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Entrevista

O Brasil precisa da força dos pequenos empreendedores mais do que nunca

A Gazeta do Povo conversou com Jorge Caldeira por ocasião do lançamento de seu livro “História da Riqueza no Brasil” e o resultado é a imagem de um novo Brasil, em que ganham destaque os pequenos empreendedores, a criatividade do povo brasileiro e os elementos de democracia local para a qualidade da vida pública da nação

  • Renan Barbosa
O historiador Jorge Caldeira em Curitiba | Marcelo AndradeGazeta do Povo
O historiador Jorge Caldeira em Curitiba Marcelo AndradeGazeta do Povo
 
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Quem ouve o historiador Jorge Caldeira falar da importância que os dados e a estatística tiveram em seus estudos não imagina a prosa clara de seu livro História da Riqueza no Brasil, lançado em Curitiba recentemente, e a linguagem informal com que explica temas complexos que estão virando a história do país de cabeça para baixo. 

Síntese de quarenta anos de trabalho, o novo livro de Caldeira apresenta ao grande público um Brasil muito diferente daquele ensinado nos bancos escolares. “A economia colonial brasileira ao redor de 1800 era quase o dobro da economia portuguesa. Isso joga por terra todas as explicações tradicionais”, afirma.  

Em referência ao período imperial, para o qual é comum se olhar com certa nostalgia, aponta que “foi o pior período da história econômica do Brasil até hoje: um crescimento de apenas 4% ao longo de 70 anos, ou seja, estagnação praticamente absoluta”.

Leia também: China prepara cartada jurídica para se tornar a maior economia do mundo

Caldeira, que veio a Curitiba a convite do UniBrasil Centro Universitário, recebeu a Gazeta do Povo na casa de sua filha, que adotou a cidade já há alguns anos. “Sou meio curitibano agora”, disse à reportagem. 

“O Brasil foi feito em unidades produtivas muito pequenas, quase familiares, com pouco ou nenhum capital, e com pessoas que eram empreendedoras. Hoje, é o dono da carrocinha, a cabeleireira da favela. Essa é a força da economia brasileira”, diz. 

Os principais destaques, organizados por tema, podem ser conferidos a seguir. A entrevista completa pode ser ouvida abaixo, logo após o texto.

Um novo Brasil 

“O meu retrato do Brasil sai de duas mudanças importantes que houve em pesquisa nos últimos 40 anos e que coincidem mais ou menos com meu período estudando o Brasil. A primeira delas é que a informática aplicada à História Econômica sofreu uma transformação radical nos Estados Unidos, no final dos anos 1960. 

A segunda coisa que muda muito é que nós tínhamos um conhecimento dos povos que estavam aqui, especialmente dos tupis, que era baseado no testemunho de pessoas que tiveram os primeiros contatos com esses índios nos séculos 16, 17 e 18. Mas, a partir dos anos 1940, os antropólogos – Darcy Ribeiro, Roberto DaMatta, Eduardo Viveiros de Castro – começaram a estudar esses povos, e esse conhecimento, feito com rigor antropológico, permitiu que muitos comportamentos que eram vistos como erráticos ou estranhos pudessem ser entendidos de outra forma.” 

História da riqueza 

“A economia colonial brasileira ao redor de 1800 era quase o dobro da economia portuguesa. Isso joga por terra todas as explicações tradicionais de que o Brasil foi uma economia pobre à época colonial, porque o sentido da colonização era mandar as riquezas para fora e isso se fez pela organização do latifúndio, que era a unidade que detinha a riqueza, enquanto o resto todo vivia em extrema pobreza. 

Um estudo econométrico feito com os tupis-guaranis mostra que esses índios eram não só muito capazes de produzir riqueza, como faziam isso trabalhando muito pouco. Quando vieram os portugueses, como os índios tinham capacidade de produzir excedente, eles aumentaram a produção, passaram a cortar e transportar pau-brasil e receber ferro. Essas trocas com os índios geravam excedente na forma de riqueza monetária para o lado europeu. 

Negócios geram alianças e essa foi a primeira forma extensa de produção de riqueza no Brasil que era absolutamente ignorada pela história, porque não havia medida para isso. Esses negócios estão na base da riqueza do Brasil e a aliança dos portugueses e dos tupis está na base do domínio militar do território que hoje é o país.” 

Estagnação imperial 

“No fim do século 18, as exportações brasileiras eram mais ou menos do mesmo tamanho que as dos Estados Unidos; a população era parecida, 4 milhões no Brasil, 5 milhões nos Estados Unidos; a proporção de escravos na população era parecida, cerca de 20%; as maiores cidades eram do mesmo tamanho, por volta de 65 mil habitantes. Pessoas, costumes e governos explicam como essa riqueza foi acumulada internamente até esse período. 

A história que era feita com base nos dados manuais mostrava o Império como o período em que o Brasil teria começado a se recuperar do seu atraso, agora que era nação independente, mas a história quantitativa diz, com certa clareza, que o Império foi o período de estagnação da economia brasileira. Foi o pior período da história econômica do Brasil até hoje: um crescimento de apenas 4% ao longo de 70 anos, ou seja, estagnação praticamente absoluta. 

Pior: isso em um momento em que o mundo crescia – então, o período de estagnação do Brasil no século 19 coincide com a onda capitalista no ocidente

A economia, que era mais ou menos do mesmo tamanho que a dos Estados Unidos no início do século, em 1890 era 15 vezes menor. O Brasil não conseguiu se adaptar ao capitalismo, o Império não conseguiu criar instituições que permitissem ao Brasil adaptar-se ao capitalismo.” 

Dois tempos, um espírito 

“O que a República fez? Basicamente, uma reforma institucional, feita em um dia por Rui Barbosa, em 17 de janeiro de 1890, que adaptou os direitos de propriedade, o sistema de crédito, a uma sociedade não escravista. A economia, que estava estagnada durante 70 anos, em 16 anos já crescia mais do que a dos Estados Unidos: 2% per capita o ano, que é uma taxa de crescimento altíssima. 

O PIB passou a crescer uma média de 6%, 7% ao ano já em 1890. Cresceu a indústria, os serviços, os transportes muito mais que a agricultura. A industrialização, a modernização, a metropolização, cultura de massa, tudo isso começou na primeira República. 

Como é que [o país] cresceu tanto? Mudaram as instituições. A principal mudança que Rui Barbosa fez, o primeiro dos decretos, dizia “é livre a criação de empresas no Brasil”, ou seja, pode-se fazer uma empresa e registrar na Junta Comercial. Hoje, isso é tão natural – mas só foi feito em 1890. Esse, que é um padrão jurídico para o mundo capitalista, passou a ser um padrão jurídico no Brasil só em 1890. 

Um dado para ilustrar: o Brasil tinha, no Império, 16 sociedades anônimas; no primeiro ano do decreto do Rui Barbosa, só em São Paulo, foram registradas 210 sociedades anônimas, das quais oitenta e tantas eram simplesmente [provenientes] da reorganização jurídica, porque antes o empresário não podia ter empresa, então eram todas fortunas familiares. 

Com a nova lei, a família Prado pegou seu dinheiro familiar e criou o Banco do Comércio e Indústria; a [família] Botelho criou o Banco de São Paulo, e isso deu início à espiral da produção capitalista que se aplicava em fábricas. O novo instrumental [teórico] gera uma Primeira República que é, ao contrário do que se imagina, o período do real início de crescimento da sociedade brasileira.” 

Um muro, dois tempos 

“O fenômeno mais forte da Crise de 29 foi que o comércio internacional, que era o motor do crescimento de todas as economias que entravam no capitalismo, caiu 75% em três anos. O que Getúlio Vargas fez, com muita propriedade, foi vedar a contaminação: ele criou um muro entre o Brasil e o exterior. Comprar e vender divisas passou a ser monopólio do Banco do Brasil. Isso fez com que, no momento em que o mundo caiu, o Brasil rapidamente voltasse a crescer. 

A base industrial era imensa, já montada [na Primeira República], tanto que, em 1933, quando voltou ao nível de 1928, a indústria brasileira passou a ser mais importante no PIB do que a agricultura. Até os anos 1960, somando tudo desde 1890, a economia do Brasil foi a que mais cresceu no mundo. E o Regime Militar, que pegou essa economia que mais crescia no mundo, fez o quê? Como era uma direita muito nacionalista, o regime interpretou certas mudanças que estavam acontecendo no mundo com o sinal trocado: desde o fim da década de 1950 o comércio internacional, com a criação do Mercado Comum Europeu, aumentou imensamente, criando oportunidades de você se engajar no comércio internacional. 

Em 1972, Mao Tsé-Tung, líder da China, chegou à conclusão de que o mercado internacional era uma oportunidade para a China. A China, em 1972, era a economia mais isolada do mundo, o seu PIB era menor do que o PIB do Brasil, e sua participação no comércio internacional, menor que a do Brasil. A decisão [brasileira] foi a contrária: o que o [presidente Ernesto] Geisel fez, basicamente, foi pegar esse dinheiro que estava sobrando com o crescimento do comércio internacional e aplicar dentro do mercado local, fechar mais ainda esse mercado, supondo que o crescimento que haveria dentro do Brasil seria suficiente para pagar o que se tomou emprestado e ainda deixar lucro. 

Aconteceu exatamente ao contrário: o mundo cresceu, veio cobrar as dívidas, o Brasil não produziu o suficiente e teve que pagar a dívida com a pobreza da nação. Aí se inaugurou um período que vem dos anos 1970, em que a economia brasileira, ao modo do Império, começa a crescer menos do que a média mundial. Da mesma maneira, mas em outro regime político, a essência do que está acontecendo agora nessa última recessão [2014-2016] é a mesma. 

Estamos ficando para trás, porque a direção brasileira, seja exercida por ditadores à direita, seja exercida por nacionalistas à esquerda, não percebe que a globalização tem regras próprias e que a globalização depende de empresas privadas atuando em mercados fora da nação.” 

O fenômeno brasileiro 

“Por que eu fiz um livro chamado História do Brasil com Empreendedores? Porque aquilo que os dados históricos realmente contam é que o Brasil, ao contrário do que diz a história tradicional, foi feito em unidades produtivas muito pequenas, quase familiares, com pouco ou nenhum capital, e com pessoas que eram empreendedoras. Hoje, é o dono da carrocinha, a cabeleira da favela: essa é a força da economia brasileira. Lidar com essa força é lidar com um futuro melhor para o Brasil, que precisa dela mais do que nunca. O Brasil está começando a entrar em uma situação semelhante à do fim da escravidão: o país tem um Estado que era ótimo para resolver os problemas em 1950. 

Eu escrevi um livro sobre o Ronaldo [Fenômeno, jogador de futebol], Glória e Drama no Futebol Globalizado. O Ronaldo é um ‘brasileiro de baixo’ típico: estudou até a sexta série, tem uma limitação vocabular – embora fale com muita sabedoria. Na época em que ele apareceu, dizia-se que não podia abrir a economia brasileira, porque o Brasil não tinha educação, as pessoas iriam sucumbir no mundo global, etc. – e quem dizia isso era a elite. Então, o Ronaldo atravessa a fronteira que separa o Brasil do mundo global, faz os contratos que faz com a Nike, vira lenda, se insere no mundo global como estrela da era da internet, faz contratos pioneiros, que ele bolou junto com um dono de posto de gasolina de São Cristóvão, e se porta muito bem até hoje no mundo global. 

E o Ricardo Teixeira, presidente da CBF, que é a elite do Brasil: é exportável, é global, é uma figura exemplar em qualquer lugar do mundo? Esse modesto exemplo mostra perfeitamente o que é globalizável, o que é importante no Brasil e o que, por outro lado, são as figuras que só têm sentido aqui dentro, aquelas que, no mundo global, se perdem completamente.”

Ouça a entrevista completa no Podcast Ethos:

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