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Bobeou, dançou

Acabou a brincadeira: como Maduro foi do deboche à prisão

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, capturado no sábado pelos EUA (Foto: Miguel Gutiérrez/EFE)

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Entrou para a história a imagem de Nicolás Maduro com os olhos cobertos, usando abafadores de ouvido, em trajes civis e segurando uma garrafa d’água nas mãos. A foto, a primeira do ditador da Venezuela sob custódia americana, foi divulgada pelo presidente Donald Trump, em 3 de dezembro.  

Rapidamente, o retrato viralizou e ganhou as capas de sites e jornais internacionais. O registro ilustrou, de forma crua e chocante, a queda de um líder que durante anos desafiou Washington e construiu sua imagem política a partir do confronto retórico com os EUA.  

Ao longo dos últimos tempos, o venezuelano se mostrou reiteradamente à vontade para minimizar, ironizar e até debochar da escalada de tensão com os Estados Unidos. Mesmo diante de sanções severas impostas à Venezuela, acusações criminais e alertas públicos de autoridades americanas.   

Esse comportamento performático, segundo apuração do New York Times com funcionários da administração republicana, teve peso real nas avaliações internas em Washington sobre como lidar com o regime de Maduro. E foi decisivo para Trump autorizar a captura de Maduro em Caracas.

1) A última dancinha 

O episódio mais recente e simbólico ocorreu em 31 de dezembro, durante um evento oficial transmitido pela televisão estatal. Maduro apareceu dançando ao som de uma música eletrônica que remixava frases usadas por ele próprio em discursos anteriores, como “paz sim” e “não à guerra”.   

Em tom de zombaria, o venezuelano comentou ao microfone: “É a música número um da temporada venezuelana, não poderia barrar da lista da Billboard [a parada de sucesso musicais nos EUA]”.  

2) Sem "guerra louca" 

Antes, em 23 de outubro, o ditador já havia adotado tom semelhante em uma assembleia com sindicatos ligados ao chavismo. Diante de apoiadores, ele misturou inglês para ironizar os alertas vindos da Casa Branca. 

“Yes peace, yes peace, forever, peace forever. No crazy war! Não à guerra louca! No crazy war!”, bradou Maduro. A encenação foi amplamente repercutida nas redes oficiais do regime. 

3) O "John Lennon" venezuelano 

A postura de Maduro não era nova. Em fevereiro de 2019, após os Estados Unidos anunciarem novas sanções e reforçarem que “todas as opções estavam sobre a mesa”, Maduro foi à TV. Em cadeia nacional, o ditador respondeu cantando trechos de “Imagine”, o clássico pacifista do ex-beatle John Lennon.   

Na ocasião, o venezuelano se apresentou como vítima de uma suposta perseguição imperialista e ironizou o discurso norte-americano. Caracas já vivia um momento de forte isolamento internacional.  

4) É tudo Hollywood 

Maduro voltou ao sarcasmo já em março de 2020, quando o Departamento de Justiça dos EUA formalizou acusações de narcoterrorismo e ofereceu uma recompensa milionária por informações que levassem à sua captura. O ditador classificou as denúncias como um “show de Hollywood” e riu diante das câmeras ao afirmar que os Estados Unidos estavam “desesperados” e não tinham provas concretas. 

5) Os EUA são "engraçados" 

Em 2022, com a manutenção das sanções econômicas e novas advertências do governo americano, o venezuelano voltou a zombar da pressão externa. Em discurso televisionado, disse que as punições eram “papéis sem valor” e que a Venezuela havia aprendido a “rir das ameaças” vindas do Norte. 

6) "Latem, mas não mordem" 

O tom jocoso se repetiu em 2024. Após falas de autoridades dos EUA sobre possíveis medidas mais duras contra o regime, o venezuelano ironizou os alertas em um ato público transmitido pelas redes oficiais. Chamou-os de “ameaças recicladas” e afirmou que os Estados Unidos “latem muito, mas não mordem”. A fala arrancou aplausos de apoiadores.  

Chega de brincadeirinha 

As piadas, músicas, encenações e bravatas consolidaram a imagem de um líder que tratava a pressão americana como blefe. Uma sucessão de gestos que contribuiu para a avaliação dos EUA de que Maduro subestimava os riscos ao desafiar repetidamente Washington em público. 

O desfecho, materializado na imagem divulgada por Trump, mostrou que o confronto, até então no discurso, teve consequências reais. Acabou a brincadeira para Maduro.  

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