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Leitura obrigatória

Como “Meu Pé de Laranja Lima” virou fenômeno literário na Ásia 

Livro "Meu Pé de Laranja Lima" virou leitura obrigatória na China e na Coreia do Sul
Livro "Meu Pé de Laranja Lima" virou leitura obrigatória na China e na Coreia do Sul (Foto: Imagem gerada utilizando a ferramenta Gemini)

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O que explica que a história de um menino pobre da periferia brasileira, escrita em 1968, tenha se transformado em best-seller em livrarias na Coreia do Sul e na China? “Meu Pé de Laranja Lima” é um caso raro da literatura nacional que atravessou continentes, comoveu gerações e encontrou na Ásia um público fiel.

Escrito por José Mauro de Vasconcelos, durante o período de repressão militar no Brasil, o livro já ultrapassou mais de 400 mil exemplares vendidos somente ao público chinês. Desde a primeira edição lançada no país, em 2010, já são quatro relançamentos e mais de 30 reimpressões. A obra acumula premiações e virou leitura recomendada pelas escolas do país.

O sucesso da publicação na Coreia do Sul segue roteiro semelhante. Desde que chegou ao país, o romance-infanto juvenil que conta a história de Zezé só ganha ainda mais fama e espaço, tanto do ponto de vista da crítica, quanto do público. Mas o que explica tamanho apreço?

Os motivos literários do sucesso

Não é possível identificar como exatamente “Meu Pé de Laranja Lima” conquistou o mercado literário coreano e virou até leitura obrigatória para crianças do ensino fundamental. Pode ter sido apenas pela vontade de um editor interessado em literatura produzida internacionalmente. 

Como foi o que ocorreu na China. O editor do lançamento em mandarim, Wang Yongnian, ouviu de um professor universitário que um aluno coreano havia escrito uma tese de mestrado sobre o livro brasileiro. Foi o que bastou para Yongnian. 

Mas as explicações sobre por que virou um sucesso são mais fáceis de encontrar. E a principal delas é sobre a universalidade do relato de José Mauro de Vasconcelos. O autor carioca conta uma história comum, capaz de emocionar qualquer um.

Zezé é um menino pobre, inteligente e sensível que vive com a família numerosa na periferia do Rio de Janeiro. Incompreendido e frequentemente castigado, ele encontra refúgio na imaginação e faz de um pé de laranja-lima seu confidente, transformando a árvore em amiga e cúmplice de suas fantasias.

A rotina dura muda quando Zezé conhece Portuga, um homem mais velho que se torna figura de afeto e proteção. A amizade oferece a Zezé acolhimento, mas também o confronta com a dor da perda. Entre ternura e sofrimento, a história do livro retrata a passagem abrupta da infância para a maturidade.

Com esse cenário, “Meu Pé de Laranja Lima” provoca reflexões ao retratar a infância marcada por punições e incompreensão. A relação de Zezé com os pais expõe os impactos da falta de diálogo e convida os leitores a repensar práticas educativas e a importância do cuidado emocional na formação das crianças.

Os motivos “virais” do sucesso

Mas não é só a universalidade e a qualidade literária da obra que explica o sucesso além das fronteiras brasileiras. Como comumente ocorre em histórias de consagração, “Meu Pé de Laranja Lima” se aproveitou de situações pontuais que impulsionaram as vendas em território asiático.

O livro já era popular na Coreia do Sul quando apareceu em uma série de tevê. Foi em 2011, em “Hometown Cha Cha Cha”, um dorama (os dramas televisivos coreanos) que está atualmente disponível na Netflix.

Na série, a dentista Yoon Hye Jin deixa a cidade grande e se muda para um vilarejo litorâneo para abrir a própria clínica após frustrações na carreira. Aos poucos, a personagem conquista os primeiros pacientes e, em uma consulta, uma criança revela que seu livro favorito é “Meu Pé de Laranja Lima”.

O livro brasileiro também inspirou adaptações em “manhwa”, como são chamados os mangás, as histórias em quadrinhos coreanas. Um deles publicado ainda em 2011, com roteiro e arte do ilustrador Woorinoori.

Assim, entre reconhecimento crítico e aparições na cultura pop, o romance de José Mauro de Vasconcelos consolidou uma trajetória rara para um livro brasileiro no exterior. Mais do que um sucesso pontual, a obra se tornou presença constante no imaginário de leitores de diferentes gerações.

Inspiração musical e polêmica

“Meu Pé de Laranja Lima” também inspirou outra adaptação na Coreia do Sul. Neste caso, entretanto, além de impulsionar a curiosidade sobre a obra-prima de Vasconcelos, acabou detonando uma polêmica com o lançamento da música “Zeze” pela cantora de K-Pop IU.

A canção, inspirada no menino de cinco anos do livro, foi apontada por parte do público como uma sensualização do personagem, gerando acusações de apologia à pedofilia. A editora do livro no país, Dongnyok Publishing, lamentou que Zezé tenha sido retratado como objeto sexual.

Em carta aberta, a cantora IU negou a intenção de sexualizar a criança e afirmou que o Zezé da canção é uma criação ficcional. A cantora admitiu, porém, que o conteúdo pode ter soado ofensivo. A polêmica, no entanto, pôs o livro no topo das buscas de leitores no país.

Artigo examina o fenômeno

Fenômeno literário, o livro virou também tema de análise. O professor Paul Sneed, da Universidade Nacional de Seul, decidiu investigar o sucesso. Em “My Sweet Orange Tree, Korea, and the Relational Imagination”, o estudioso traz alguns motivos para a ampla popularidade na Coreia do Sul.

Sneed aponta que a tradução do título para a língua local equivale à “Minha Doce Laranjeira”, de conotação mais positiva que o original. A análise articula história e política, mas se concentra na dimensão cultural, recorrendo à teoria da relacionalidade, inspirada nas proposições filosóficas de Martin Buber.

Para o pesquisador, a experiência autoritária compartilhada por Brasil e Coreia ajuda a explicar a recepção inicial da obra. Ele identifica uma “insistência do relacional e da imaginação” como traço cultural coreano que favorece a permanência do romance, mantido vivo por sucessivas traduções e novas edições.

Sucesso também no Brasil

Publicado em 1968, “Meu Pé de Laranja Lima” se consolidou como um dos romances mais lidos da literatura nacional. A história de Zezé também foi adotada em escolas e virou referência afetiva e formadora para milhões de leitores.

A obra ocupou um lugar singular no imaginário popular ao unir linguagem acessível e sensibilidade ao retratar a infância marcada pela pobreza do personagem. O livro se tornou um clássico, capaz de dialogar com públicos diversos e manter a relevância mesmo ao longo de décadas.

Autor prolífico

José Mauro de Vasconcelos nasceu no Rio de Janeiro, em 1920, e teve uma trajetória marcada por dificuldades financeiras e múltiplas profissões antes de se firmar como escritor. Foi boxeador, pescador e ator, experiências que influenciaram sua literatura de forte apelo popular.

Vasconcelos publicou mais de 20 livros, mas alcançou projeção nacional com “Meu Pé de Laranja-Lima”, obra de caráter autobiográfico. Outros títulos como “Doidão e Rosinha” e “Minha Canoa” consolidaram seu estilo direto, emocional e centrado na infância e na natureza. 

“Meu Pé de Laranja-Lima” foi traduzido em mais de 50 línguas e ganhou adaptações para cinema, televisão e teatro. A última delas, para a telona, foi dirigida por Marco Bernstein e lançada em 2013. O filme está disponível nas plataformas de streaming Amazon Prime e Google Play.   

Mesmo sendo um dos autores brasileiros mais lidos do século XX, Vasconcelos enfrentou dificuldades de saúde e financeiras em seus últimos anos de vida. O carioca morreu em 24 de julho de 1984, aos 64 anos, em São Paulo, vítima de complicações decorrentes de problemas respiratórios e broncopneumonia.

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