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opinião

Não há nada de ecológico no socialismo

Para maximizar a produção, os países socialistas tinham padrões de emissões baixos ou inexistentes. Os regulamentos de saúde e segurança ou eram ignorados ou inexistentes. Também proibiam os sindicatos independentes e em muitos casos recorreram a trabalho escravo

  • Marian L. Tupy FOUNDATION FOR ECONOMIC EDUCATION
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No mês passado escrevi sobre os esforços resolutos de socialistas de ambos os lados do Atlântico para equacionar capitalismo com racismo. Alguns promotores do capitalismo foram racistas, com certeza. Mas isso não chega a surpreender, já que o racismo, a escravidão e a crueldade brutal eram fenômenos universais e, até pouco tempo atrás, eternos. 

A verdade é que nenhuma sociedade na história documentada se aproxima dos padrões elevados de comportamento civilizado que esperamos uns dos outros no Ocidente contemporâneo, ou seja, democrático e capitalista. A objeção que apresentei em minha coluna era à noção implícita de que o socialismo seria de alguma maneira menos racista. E, como demonstrei com um olhar sobre a história do socialismo, o oposto está mais próximo de ser a verdade 

No entanto, o nobre selvagem de Jean-Jacques Rousseau – um ser mitológico que vive em harmonia com a natureza e com os outros seres – continua a ter um lugar de destaque na imaginação socialista. Considere os artigos recentes no “New York Times” intitulados The Climate Crisis? It’s Capitalism, Stupid (Crise climática? É o capitalismo, estúpido) e Lenin’s Eco-Warriors (Os ecoguerreiros de Lênin). 

No primeiro, Benjamin Y. Fong recomenda o socialismo democrático como a solução para os problemas ambientais mundiais, e no segundo Fred Strebeigh elogia Lênin, descrevendo-o como “entusiasta do camping e das caminhadas longas” que teria convertido a Rússia em “pioneira global da conservação”. 

Antes de mergulhar mais fundo na visão peculiar do NYT sobre o legado ambiental do socialismo precisamos de mais informações que nos deem um pouco de contexto. 

Propaganda socialista 

O ano de 2017 marcou o centenário do putsch bolchevique na Rússia, um acontecimento que desencadeou sobre o mundo a ideologia mais destrutiva já concebida pela mente humana. O NYT, que é a principal fonte de notícias da intelligentsia progressista nos Estados Unidos, optou por lembrar os eventos cataclísmicos de 1917 em uma série de artigos de teor positivo (e fortemente ridicularizados) com títulos como When Communism Inspired Americans (Quando o comunismo inspirava os americanos), Thanks to Mom, the Marxist Revolutionary (Graças à Mamãe, a revolucionária marxista), Make It So: Star Trek and Its Debt to Revolutionary Socialism (Faça acontecer: “Star Trek” e sua dívida com o socialismo revolucionário) e Why Women Had Better Sex Under Socialism (Por que as mulheres faziam sexo melhor sob o socialismo). 

Recordemos que por quase um século o NYT ajudou a disfarçar como inócuos os crimes perpetrados pelos regimes comunistas, a começar pelas reportagens desacreditadas de Walter Duranty – um correspondente anglo-americano que, em um caso que ficaria famoso, descreveu como “propaganda política maligna” as preocupações com a fome generalizada provocada deliberadamente na Ucrânia. 

O crime de Duranty contra os padrões jornalísticos de relatar a verdade (entre 1932 e 1934, o Holodomor [o “genocídio ucraniano” ou “a grande fome ucraniana”] matou entre 2,4 milhões e 7,5 milhões de ucranianos) lhe valeu um Prêmio Pulitzer – uma honra importante do qual o “New York Times” se recusou repetidas vezes a abrir mão. 

Mas voltemos às receitas propostas pelo jornal para salvar o planeta. Segundo jornalistas que escrevem no NYT, o capitalismo está destruindo o planeta, enquanto o socialismo (tanto em sua forma leninista original quanto em sua forma “democrática” hoje defendida pelo senador americano Bernie Sanders) poderia salvá-lo. Como escreve Fong: 

“O verdadeiro culpado pela crise climática não é qualquer forma particular de consumo, produção ou regulamentação, mas o próprio modo como produzimos globalmente, que é para fins lucrativos, não para a sustentabilidade. Enquanto essa ordem continuar em vigor, a crise vai continuar e, dada sua natureza progressiva, piorar. Essa é uma verdade difícil a ser enfrentada. Mas desviar nossos olhos de um problema aparentemente renitente não o fará menos problemático. É preciso dizer com todas as letras: a culpa é do capitalismo... 

Teremos uma chance muito melhor de continuarmos vivos depois do século 22 se os regulamentos ambientais forem traçados por uma equipe de pessoas sem educação formal, em uma sociedade socialista democrática, do que teremos se eles forem definidos por uma equipe dos luminares científicos mais prezados em uma sociedade capitalista. A inteligência das pessoas mais inteligentes que temos no mundo não é páreo para a estupidez gritante do capitalismo... 

Na defensiva há séculos, os socialistas ficaram adeptos em responder a objeções apresentadas por pessoas para quem as funções básicas da vida parecem difíceis de reproduzir sem o poder motivador do capital. Existem problemas reais aqui, problemas que apontam para a opacidade da sociabilidade, como explora em tom de brincadeira o livro mais recente de Bini Adamczak, “Capitalism for Kids”. Mas o ônus da justificativa não deve recair sobre quem propõe uma alternativa. Para qualquer pessoa que já tenha refletido realmente sobre a crise climática, é o capitalismo, e não o esforço para transcendê-lo, que precisa ser justificado.” 

A melhor solução 

Deixando de lado o “brincalhão” “Communism for Kids” (Comunismo para crianças), de Bini Adamczak, acho que é possível responder à maioria das preocupações de Fong examinando a performance ambiental real das economias socialistas e capitalistas. 

Para começar, todas as formas de produção provocam algum dano ambiental. A produção agrícola desmata florestas, desloca a fauna selvagem e destrói a biosfera. A produção industrial joga gases nocivos na atmosfera e poluentes nos rios. Mesmo o setor de serviços polui, dada sua dependência da eletricidade e as emissões concomitantes de CO2. Portanto, a pergunta real não é qual sistema econômico é o guardião perfeito do meio ambiente, mas qual sistema econômico o protege melhor. 

Quando procuramos responder a essa pergunta, precisamos manter em mente os seguintes conceitos: eficiência econômica, tragédia dos bens comuns e a Curva de Kuznets. 

As economias socialistas eram muito ineficientes. (Esse ainda é o caso das economias socialistas sobreviventes em Cuba, na Venezuela e na Coreia do Norte). Para compensar pela ineficiência do planejamento central, que emanava da ausência de um mecanismo de preços baseado no mercado, as economias socialistas de modo geral faziam vista grossa para os danos ambientais e outros fatores externos negativos. 

Para maximizar a produção (para tentarem acompanhar as economias capitalistas, muito mais eficientes), os países socialistas tinham padrões de emissões baixos ou inexistentes. Os regulamentos de saúde e segurança ou eram ignorados ou inexistentes. As economias socialistas também proibiam os sindicatos independentes e em muitos casos recorreram a trabalho escravo

O descaso dos socialistas com o meio ambiente era exacerbado por seu desprezo pelos direitos de propriedade privada. Na economia capitalista, fazendas e fábricas são propriedade de pessoas individuais ou empresas. Se elas causam danos ao meio ambiente ou à força do trabalho, seus proprietários podem ser responsabilizados nos tribunais. Nas economias socialistas, a terra e o ar (e, nos casos mais extremos, as pessoas) pertenciam ao Estado e sofreram a chamada “tragédia dos bens comuns”. 

Uma fábrica pertencente ao Estado e encarregada pelos planejadores centrais de produzir uma quantidade determinada de barras de ferro, por exemplo, não apenas podia como era incentivada ativamente a satisfazer sua cota de produção, independentemente do dano que isso pudesse causar ao ambiente e à população. 

Nas economias capitalistas, cabe ao Estado aplicar os padrões ambientais e proteger os trabalhadores. Nas economias socialistas, o Estado é ao mesmo tempo aquele que implementa as cotas de produção e o suposto protetor do meio ambiente e dos trabalhadores. Quando foi preciso optar entre as duas coisas, os socialistas quase invariavelmente escolheram a primeira: para compensar pela ineficiência do planejamento central, fizeram as coisas da maneira mais barata e fácil, mesmo que isso tivesse consequências negativas para o ambiente e os trabalhadores. 

O descaso socialista com o meio ambiente 

Esse problema é ilustrado claramente comparando a quantidade de emissões de CO2 por dólar de produção em países socialistas e capitalistas. Vale notar que as emissões nos EUA começaram com níveis baixos e foram caindo ao longo do tempo. Uma tendência semelhante pode ser observada na Rússia após a queda da União Soviética, em 1991 (infelizmente, não tenho dados sobre a URSS antes de 1991). 

Talvez o melhor exemplo de descaso socialista com o meio ambiente possa ser encontrado nos dados relativos à China. Durante o Grande Salto Adiante (1958-1962) de Mao Zedong, as emissões foram estratosféricas, comparadas às dos Estados Unidos. Elas caíram depois dessa fase, mas permaneceram muito altas até o final da década de 1970, quando a China abandonou o socialismo. Desde que a China começou a liberalizar sua economia (introduzindo o mecanismo de preços e os direitos de propriedade privada), suas emissões caíram muitíssimo. 

Em último lugar mas não menos importante, os países socialistas eram, em grande medida em decorrência do planejamento central, muito mais pobres que os capitalistas. Isso é importante devido a um fenômeno conhecido como a curva de Kuznets. Como regra geral, quanto mais ricas as pessoas, mais elas tendem a pagar por “bens de luxo”, como ar limpo, rios de água límpida e padrões elevados de saúde e segurança no trabalho. Isso pode soar estranho para ouvidos modernos, mas um meio ambiente limpo e uma força de trabalho satisfeita são, em um sentido muito real, “luxos” que estavam fora do alcance de nossos antepassados, muito mais pobres. 

As pessoas realmente pobres, como os habitantes de grande parte da África e Ásia, se preocupam principalmente e primeiramente com sua sobrevivência. Todas as outras considerações são secundárias. 

Você não acredita? 

Após o colapso da economia do Zimbábue, as pessoas começaram a matar exemplares da fauna selvagem, antes protegida, para alimentar suas famílias. 

Depois do colapso da economia venezuelana, animais do zoológico da capital do país acabaram figurando no cardápio das pessoas. Durante o Holodomor, na Ucrânia, as pessoas comeram umas às outras. O que quero fazer aqui não é denegrir as preocupações ambientais, mas chamar a atenção para as opções reais que pessoas pobres que vivem em economias socialistas disfuncionais são obrigadas a enfrentar diariamente. 

Tudo isso mostra que o socialismo não é a resposta. Historicamente falando, os danos ambientais resultantes da produção socialista foram imensamente maiores que os danos ambientais resultantes da produção capitalista. Todos os estudos acadêmicos realizados após a queda do império soviético, e repito, todos, constataram que a qualidade do meio ambiente nos países ex-socialistas era inferior à dos países capitalistas. 

A melhor maneira de proteger o meio ambiente é enriquecer. Assim há dinheiro suficiente não apenas para atender às necessidades das pessoas comuns, mas também para pagar por usinas elétricas mais limpas e estações de tratamento de água melhores. Como o capitalismo é a melhor maneira de gerar riqueza, a humanidade deve continuar com ele. 

Marian L. Tupy é editora do HumanProgress.org e analista política sênior do Center for Global Liberty and Prosperity.

Conteúdo publicado originalmente no site da Foundation for Economic Education

Tradução de Clara Allain

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