteúdo erotizado, o debate pertence à moral, e não cabe ao Estado fazer escolhas morais pelo cidadão. Marsiglia estendeu o raciocínio às bets, que, escreveu, exerciam atividade autorizada e regulada no país, e sete semanas depois uma medida provisória assinada às pressas tirou delas essa condição, deixando a licitude que sustentava o argumento à mercê do calendário eleitoral do Planalto.

O que o ECA previu em 1990

O Estatuto da Criança e do Adolescente garante no artigo 71 o direito a esportes e espetáculos que respeitem a "condição peculiar de pessoa em desenvolvimento". O artigo 79 proíbe anúncios de bebida alcoólica e tabaco, entre outros produtos, em revistas destinadas ao público infantojuvenil, e o 78 obriga a vender em embalagem lacrada as publicações impróprias. O legislador tinha em mente a banca de jornal. A camisa de clube transmitida em TV aberta ficou fora da letra da lei, e o caso do Corinthians chegou ao Ministério Público de São Paulo por meio de representações que alegam o risco de normalizar esse consumo entre crianças e adolescentes.

O ECA Digital, a Lei 15.211, sancionada em 2025, passou a exigir verificação etária nos sites adultos, e o Corinthians afirma ter checado que a Fatal Fans cumpre a regra. A exigência vale para quem tenta acessar a plataforma e nada diz sobre o nome dela estampado no calção de um time de futebol.

Quem agiu até agora foi um estado. No Rio, com base na Lei estadual 10.613/2024, que proíbe a divulgação de conteúdo adulto em espaços públicos, a Secretaria de Defesa do Consumidor e o Procon multaram o Consórcio Maracanã, a Ferj e a Fatal Model em quase R$ 878 mil por anúncios exibidos nos painéis de LED durante o Campeonato Carioca, final entre Flamengo e Fluminense incluída.

Em Brasília, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) apresentou em julho um projeto para proibir esse tipo de publicidade em eventos esportivos, o que colocou uma parlamentar do PSOL e uma organização de defesa da família do mesmo lado de uma discussão que o Planalto preferiu não abrir.

A prostituição não é crime no Brasil, mas o Código Penal pune quem mantém casa de prostituição ou tira proveito da prostituição alheia. As plataformas se apresentam como classificados que vendem espaço para anúncios e ficam fora das negociações entre clientes e acompanhantes, e é essa atividade, lícita segundo seus donos e tratada como exploração sexual por seus críticos, que agora disputa o uniforme com as casas de apostas.

A MP das bets foi justificada pelo dano que o jogo causa às famílias, o mesmo tipo de dano que Martínez-González e Canônico atribuem à pornografia com dados de saúde pública, e o governo que adotou o argumento para fechar um setor que ele próprio regulamentou não o estendeu ao negócio que se ofereceu para ocupar o lugar dele.

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