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Quando o imperador Sigismundo, no Concílio de Constança, em 1414, cometeu um erro gramatical em latim diante de uma assembleia de teólogos e juristas, um prelado ousou corrigi-lo. A resposta do imperador — que ele estava acima da gramática — provocou a réplica célebre: Caesar non est supra grammatico (“O imperador não está acima dos gramáticos”). A anedota, repetida por séculos com variações e embelezamentos, cristalizou-se como uma espécie de axioma civilizacional: o poder, por mais absoluto que se pretenda, encontra no conhecimento um limite que não pode ignorar sem se desmoralizar. A gramática — isto é, a estrutura do saber, as regras que organizam o pensamento — seria uma instância superior ao mando político.
Essa ideia percorreu a história do Ocidente como um fio discreto, mas persistente, muito antes da formulação ocorrida no Concílio de Constança. Os filósofos da corte de Frederico II, Sacro Imperador Romano-Germânico no século XIII, desafiavam a autoridade papal com argumentos silogísticos. Os juristas de Bolonha construíram o edifício do direito romano reinterpretado, e os príncipes que quisessem governar com alguma legitimidade precisavam, no mínimo, fingir que respeitavam aquelas categorias. Tomás de Aquino, ao sistematizar a teologia com o rigor da filosofia aristotélica, ofereceu ao papado uma armadura intelectual que era também uma camisa de força: se a razão organiza a fé, o papa não pode contradizer a razão sem contradizer a fé que pretende defender.
O Iluminismo elevou esse princípio a programa político. Os enciclopedistas franceses não apenas desafiaram a monarquia absoluta: quiseram substituí-la, ao menos em tese, por um governo da razão. Voltaire escrevia cartas que faziam tremer a corte em Versalhes, não porque tivesse exércitos, mas porque dominava a opinião. O conhecimento era caro, pois demandava bibliotecas, tutores, anos de estudo, o luxo do ócio. E justamente porque era caro, era raro; e porque era raro, era poderoso. O gramático podia enfrentar o soberano precisamente porque poucos gramáticos existiam, e cada um deles representava um investimento civilizacional formidável. Note-se a ironia: o poder do conhecimento derivava, em boa medida, de sua escassez. O conselheiro do príncipe valia ouro porque substituí-lo era difícil. Maquiavel não seria lido em todas as cortes da Europa se houvesse um Maquiavel em cada esquina. A assimetria entre o poder bruto e o poder intelectual repousava sobre uma economia implícita: produzir inteligência — formar um jurista, um estrategista, um teólogo — custava caro. O custo marginal da inteligência era altíssimo, e isso conferia ao intelectual uma posição negocial sólida diante do soberano.
É essa economia que está sendo demolida.
O advento da inteligência artificial generativa representa algo inédito na história humana: não a mera automação de tarefas repetitivas, que a revolução industrial já havia iniciado, mas o colapso do custo de produção da própria inteligência. Quando um modelo de linguagem pode redigir um parecer jurídico, analisar um texto clássico, formular estratégias diplomáticas ou sintetizar o conhecimento de mil bibliotecas em segundos, o custo marginal da inteligência tende a zero — expressão que os economistas usam com frieza técnica, mas cujas consequências políticas são vertiginosas.
Até ontem, um chefe de Estado que desejasse elaborar uma campanha sofisticada de desinformação precisava de equipes de analistas, linguistas, psicólogos, redatores. Hoje, precisa de um prompt bem formulado. Até ontem, vigiar e interpretar as comunicações de milhões de cidadãos exigia aparatos burocráticos colossais — a Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, empregava, entre funcionários e informantes, cerca de meio milhão de pessoas para monitorar dezessete milhões de alemães orientais. Hoje, algoritmos de processamento de linguagem natural fazem o trabalho de exércitos de burocratas, sem pedir férias, sem ter crises de consciência e sem escrever memórias arrependidas após a queda do Muro de Berlim.
A questão que se impõe não é, portanto, se a inteligência artificial é útil — isso é trivial. O problema que se nos apresenta é o que acontece com a moderação do poder quando o conhecimento deixa de ser escasso.
Segundo a lógica econômica, aquilo que é abundante perde valor. A água, essencial à vida, custa menos que um diamante, como observado por Adam Smith n’A Riqueza das Nações. Se a inteligência se torna ubíqua — disponível a qualquer agente, em qualquer escala, a custo negligenciável —, ela deixa de funcionar como contrapeso ao poder. O gramático que corrigia o soberano tirava sua autoridade da raridade de sua competência. Quando qualquer césar pode invocar mil gramáticos virtuais com um clique, a gramática não modera mais nada: ela serve.
E serve a quem já tem poder. Pois o poder, convém lembrar, existe exclusivamente no contexto das relações humanas. Não se exerce poder sobre pedras ou algoritmos; exerce-se poder sobre pessoas. E nas relações humanas, o que é raro tem valor, e o que é abundante se torna instrumento. Quando o conhecimento era escasso, o soberano precisava do sábio — e esse precisar conferia ao sábio uma dignidade, uma margem de manobra, um direito implícito de contestação. Quando o conhecimento é abundante, o soberano precisa apenas de servidores — e a máquina é o servidor perfeito, porque obedece sem questionar. Há quem objete que a democratização do conhecimento via IA beneficia igualmente o cidadão comum e o Estado. É uma objeção simpática, mas ingênua. A assimetria de poder entre o indivíduo e o Estado não reside apenas no acesso à informação, mas na capacidade de agir sobre ela. Um cidadão munido de inteligência artificial pode redigir petições mais eloquentes; um Estado munido de inteligência artificial pode processar, classificar, prever e coagir populações inteiras. A escala não é simétrica. Nunca foi — mas agora a assimetria se multiplica por um fator que ainda mal compreendemos.
O filósofo coreano Byung-Chul Han, com seu talento para o diagnóstico sombrio, já alertava para a emergência de uma “sociedade da transparência” (em ensaio homônimo, publicado em 2012) na qual a vigilância se tornaria tão onipresente que dispensaria os métodos grosseiros da coerção física. A inteligência artificial realiza essa profecia com uma eficiência que nem Han poderia ter antevisto, sobretudo por não ser mais necessário prender o dissidente, bastando prever o que ele dirá antes que o diga, e ajustar o ambiente informacional para que sua mensagem nunca encontre audiência. A censura do futuro não queima livros — ela os torna invisíveis.
Aqui é oportuna uma reflexão histórica. A imprensa de Gutenberg, ao baratear a reprodução do texto, enfraqueceu o monopólio eclesiástico sobre o saber e possibilitou a Reforma. Mas a mesma tecnologia permitiu a produção massiva de panfletos de propaganda, guerras religiosas devastadoras e, eventualmente, a consolidação de Estados nacionais que controlavam a informação com eficiência antes impossível. A tecnologia que liberta num primeiro momento frequentemente é capturada pelo poder no momento seguinte. A diferença é que a inteligência artificial não barateia apenas a reprodução de textos — barateia a produção do próprio pensamento articulado. O salto qualitativo é de outra ordem.
É tentador buscar consolo na ideia de que as sociedades livres saberão regulamentar essa tecnologia. Conquanto seja uma possibilidade, a regulamentação pressupõe que o regulador compreenda aquilo que regula, e aqui surge outro paradoxo: os Estados mais capazes de regular a inteligência artificial são precisamente os que mais se beneficiam de seu uso irrestrito. Pedir a um governo que limite o emprego de IA na vigilância é como pedir a um general que desista de sua melhor arma em plena batalha. Possível, em tese; improvável, na prática.
Estamos, portanto, diante da inversão de um fenômeno que caracterizou essencialmente toda a História. Durante séculos, a gramática podia olhar césar nos olhos e dizer-lhe haver limites, pois o conhecimento, justamente porque era custoso e raro, impunha ao poder uma forma de respeito — ainda que frequentemente violado, mais simbólico do que efetivo. Era, com alguma licença, a última dignidade do espírito diante da espada. Agora, quando a inteligência se produz a custo quase nulo, essa dignidade se dissolve. O césar do século XXI não precisa mais temer o gramático: ele o contrata por centavos de dólar, aos milhares, em versão digital, e o põe a trabalhar vinte e quatro horas por dia redigindo decretos, analisando oposições, otimizando a coerção.
A metáfora final talvez seja esta: imaginemos uma praça medieval onde o gramático, de pé sobre uma caixa de madeira, lê em voz alta os erros do imperador, enquanto a multidão escuta, e o imperador, constrangido, recua. Agora imaginemos essa mesma praça, mas com mil gramáticos idênticos, todos falando ao mesmo tempo, alguns a favor do imperador, outros contra, outros dizendo coisas sem sentido nenhum, e a multidão, aturdida, sem conseguir distinguir quem diz a verdade. E no centro da praça, o imperador, sereno, assistido por uma máquina que lhe sussurra ao ouvido exatamente o que cada pessoa na multidão quer ouvir. A gramática não desapareceu — multiplicou-se até a insignificância. E césar, sorridente, finalmente está acima dos gramáticos, não porque os tenha calado, mas porque os tornou baratos demais para que alguém se dê ao trabalho de ouvi-los.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem aquelas do MRE.



