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Chile, Equador, Bolívia e outros países do continente viraram as costas para a esquerda nas urnas. A escalada do crime organizado e o deterioramento do bem-estar são os principais motivos dessa mudança de rumo, que vem acompanhada pela crescente influência dos Estados Unidos na região.
Depois de duas tentativas infrutíferas —2017 e 2021—, José Antonio Kast foi eleito presidente do Chile no segundo turno em 14 de dezembro de 2025, com 59,1% dos votos, tornando-se o presidente com o maior número de votos (7,2 milhões) da história do Chile. Com uma longa trajetória na vida política de seu país, Kast foi deputado desde 2002 pela União Democrática Independente, o partido conservador tradicional do Chile, até renunciar em 2016. Após se apresentar nas eleições de 2017 como independente, fundou em 2019 o Partido Republicano, do qual foi candidato em 2021, e obteve a vitória no último mês de dezembro.
Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Kast indicou que seu mandato se concentraria, principalmente, em três problemas urgentes para o povo chileno: a insegurança, a migração e o crescimento econômico, ao mesmo tempo que afirmou que não se dobraria na garantia da ordem institucional: “Temos que ter muita firmeza contra a delinquência, o crime organizado, a impunidade e o descontrole. Mas também temos que ter muita grandeza para reconstruir a convivência, o respeito e a confiança de nossos compatriotas”.
Esse discurso já não nos soa novo. Faz parte de um espírito que percorre o continente. Vários países hispano-americanos manifestaram seu desejo de mudança nas urnas. A crescente criminalidade, as contínuas crises migratórias e a estagnação econômica estão entre as causas de maior mal-estar na população hispano-americana. Em resposta a isso, vários países optaram por um líder de direita para enfrentar esses problemas, após décadas de governos de esquerda.
Vitórias eleitorais
Durante o ano de 2025, várias eleições em países hispano-americanos confirmaram a mudança que estava ocorrendo. Em maio, o presidente equatoriano Daniel Noboa foi reeleito após vencer novamente Luisa González, a candidata da Revolución Ciudadana, o partido do ex-presidente socialista Rafael Correa. Embora Noboa se considere de “centro-esquerda”, é percebido como a alternativa ao correísmo e seu governo se caracterizou por uma diminuição do risco-país, eliminação do subsídio aos combustíveis, aumento da carga tributária, linha dura contra a delinquência organizada e práticas autoritárias.
Em outubro, o senador Rodrigo Paz Pereira obteve a vitória presidencial na Bolívia, após vencer no segundo turno Jorge Tuto Quiroga, outro candidato de direita. Evo Morales, inabilitado pelo Tribunal Eleitoral, promoveu o voto nulo, que obteve quase 20%. No entanto, seu partido político, o Movimento ao Socialismo (MAS), a força política mais importante dos últimos vinte anos, não obteve representação no Senado e conta com pouca presença na Câmara dos Deputados após as eleições legislativas. Por sua parte, Paz é defensor de um “capitalismo para todos”, o que lhe facilitou obter o apoio dos setores indígenas para conquistar a presidência.
Seguindo essa linha, também em outubro, o presidente argentino Javier Milei obteve uma vitória que o confirma em seu projeto libertário. Após a derrota sofrida por seu partido, La Libertad Avanza, nas eleições para legisladores provinciais de Buenos Aires, a maior região eleitoral do país, o presidente se recuperou com uma vitória nas eleições legislativas nacionais, com 40,8% dos votos para seu partido, passando de 37 para 93 deputados no Congresso, somados os de seus aliados. “A partir de 10 de dezembro teremos o Congresso mais reformista da história argentina”, anunciou o mandatário. Semanas antes das eleições, o Banco Central argentino anunciou “um acordo de estabilização cambial com o Departamento do Tesouro” dos EUA por 20 bilhões de dólares, com o objetivo de injetar liquidez na economia do país. Sobre a vitória de Milei, o presidente norte-americano declarou que a “eleição fez ganhar muito dinheiro aos Estados Unidos”.
A nova direita que está se consolidando na Hispano-América não é um movimento homogêneo, embora tenha em comum a oposição à cultura woke, ao globalismo e ao socialismo do século XXI, e a aproximação aos Estados Unidos e ao presidente Trump.
Após várias semanas de incerteza por falhas no sistema e acusações de fraude nos processos eleitorais de Honduras, em 24 de dezembro foi declarado vencedor o candidato Nasri “Tito” Asfura, do Partido Nacional, sobre Salvador Nasralla, do Partido Liberal, que rejeitou os resultados. Asfura contava com o apoio público do presidente Trump, que assegurou que o candidato hondurenho era “o único verdadeiro amigo da liberdade” e também obteve a felicitação de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, após a proclamação de sua vitória.
Por outro lado, Nayib Bukele continua se consolidando em El Salvador. De acordo com o informe do Latinobarómetro 2024, o presidente é considerado o líder mais popular da região, com uma avaliação de 7,7 sobre 10. O sucesso em sua luta contra a delinquência organizada por meio de sua política de mão dura transformou El Salvador em um dos países mais seguros da Hispano-América. E apesar de seu autoritarismo, seu índice de aprovação se mantém acima de 80%, segundo várias pesquisas.
Frustração pelo crime
Esse giro para a direita ocorrido no Chile, Honduras, Argentina, Bolívia, Equador e El Salvador não foi casual. Na opinião de Brian Winters em seu artigo Latin America Revolution of the Right, publicado na Foreign Affairs, entre as causas dessa mudança está a frustração causada pelo crime, que aumentou consideravelmente nos últimos anos e que a esquerda não conseguiu solucionar, devido ao aumento na produção de cocaína que o continente experimentou.
Por outro lado, o colapso econômico e social de nações como Cuba e Venezuela provocou uma grande desconfiança em relação às propostas de progresso da esquerda, ao mesmo tempo que foi a origem de uma migração massiva que afetou o resto do continente, causando crises humanitárias e mal-estar na população. Da mesma forma, a direita também assumiu um papel na preocupação pelos mais necessitados e na batalha cultural, deixando de lado a crença de que a justiça social e a cultura eram monopólio da esquerda.
Sem movimento homogêneo
No entanto, embora nos meios de imprensa se qualifiquem indistintamente os novos líderes desses Estados como “ultradireitistas”, “populistas”, “conservadores” e, inclusive, “autoritários”, essa nova direita que está se consolidando na Hispano-América não é um movimento ou grupo homogêneo. Entre seus ideários comuns está a oposição à cultura woke, ao globalismo e ao socialismo do século XXI, e a aproximação aos Estados Unidos e ao presidente Trump, que fez do continente americano um eixo extremamente importante de sua política exterior. Apesar disso, as diferenças são enormes. Noboa, presidente do Equador, em uma reportagem publicada na The New Yorker de junho de 2024, sinalou que Lula, presidente socialista do Brasil, é o líder latino-americano com quem mais se identifica, ao mesmo tempo que opinou sobre Milei que é um “ególatra” que não havia conseguido nada desde que foi nomeado presidente e que Bukele “é arrogante” e faz tudo para “controlar o poder para si mesmo e enriquecer sua família”.
Por outro lado, Milei e Bukele se apresentam como personalidades disruptivas que vêm mudar a política de fora, enquanto outros, como Kast e Paz, conseguiram a presidência após vários anos de carreira política. A visão do papel do Estado também difere entre esses líderes. Bukele se autodenomina “o ditador mais cool do mundo” e não teve problemas em utilizar o estado de exceção para acumular poder e reconfigurar institucionalmente a nação. Nessa linha, Noboa também apresentou tendências autoritárias, com a inabilitação de candidatos presidenciais, projetos de lei inconstitucionais e tentativas de censura à imprensa opositora.
Isso contrasta com figuras como Milei, que pretende limitar o papel do Estado, e Kast, que, apesar da proximidade com a ditadura de Pinochet durante sua juventude, sua carreira política e formas discursivas têm sido as de um democrata comprometido em respeitar a institucionalidade da república chilena. No que se refere à política econômica, enquanto líderes como Milei buscam liberalizar a economia, reduzir o gasto social e eliminar impostos, outros como Bukele não têm problemas em manter o gasto público em obras e infraestrutura e investir em programas sociais.
EUA aumentam sua influência
Tudo isso se enquadra em uma relação cada vez mais estreita desses países com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que encurrala o regime ditatorial da Venezuela com a captura de Nicolás Maduro, o governo de Trump fecha alianças com esses líderes hispano-americanos, tanto em matéria de segurança quanto econômica, aumentando sua influência no continente, frente à crescente presença que a China teve nas últimas décadas. Desde a visita de Marco Rubio ao Equador para uma reunião com Noboa ao resgate econômico da Argentina, o apoio público a Tito Asfura e numerosas declarações apoiando esses líderes, a influência de Trump parece evidente.E a situação ainda pode mudar. Em 2026, Brasil, Colômbia, Peru, Costa Rica e Haiti viverão períodos eleitorais que serão centrais para observar se essa tendência à nova direita termina por se consolidar no continente ou não. Em parte, dependerá de se esse movimento for respaldado por resultados visíveis e mudanças reais, concretamente, na luta contra o crime organizado e no desenvolvimento econômico.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: El giro a la derecha de Hispanoamérica



