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A nova estratégia de defesa dos EUA expõe a falta de planejamento do Brasil

Trump e o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth.
Trump e o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth: nova estratégia. (Foto: EFE/EPA/FRANCIS CHUNG / / POOL)

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A Estratégia Nacional de Defesa (NDS) 2026, publicada em 23 de janeiro pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, não deve ser entendida como um documento técnico autônomo, tampouco como mera atualização doutrinária do planejamento militar. Ela constitui, na realidade, o braço operacional da nova política externa americana, delineada na Estratégia Nacional de Segurança (NSS) 2026, divulgada em 4 de dezembro e já analisada por mim aqui nesta Gazeta, e representa a tradução concreta – em termos de perspectivas de uso da força, prioridades militares, arquitetura de alianças e alocação de recursos – de uma mudança mais profunda na visão de mundo de Washington.

Em conjunto, os dois documentos revelam uma coerência rara no histórico recente da política estratégica americana e expressam uma inflexão profunda da grande estratégia nacional, de viés acentuadamente realista, marcada pela aceitação explícita de limites ao poder, pela hierarquização rigorosa de interesses e pelo abandono da lógica de gestão liberal da ordem internacional e das ambições universalistas que caracterizaram o período pós-Guerra Fria. Não se trata de retórica circunstancial, mas do fechamento de um ciclo histórico iniciado nos anos 1990.

Enquanto a NSS opera no plano político-estratégico, projetando a visão de mundo do governo Trump e redefinindo interesses vitais, hierarquias regionais e percepções de ameaça, a NDS cumpre a função clássica de uma grande estratégia militar: alinhar meios coercitivos, capacidades materiais e posturas operacionais a esses fins políticos.

Em termos clássicos, no sentido formulado por autores como Colin Gray e Hal Brands, a NDS funciona como ponte entre objetivos políticos e o uso organizado da força, transformando abstrações estratégicas em escolhas concretas, inclusive no que diz respeito a riscos assumidos e compromissos abandonados.

A NSS afirma que o mundo ingressou em uma era de competição estrutural entre grandes potências, marcada pela instrumentalização da economia, pela fragmentação das cadeias produtivas, pela politização da tecnologia e pela revalorização da geografia estratégica. A NDS parte exatamente desse diagnóstico – e o leva às últimas consequências do planejamento militar. Enquanto a NSS define quais os interesses estratégicos, a NDS explicita onde, como e com que meios os EUA estão dispostos a empregar força para preservar ou alcançar esses interesses.

Uma das mudanças mais profundas, e talvez menos compreendidas, da NDS 2026 é a centralidade absoluta atribuída à defesa do território americano e do Hemisfério Ocidental. Essa prioridade já estava claramente formulada na NSS, mas a NDS a operacionaliza de forma inédita, deslocando o eixo do planejamento militar dos EUA da projeção global contínua para a proteção do núcleo estratégico.

Trata-se de uma ruptura histórica. Durante décadas, a defesa americana foi estruturada a partir da premissa de que ameaças deveriam ser enfrentadas longe do território nacional, por meio de presença avançada, alianças extensivas e intervenções periféricas. A NDS 2026 inverte essa lógica: o território continental, o Caribe, o Atlântico Ocidental, o Ártico e as rotas críticas do hemisfério passam a ser tratados como espaço vital, não como retaguarda segura.

Mais do que apenas militar, essa mudança é conceitual. Ela reforça a convicção – já presente na NSS – de que a proximidade geográfica voltou a importar decisivamente e de que as ameaças contemporâneas operam em zonas cinzentas, onde fronteiras entre segurança interna e externa se dissolvem, tanto pela atuação de potências extra-hemisféricas quanto pelo emprego de expedientes de guerra híbrida e pela convergência entre ameaças estatais e não estatais. A NDS, dessa forma, integra combate ao narcotráfico, problemas de fronteiras, defesa aérea, cibernética e dissuasão estratégica em um mesmo quadro analítico e operacional, revertendo um pilar do pensamento estratégico americano desde o pós-Guerra Fria, que partia da premissa implícita de que as fronteiras terrestres dos EUA eram uma questão estratégica que já fora equacionada e cujo resguardo correspondia ao aparato policial e de patrulhamento interno, de competências tanto federal quanto estaduais. No mesmo ensejo, o combate ao narcotráfico, que só passou a figurar no temário de preocupações federais no governo de Richard Nixon (1969-1974, durante o qual foi criada a Administração de Repressão às Drogas – DEA) e se tornou uma prioridade securitária na presidência de Ronald Reagan (1981-89, no contexto da iniciativa Guerra às Drogas), foi, até o início do segundo mandato do presidente Trump, tratado como assunto essencialmente policial (em oposição a uma abordagem de política externa).

É nesse ponto que o tratamento do crime organizado transnacional adquire centralidade estratégica. A NSS e a NDS evidenciam que o narcotráfico, as economias ilícitas e as redes criminosas transnacionais deixaram de ser problemas policiais periféricos e passaram a ser vetores diretos de instabilidade hemisférica. Para Washington, essas organizações operam hoje como estruturas paraestatais: controlam territórios, capturam instituições, infiltram-se em cadeias logísticas, dominam portos e rotas marítimas, lavam recursos em escala global e financiam degradação político-institucional.

O pressuposto implícito é inequívoco: Estados incapazes de controlar seus territórios, fronteiras, fluxos ilícitos e infraestruturas críticas tornam-se riscos sistêmicos para a estabilidade regional, independentemente de sua retórica diplomática. O hemisfério, nessa leitura, não é neutro, e os EUA não aceitarão sua transformação em espaço de disputa estratégica por atores externos – nem sua degradação político-institucional por atores domésticos – sem reação direta. A estabilidade regional deixa de ser entendida como bem público abstrato e passa a ser tratada como ativo estratégico.

O papel do Brasil

Essa lógica se projeta de forma particularmente sensível sobre o Brasil. O avanço acelerado da criminalidade organizada em território brasileiro – com facções operando em escala transnacional, controlando áreas fronteiriças, corredores logísticos, portos e cadeias ilícitas, aparelhando o sistema político e se infiltrando no ecossistema financeiro – expõe uma insuficiência estrutural de meios militares, policiais, institucionais e normativos para enfrentar a ameaça. Do ponto de vista da NSS e da NDS, o problema brasileiro não é apenas criminal, mas político e estratégico.

O país apresenta lacunas evidentes na vigilância de fronteiras, no controle do espaço marítimo do Atlântico Sul, na integração entre Forças Armadas, agências policiais e inteligência, e na atualização do marco legal para enfrentar organizações criminosas que operam como redes híbridas – simultaneamente econômicas, armadas e políticas. A leitura americana é pragmática: onde o Estado é fraco, outros atores ocupam o espaço; e onde esses atores controlam rotas, portos, fluxos financeiros e territórios, cria-se uma vulnerabilidade regional que inevitavelmente entra no cálculo estratégico de Washington.

A resposta brasileira, contudo, permanece fragmentada, reativa e conceitualmente ultrapassada. O governo insiste em tratar o narcotráfico como questão policial isolada, enquanto a NSS e a NDS o enquadram como ameaça multidimensional, que exige coordenação entre defesa, inteligência, política externa, regulação financeira, controle territorial e capacidade dissuasória. Essa assimetria de diagnóstico aprofunda a vulnerabilidade brasileira e reduz sua credibilidade como ator regional.

A relação entre a NDS e a NSS torna-se igualmente evidente na forma como a China é tratada. A NSS define Pequim como o principal competidor estratégico de longo prazo, mas rejeita a noção de ameaça existencial ou de confronto inevitável. A NDS traduz esse equilíbrio delicado por meio da adoção de uma doutrina de dissuasão por negação (denial defense), em contraste com a dissuasão expansiva baseada na superioridade global incontestável que marcou décadas anteriores.

A lógica da denial defense é fundamental para compreender a nova postura americana. Diferentemente da dissuasão por punição – que busca desencorajar o adversário prometendo retaliações devastadoras –, a dissuasão por negação visa tornar a vitória do oponente improvável, excessivamente custosa ou politicamente inviável. Trata-se menos de ameaçar destruir o inimigo e mais de impedir que ele alcance seus objetivos estratégicos. Na prática, isso implica, para além de custos financeiros de longo prazo reduzidos, menor dependência de promessas políticas maximalistas e maior ênfase em capacidades defensivas distribuídas, resiliência logística, dispersão de forças, negação de acesso e contenção regional.

Comparativamente, enquanto a NSS trabalha com a noção de competição sistêmica – sobretudo econômica e tecnológica –, a NDS reduz essa abstração a problemas militares concretos: impedir a China de alcançar superioridade regional decisiva no Indo-Pacífico, negar-lhe liberdade de ação militar e preservar o equilíbrio estratégico sem escaladas automáticas ou compromissos irreversíveis.

Nesse contexto, o silêncio quase completo sobre Taiwan, longe de ser omissão acidental, é revelador. Ele sugere uma mudança de tom: menos declarações políticas maximalistas e mais foco em capacidades reais. A NDS parte da premissa de que o excesso de compromissos retóricos pode gerar riscos estratégicos desnecessários, algo que a NSS já havia sinalizado ao adotar linguagem mais prudente e menos ideológica. Não se trata de desengajamento estratégico dos Estados Unidos da região, e sim da modificação de um padrão ativo, que deixa de ser ostensivo e declaratório e demonstra capacidade por meio da execução de ações em outras áreas, que Washington tenciona sejam entendidas por Pequim como conjunto de meios que a China não tem, pelo menos no curto e médio prazos, como contra-arrestar.

Outro ponto de convergência central entre NSS e NDS é a redefinição do papel dos aliados. A NSS afirma que alianças continuam importantes, mas deixam de ser fins em si mesmas. A NDS traduz isso em exigências operacionais: aliados devem assumir responsabilidades regionais proporcionais, reduzir dependência direta dos EUA e desenvolver capacidades próprias de dissuasão. 

Aqui, o contraste com estratégias anteriores é marcante. A NDS pressupõe que os EUA não mais carregarão o custo integral da segurança coletiva, especialmente em teatros onde aliados possuem massa econômica, tecnológica e demográfica suficiente para liderar. Europa e Coreia do Sul são tratadas não como protegidas, mas como polos regionais que devem absorver riscos. O documento sepulta oitenta anos de garantias securitárias sem ou com reduzidíssimas contrapartidas materiais para seus principais beneficiários.

O viés implícito é igualmente claro: Washington aceita o risco político de frustração aliada em troca de liberdade estratégica. A NDS assume que credibilidade não decorre apenas de presença permanente, mas da capacidade de escolher onde, quando e por que engajar.

Por fim, a NDS operacionaliza um dos pilares mais relevantes da NSS, a inseparabilidade entre poder econômico e poder militar, traduzida na elevação da Base Industrial de Defesa ao patamar de prioridade estratégica. Não se trata apenas de eficiência logística, mas de uma leitura estrutural: a globalização produtiva corroeu a capacidade americana de sustentar conflitos prolongados, sobretudo por meio do alongamento excessivo de cadeias produtivas que incidem sobre a indústria de defesa. Os Estados Unidos estão doravante dispostos a sacrifícios parciais de eficiência logística em benefício de resiliência sistêmica.

A comparação entre NSS e NDS mostra convergência fundamental: ambas rejeitam a ideia de interdependência como garantia de estabilidade. A NDS assume que cadeias globais são vulnerabilidades estratégicas e que a autonomia industrial é condição para dissuasão crível. Essa visão tem implicações diretas para países integrados às cadeias americanas, inclusive no hemisfério sul.

É nesse ponto que as implicações para a América Latina se tornam particularmente mais agudas. A NSS recoloca o hemisfério no centro do interesse estratégico americano. Infraestrutura, energia, portos, telecomunicações, minerais críticos e rotas marítimas passam a ser tratados como ativos de segurança nacional, conforme analisei em artigo publicado nesta Gazeta em 21 de janeiro último.

Para o Brasil, a mensagem é inequívoca. Em um ambiente no qual os EUA operam por alinhamentos seletivos, pressão econômica e demonstração de força, a ambiguidade deixa de ser proteção e passa a ser vulnerabilidade. A NDS pressupõe que países relevantes do hemisfério terão de escolher graus de alinhamento funcional, sobretudo em setores sensíveis.

A ausência de uma grande estratégia brasileira – que integre defesa, indústria, base produtiva tecnologia, comércio exterior, economia e política externa – torna o país objeto, e não sujeito, dessa reorganização hemisférica. O Brasil é grande demais para ser ignorado, mas, sem estratégia, torna-se previsível, pressionável e estruturalmente vulnerável.

No mundo que a NDS e a NSS explicitam – hierárquico, coercitivo e seletivo – a ausência de uma grande estratégia revela perigosa fraqueza estrutural, em contexto na qual o problema não é apenas o atabalhoado lulismo diplomático, embora ele seja sua expressão mais visível e ruidosa. Trata-se da incapacidade mais ampla do atual governo de conceber qualquer forma de planejamento estratégico nacional.

 Lula e seus assessores – profissionais do improviso permanente, cuja inépcia se traveste de convicção moral – são intelectualmente despreparados para pensar sobre a natureza e as dimensões de conflito e poder, sobre desenvolvimento e futuro em termos de escolhas duras, trade-offs e hierarquia de interesses. A política externa lulopetista reflete essa falha mais profunda: confunde projeção internacional com ativismo retórico, autonomia com ambiguidade calculada e presença simbólica em fóruns multilaterais esvaziados com liderança.

 A NDS americana, ao explicitar prioridades, limites e instrumentos de coerção, expõe por contraste o vazio estratégico brasileiro: um Estado que reage, improvisa e se acomoda, mas não dirige. Não se trata apenas de erro de orientação ideológica, mas de falência de método: sem grande estratégia, não há política industrial consistente, não há defesa nacional crível, não há inserção internacional capaz de sustentar desenvolvimento. 

Um projeto nacional dessa natureza exige algo que o atual governo já há muito demonstrou fartamente não possuir – disposição para pensar o Brasil como potência intermediária em um mundo de poder, e não como pseudoautor moral em um sistema que já não recompensa autocongratulação travestida de boas intenções, que constitui o cerne da fracassada diplomacia multilateral lulopetista desde o primeiro mandato do presidente (2003-2007). 

A construção de uma grande estratégia dificilmente ocorrerá sob um governo prisioneiro de automatismos ideológicos, visto que o governo Lula explicitamente abdicou de pensar estrategicamente e, ao fazê-lo, aceita como destino viver subordinado às escolhas alheias.

Dessa forma, essa formulação pressupõe uma ruptura intelectual e política que só um futuro governo de orientação conservadora, mais realista e estrategicamente disciplinada, parece capaz de oferecer.

O país precisa, com urgência, de uma virada estratégica conservadora: um governo que compreenda que soberania não se proclama, se constrói; que desenvolvimento não se improvisa, se planeja; e que política externa não é palco de autocongratulação moral, mas instrumento de poder. Sem essa ruptura, o Brasil seguirá condenado a viver dentro da estratégia dos outros, o que, como a história repetidamente demonstra, raramente ocorre em condições favoráveis.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

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