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Sucesso entre os jovens

O que é a pelada gamer de Neymar que ameaça o futebol tradicional

A King's League virou uma febre entre os jovens e Neymar é presidente de um time.
A King"s League virou uma febre entre os jovens e Neymar é presidente de um time. (Foto: Divulgação/Kings League)

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Se você tem mais de 40 anos, talvez nunca tenha ouvido falar da King’s League. Tudo bem, não é vergonha alguma. Agora, pergunte o que é a um jovem da Geração Z, alguém que tenha entre 18 e 29 anos, e a resposta virá em tom de exclamação: “é muito melhor que futebol”, “é muito mais emocionante”, “é muito mais dinâmico”. 

A King’s League (ou Liga do Rei, na tradução direta do inglês) foi criada há pouco tempo, em 2023, e é um esporte que parece o tradicional futebol inventado na Inglaterra. Os duelos opõem dois times, cada um com sete atletas, há duas metas a serem defendidas por goleiros e o jogo se disputa com os pés e uma bola. Mas só parece futebol. 

Quando a bola rola, a dinâmica da competição é mais parecida com uma partida de videogame do que com a movimentação de 22 jogadores em um campo oficial comum. A diferença está nas regras bastante originais da atividade que virou uma febre entre a garotada no mundo inteiro.

Ideia do ex-marido da Shakira

A Kings League foi criada pelo ex-jogador do Barcelona e da seleção da Espanha Gerard Piqué junto com o streamer Ibai Llanos. O também ex-marido da cantora colombiana Shakira usou sua empresa de investimentos em esporte e entretenimento, a Kosmos, para colocar na praça uma novidade desenhada para atrair a gurizada. E deu certo. 

O novo conceito partiu da seguinte premissa: transformar o jogo de futebol em um espetáculo digital. Para tanto, as partidas deveriam ter um ritmo alto, menor tempo e toda equipe estar relacionada a uma celebridade ou streamer famoso, que atuam como “presidentes” e, ao mesmo tempo, embaixadores dos times. 

As regras do jogo fogem totalmente do futebol tradicional justamente para “viralizar”, gerar clipes curtos para serem distribuídos na internet. As substituições são ilimitadas, não há empates (as decisões ocorrem no gol de ouro ou nos “shootouts”) e há “cartas especiais” que, se bem utilizadas, podem alterar o ritmo e o placar dos confrontos em poucos segundos. 

“Nosso modelo de negócio é diferente. No futebol tradicional, as ligas, Copa do Mundo e todas essas organizações vendem seus direitos para a televisão, geralmente no modelo pay-per-view. Nós queremos alcançar o maior número possível de celulares, tablets e televisores”, explicou Piqué, em entrevista no lançamento da modalidade.  

“Nós estamos investindo na marca King’s League e queremos entrar em cada vez mais lares. Oferecemos os direitos de transmissão gratuitamente para os streamers, para que eles possam exibir os jogos e reagir aos jogos. Isso faz com que o engajamento e a conexão com os fãs sejam muito maiores”, complementou o ex-zagueiro.

Produto para o streaming

O palco principal da King’s League (e das cópias que já estão surgindo) é o streaming. A competição é organizada para ser transmitida pela internet, não assistida ao vivo em ginásios e estádios. Embora, com o sucesso crescente, algumas iniciativas já levaram milhares de torcedores para assistir os duelos in loco. 

A liga nasceu e cresceu nas plataformas virtuais, com torneios transmitidos na Twitch e no YouTube, entre outros canais. O alcance da modalidade também é impulsionado diretamente pelos times. Cada equipe projeta a própria comunidade, multiplicando a audiência nos perfis dos “presidentes”. O jogo é pensado para render cortes, memes e ser recheado de “melhores momentos”, quase o tempo inteiro.

Casa dos milhões

Os números de audiência ajudam a explicar o fenômeno. A Kings World Cup Clubs 2025, realizada em Paris em junho, atingiu cerca de 102 milhões de espectadores sintonizados nas transmissões ao vivo, segundo dados oficiais do evento. As finais geraram 1,4 bilhão de impressões e 950 milhões de visualizações nas redes sociais.

Já na King’s World Cup Nations 2026, disputada no Brasil, e vencida pela seleção dona da casa, a decisão do campeonato alcançou um pico de mais de 2,3 milhões de espectadores simultâneos. Outras partidas da equipe brasileira registraram resultado expressivo semelhante de audiência.   

Tamanho interesse está atraindo a atenção dos veículos tradicionais de mídia, que já começaram a transmitir jogos de futebol de 7 no mesmo formato da King’s League. A americana ESPN já veicula os jogos e outras grandes empresas do entretenimento também exploram os torneios, como a Disney+ e a Cazé TV no Brasil.

Grana preta

A Kings’League e seus formatos congêneres viraram negócio, e dos grandes. Em 2023, a franquia original faturou 20,5 milhões de euros e fechou o ano com lucro líquido, apoiada por patrocínios, ingressos e merchandising. Em 2024, a Kosmos, a empresa de Piqué, captou € 60 milhões de euros para acelerar a expansão internacional. 

Empresas gigantes de diversos mercados se aliaram ao novo estilo de jogo com bola. É o caso de marcas como Bis, iFood, Yopro e Superbet, que patrocinaram a edição brasileira da King’s League. A Adidas, o McDonald´s, Spotify, Red Bull e Air Asia, por sua vez, são parceiras globais do empreendimento.

É coisa para a molecada

O público da Kings League tem um perfil bem distinto do futebol tradicional, com forte presença de jovens. Segundo a consultoria SportsPro Media, até 85% dos espectadores têm menos de 35 anos, muitos entre 18 e 34 anos, um grupo que costuma consumir esportes principalmente por streaming e redes sociais.

A interação com influenciadores e celebridades expande o alcance demográfico, atraindo fãs não apenas de futebol, mas de gaming, cultura pop e entretenimento, reforçando o apelo entre públicos jovens e conectados.

Sucesso no Brasil e time do Neymar

O formato estreou sua versão brasileira em 2025 como um marco do projeto global. Em sua primeira edição, somou 78,8 milhões de visualizações ao vivo, tornando-se a disputa mais assistida da história da competição. A final, no Allianz Parque, reuniu mais de 40 mil pessoas, público comparável a grandes clássicos do futebol nacional. 

Parte central desse apelo está no comando das equipes por celebridades. No Brasil, Neymar, Ludmilla, Kaká, Gaules, Nobru e o Desimpedidos lideram franquias e participam ativamente da dinâmica do torneio. Eles não apenas emprestam seus nomes, mas interagem com fãs, influenciam decisões e ampliam o alcance da liga nas redes. 

Neymar é o presidente e embaixador de um dos times brasileiros, o FURIA FC. Ele dirige a equipe ao lado do amigo e sócio Cris Guedes e participa da montagem do elenco no draft, distribuição dos jogadores pelos times aos moldes dos esportes americanos. 

O jogador do Santos também já participou de momentos especiais da competição, como a famosa regra do “pênalti do presidente”, que permite ao mandatário do time cobrar um pênalti durante as partidas. A participação de Neymar é alvo de críticas pelos torcedores santistas, que cobram maior envolvimento do atleta com a camisa do Peixe.  

O perfil brasileiro da King’s League no Instagram já supera 1,7 milhão de seguidores, enquanto partidas e conteúdos circulam simultaneamente em Twitch, YouTube, TikTok e outras plataformas, com transmissões, bastidores e material exclusivo. O apelo no universo virtual é um dos trunfos da modalidade.

Mas ameaça o futebol?

Dizer que a King’s League representa uma ameaça ao futebol tradicional seria forte demais. Agora, que o torneio representa uma mudança cultural que pode, sim, impactar a disputa convencional com a bola é algo bastante razoável. Já há tempos as entidades do esporte, lideradas pela Fifa, buscam alternativas para tornar o jogo mais dinâmico e televisivo.  

Analistas de mídia e esportes veem a Kings League como reflexo de uma transformação no consumo esportivo, sobretudo entre jovens. O formato curto, com elementos de entretenimento, para além do apelo esportivo, e forte presença digital, atende à chamada Geração Z. Esse perfil de audiência é justamente aquele que as ligas tradicionais têm mais dificuldade em captar nos meios convencionais. 

Alguns especialistas e executivos sugerem que a liga pode coexistir com o futebol de 11, servindo como complemento e atraindo público que hoje está fora do radar das grandes competições. Não substituirá o futebol tradicional, mas representa um desafio estratégico para clubes e competições clássicas, que precisam aprender a se conectar com o público jovem.

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