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Rita Lee, Ney Matogrosso, Heitor dos Prazeres, Rosa Magalhães, Ciça… não vão faltar enredos biográficos no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro neste carnaval. Das 12 escolas, oito vão homenagear personalidades. Mas nenhuma delas causa tanto burburinho quanto a novata Acadêmicos de Niterói, que vai estrear na elite das escolas de samba contando a história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Será o desfile de abertura do evento em 2026, na noite de domingo, 15 de fevereiro, com transmissão pela TV Globo a oito meses da eleição presidencial. Como o regulamento do desfile proíbe propaganda política, a escola tem orientado seus componentes a não fazer o L com as mãos enquanto estiverem desfilando.
O tema escolhido pela escola surpreendeu, mas a trajetória da agremiação também espanta: registrada como pessoa jurídica em março de 2018, a Acadêmicos de Niterói só teve atividades a partir de 7 de setembro de 2022, quando ganhou um presente de outra escola da cidade, a Acadêmicos do Sossego. Fundada em 1969 em Niterói, a Sossego desfilava no Rio de Janeiro desde 1996 e estava na Série Ouro, a segunda divisão das escolas de samba do Rio. Cinco meses após se classificar em sexto lugar no desfile de 2022, anunciou que voltaria a desfilar em Niterói e cedeu seu lugar na Série Ouro à coirmã.
Hugo Júnior, que fora diretor de carnaval da Sossego em 2019 e desde 2020 presidia a agremiação, assumiu a presidência da Acadêmicos de Niterói para sua estreia no carnaval, em 2023. Danilo Cezar, que em junho de 2022 havia sido anunciado como intérprete da Sossego, passou a ser o cantor oficial da nova escola.
Em seu primeiro desfile, a Acadêmicos de Niterói levou ao sambódromo do Rio o enredo "O Carnaval da Vitória", que retratou o ano de 1946 e o primeiro carnaval após o fim da 2ª Guerra Mundial. Sob o comando do carnavalesco André Rodrigues, a escola obteve o quinto lugar dentre as 15 escolas.
Em 2024, com o enredo "Catopês - um Céu de Fitas", sobre uma festa popular da cidade mineira de Montes Claros, desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins, a escola se classificou em oitavo lugar. Meses depois do desfile, Hugo Júnior deixou a presidência da Acadêmicos de Niterói para assumir a chefia da Liga Independente do Grupo A do Rio de Janeiro (LIGA-RJ), entidade que organiza o desfile da segunda divisão das escolas de samba.
Escola derrotou concorrente "petista"
Em 2025, a grande favorita para vencer a segunda divisão era a União de Maricá, cujo presidente de honra é o atual prefeito de Maricá e vice-presidente do PT Washington Quaquá. A escola foi criada em 2015 por iniciativa de Quaquá e fez operação parecida com a da Acadêmicos de Niterói: assumiu o CNPJ do Império da Praça Seca, escola de samba criada apenas seis anos antes, e estreou na passarela em 2016, desfilando na Série C, a quarta divisão das escolas de samba do Rio, ficando em quarto lugar. Em 2018 venceu a disputa e passou à terceira divisão (Série Prata), e em 2023 conquistou o título e passou à segunda divisão.
Após a quarta posição em sua estreia na segunda divisão, em 2024, a União de Maricá investiu pesado para o carnaval seguinte: recebeu subvenção de R$ 8 milhões da prefeitura e contratou o carnavalesco Leandro Vieira, que já havia conquistado três títulos na elite (dois pela Mangueira e um pela Imperatriz Leopoldinense) e dois na segunda divisão (pela Imperatriz e pelo Império Serrano). Com o enredo "O Cavalo de Santíssimo e a Coroa do Seu 7", sobre Seu Sete da Lira, uma manifestação de Exu, a escola encerrou o desfile de 2025 aos gritos de "é campeã".
Antes mesmo do desfile, Quaquá já dava como certa a vitória: "Tem mais dinheiro, o melhor carnavalesco, a melhor alegria, o melhor desfile, e vai perder por quê? Por que vão chorar? Manda chorar quem não tem dinheiro para investir no carnaval", afirmou horas antes de a escola desfilar, segundo registrou o jornal "O Globo".
Longe de qualquer favoritismo, a Acadêmicos de Niterói desfilou na noite seguinte. Com o enredo "Vixe Maria", sobre festas juninas, desenvolvido pelo mesmo carnavalesco do ano anterior (Tiago Martins), a escola sagrou-se campeã com 269,5 pontos, tendo perdido apenas meio ponto. A União de Maricá ficou em quinto lugar, com 268,8 pontos, sob protestos de Quaquá.
"O carnaval da Série Ouro é uma vergonha! Roubam à luz do dia", escreveu o petista nas redes sociais, sem poupar a prefeitura do Rio. "A RioTur é cúmplice, quando não é parceira", continuou, referindo-se à empresa de turismo do município do Rio. "Não dá pra levar o carnaval a sério", lamentou Quaquá.
Janja promete desfilar
A escola de samba liderada pelo vice-presidente do PT não chegou à elite, mas a agremiação que conseguiu essa proeza decidiu homenagear o principal líder do partido. O nome oficial do enredo é "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil" - mulungu é uma árvore típica do agreste pernambucano na qual o futuro presidente brincava quando criança. O tema foi anunciado em julho e, conforme o desfile se aproxima, os boatos aumentam.
A Acadêmicos de Niterói deve receber pelo menos R$ 8 milhões em dinheiro público para investir no desfile. Cada uma das 12 escolas do Grupo Especial, nome dado à primeira divisão das escolas de samba, vai receber R$ 1 milhão do governo federal e aproximadamente R$ 2,6 milhões da prefeitura e do governo do Estado do Rio. A Acadêmicos de Niterói, assim como a Unidos do Viradouro, outra escola de Niterói que desfila na elite do Rio, vai receber também R$ 4,4 milhões da prefeitura de Niterói.
O orçamento da escola poderia ser maior: em 15 de dezembro, o Ministério da Cultura autorizou a escola a captar até R$ 5,1 milhões em incentivos fiscais por meio da Lei Rouanet, mas a agremiação desistiu, devido ao tempo exíguo para concluir a operação - teria menos de dois meses para buscar investidores e firmar os contratos.
O presidente Lula não deve desfilar, mas é esperado no sambódromo. A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, confirmou que vai participar do desfile. A promessa foi feita quando ela visitou o barracão da escola de Niterói pela primeira vez, em 6 de outubro. Bia Lula, neta do presidente, é outra familiar do petista que deve participar da exibição.
Amigos e correligionários de Lula também vão desfilar, como Antônio Pitanga. A ex-primeira-dama Marisa Letícia, que morreu em 2017, vítima de um acidente vascular cerebral, será representada pela atriz Juliana Baroni, que também interpretou Marisa no filme "Lula, o Filho do Brasil", lançado em 2009.
O samba-enredo lulista
O samba foi composto sob encomenda por nove músicos, liderados por famosos como Arlindinho (filho de Arlindo Cruz), Teresa Cristina e André Diniz. O grupo tem ainda Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-tem Jr. Um dos refrões reproduz o jingle adotado por Lula desde a campanha presidencial de 1989, entremeado a um verso de um samba de Chico Buarque: "Olê, olê, olê, olá / Vai passar nessa avenida mais um samba popular / Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula!" Esse trecho não foi incluído no clipe veiculado pela TV Globo para divulgar o samba-enredo.
Será a primeira homenagem explícita a um presidente em exercício na história do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Na história dos desfiles, iniciados em 1932, há muitas homenagens disfarçadas - a realizações de governantes, por exemplo.
Durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945), sob pressão do presidente Getúlio Vargas, as escolas de samba homenagearam símbolos nacionais e iniciativas do governo - em 1944, por exemplo, o enredo da Portela foi "Símbolos Patrióticos", que exaltava a bandeira do Brasil, o brasão da República e o Hino Nacional, entre outros símbolos.
A exaltação a Vargas continuou mesmo após sua morte: em 1956, a Mangueira levou à avenida o enredo "O Grande Presidente", cujo samba de Padeirinho figura entre as pérolas musicais da Verde e Rosa.
O enaltecimento do governo se repetiu durante a ditadura militar (1965-1985): em 1975, por exemplo, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou o enredo "O Grande Decênio", em que festejava as realizações do governo militar durante seus dez primeiros anos.
A partir de 1985, as críticas ao governo se tornaram mais frequentes do que os elogios. Naquele ano mesmo a Caprichosos de Pilares cantou, no enredo "E por falar em saudade": "Diretamente, o povo escolhia o presidente / Se comia mais feijão / Vovó botava a poupança no colchão / Hoje está tudo mudado / Tem muita gente no lugar errado". Em 1988, a Imperatriz Leopoldinense cantou: " Eu voto pra não esquecer / A vida tem que melhorar / O povo na Constituinte / Vai ter mesa farta, sorrir / E até cantar / Quá, quá, quá / Você caiu, caiu / É brincadeira, é primeiro de abril".
Em 2018 a Paraíso do Tuiuti fez uma suposta alusão ao então presidente Michel Temer (MDB) exibindo em um carro alegórico o boneco de um vampiro com a faixa de presidente da República.



