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Do golpe de 1953 aos protestos de 2026: os ciclos de opressão no Irã

Manifestantes iranianos demonstram apoio ao príncipe exilado Reza Pahlavi em ato na Suíça, em fevereiro de 2025.
Manifestantes iranianos demonstram apoio ao príncipe exilado Reza Pahlavi em ato na Suíça, em fevereiro de 2025. (Foto: EFE/EPA/SALVATORE DI NOLFI)

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As fragilidades do regime teocrático do Irã estão sendo expostas pelos protestos que eclodem em diversas cidades daquele país, e os motivos podem ser muito mais profundos do que somente a instabilidade com inflação próxima dos 40%. A revolta contra o regime dos aiatolás soma a insatisfação com políticas falhas, mas também um crescente amargor pela repressão que os cidadãos da antiga Pérsia sofrem sob as mãos da Guarda Revolucionária. Esses eventos atuais, com confrontos violentos e subsídios emergenciais anunciados pelo governo, evocam ciclos históricos de opressão e resistência, como os narrados por Robert Fisk em A Grande Guerra pela Civilização; especialmente o golpe de 1953 contra Mohammad Mossadegh e a Revolução Islâmica de 1979.

O golpe de 1953 contra Mossadegh

Em 1951, Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro democraticamente eleito, nacionalizou a Anglo-Iranian Oil Company, desafiando interesses britânicos no petróleo iraniano e provocando um boicote econômico que devastou a economia local. No ano seguinte, a Operação Ajax, articulada pela CIA e pelo MI6, subornou generais, clérigos e políticos para fomentar protestos falsos pró-Xá e derrubar Mossadegh em 19 de agosto de 1953, restaurando o poder absoluto de Mohammad Reza Pahlavi.

Contudo, para o jornalista britânico Robert Fisk, a “Operação Botas/Ajax – apesar de, sem sombra de dúvida, o motivo ser o petróleo – nunca teve a intenção de mudar o mapa do Oriente Médio, e muito menos de levar a ‘democracia’ para o Irã”.

Fisk dedica páginas a esse episódio em seu livro, descrevendo-o como um ato de intervencionismo que plantou sementes de ressentimento antiocidental duradouro, pavimentando o caminho para regimes autoritários subsequentes.

A Repressão da Savak sob o Xá

Consolidado no poder pelo Ocidente, o Xá implantou a Savak, polícia secreta temida que operava com impunidade nas prisões como Evin. Fisk também relata que essa máquina de terror, treinada por agentes americanos e israelenses, prendia dissidentes políticos, intelectuais e religiosos sem processo legal, criando um clima de medo que permeava a sociedade iraniana por duas décadas.

A brutalidade da Savak gerou uma fúria acumulada, manifestada em multidões que queimavam retratos do Xá e efígies da monarquia em praças públicas durante os meses pré-revolucionários, transformando o descontentamento em revolta coletiva que culminou em 1979.

A Revolução Islâmica de 1979

A Revolução Islâmica eclodiu após meses de greves, marchas e confrontos, culminando no retorno triunfal de Ruhollah Khomeini do exílio em fevereiro de 1979, recebido por milhões em Teerã como símbolo do fim da monarquia corrupta. Fisk, como correspondente para o Oriente Médio do britânico The Times, testemunhou pessoalmente as execuções sumárias de generais da Savak, pendurados em guindastes diante de multidões jubilosas que gritavam “Allahu Akbar”, em atos que representavam uma justiça popular vingativa após anos de humilhação.

Esse período inicial de euforia, no entanto, rapidamente deu lugar a um novo regime teocrático, com tribunais revolucionários substituindo torturas da Savak por enforcamentos públicos e consolidação do poder clerical, repetindo em essência os padrões autoritários que a revolta pretendia erradicar.

Paralelos com os protestos de 2026

Os levantes atuais em Teerã, Isfahan e províncias ocidentais repetem demandas por liberdade, fim da corrupção e alívio econômico. Os atos se assemelham aos de 1979, com mulheres e jovens à frente dos cortejos. O líder supremo Ali Khamenei rotula os manifestantes como “tumultuadores inimigos”, enquanto a Guarda Revolucionária, herdeira espiritual da Savak, utiliza táticas semelhantes de bala de borracha e prisões noturnas, agravadas por sanções internacionais que triplicaram o preço de alimentos básicos. Diferentemente do contexto de 1953, quando potências estrangeiras orquestraram a restauração monárquica, a crise de 2026 amplifica-se pela conjunção de isolamento global e falhas internas. Mas o padrão persiste: elites políticas ignoram vozes populares, optando por força em vez de diálogo genuíno.

Além disso, um nome se levanta em alguns protestos, um verdadeiro eco dos anos 50: Reza Pahlavi, filho do último Xá Mohammad Reza Pahlavi e herdeiro exilado da monarquia iraniana. Aos 65 anos e radicado nos Estados Unidos desde a Revolução de 1979, Pahlavi classificou as manifestações atuais como “a chama de uma revolução nacional” e convocou greves gerais, incluindo entre forças de segurança, para pressionar o regime dos aiatolás. Gritos como “Pahlavi voltará” ecoam em Teerã e outras cidades, conforme vídeos viralizados e relatos de veículos como Iran International, sinalizando nostalgia pela era pré-teocrcia apesar da repressão sofrida sob o pai.

Ciclos a romper

O regime iraniano atual reproduz erros históricos ao priorizar a repressão sobre reformas estruturais. Os legados de subornos ocidentais, torturas sistemáticas e euforias revolucionárias mal resolvidas perpetuam a desconfiança popular e fragilizam a legitimidade estatal. Romper esse ciclo exige não apenas concessões econômicas paliativas, mas um reconhecimento profundo desses padrões para evitar que os protestos de 2026 se transformem em mera repetição da história autoritária.

José Caetano é jornalista.

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