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DNA autoritário do PT

Obsessão de Lula pela Presidência é sinal de uma democracia fraca

Lula
Lula disputou seis das últimas nove eleições para a Presidência realizadas no Brasil. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Em uma democracia, ninguém deveria ser indispensável. Governantes passam, partidos mudam de mãos e o eleitorado pode, em teoria, escolher alguém diferente para ocupar o poder a cada eleição. É a alternância de poder, característica fundamental em qualquer regime que busca se afastar do comportamento ditatorial. No Brasil, porém, há uma figura para quem a disputa presidencial parece nunca sair de cena: Luiz Inácio Lula da Silva. 

Desde a redemocratização, Lula disputou a Presidência em seis eleições das nove realizadas. O nome do petista estava presente nas disputas de 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022. Em 2010, Lula não pôde se candidatar por uma limitação constitucional que veda um terceiro mandato consecutivo.

Mas não faltou vontade de estender a permanência de Lula no Planalto por um terceiro período seguido. Pelo menos dois deputados fermentaram essa ideia e tentaram, por meio de uma PEC, mudar a Constituição para autorizar, via plebiscito, a possibilidade de uma segunda reeleição consecutiva. 

Em 2014, após o primeiro governo de Dilma Rousseff, o petista abriu mão — a contragosto — da disputa em favor da companheira de legenda. Durante o período em que esteve preso, Lula deu entrevistas nas quais admitiu ter sido um erro não assumir que seria candidato naquela eleição. 

Em 2018, ele chegou a ter sua candidatura registrada, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) barrou sua participação. Afinal, como poderia um candidato à Presidência concorrer estando preso e impedido pela Lei da Ficha Limpa? 

O descontentamento veio à tona quando Fernando Haddad — o segundo “poste” de Lula depois de Dilma — perdeu as eleições daquele ano para Jair Bolsonaro. O petista desabafou: “estamos colhendo o que plantamos”, disse à revista Carta Capital, dando a entender que, se tivesse concorrido em 2014, o cenário poderia ter sido diferente. 

Agora, ele tenta repetir o roteiro de 2006, quando foi reeleito pela primeira vez para permanecer no cargo. 

Busca incessante pelo poder revela DNA autoritário da esquerda 

Seria essa insistência em disputar eleições sucessivas um comportamento antidemocrático? Afinal, se a lei permite e o eleitor vota, o candidato poderia disputar quantas eleições quisesse. O problema, porém, está num detalhe: o que acontece quando um partido passa a agir como se uma determinada pessoa fosse praticamente insubstituível?

Para o professor da PUC-PR e cientista político Mario Sergio Lepre, o comportamento de Lula, mais do que algo isolado, é um reflexo do “DNA autoritário” da esquerda brasileira. Em entrevista à Gazeta do Povo, o especialista alerta que esse desejo desenfreado de Lula pelo poder deveria ser visto como um sinal de alerta para uma democracia fraca. 

Segundo Lepre, a esquerda tende a ver o mundo dividido entre “nós e eles”. “Nós”, no caso, seriam os esclarecidos que sabem mais sobre o que é melhor para o povo do que o próprio povo. Já o campo do “eles” fica reservado, na visão esquerdista, às elites e aos fascistas, que merecem ser combatidos.

Para o professor, a esquerda está convencida de que seus líderes têm uma espécie de compreensão privilegiada sobre o que a sociedade precisa. É a lógica de que, se determinado líder acredita saber o que é melhor para o povo, por que ele entregaria a outro a tarefa de governá-lo?

“Nessa lógica, eles entendem que o povo é burro, e que a esquerda é formada por seres iluminados. Eles acham que leram tudo, acham que sabem tudo e, assim, acham correto terem a exclusividade da prerrogativa de exercer o poder. Todos os outros são desqualificados, por isso esse desejo pela perpetuação no poder”, detalhou. 

Lepre lembra ainda que o princípio democrático parte da premissa de que o poder pertence ao eleitor, e que nenhum político recebe dele um mandato permanente. A lógica do personalismo, alertou o cientista político, faz o movimento contrário: transforma o político em personagem central, o partido em instrumento de sua permanência e a alternância em algo quase secundário. 

PT de Lula se adequou ao fisiologismo e conquistou intelectuais 

A trajetória eleitoral de Lula oferece um caso particularmente expressivo para discutir esse fenômeno. Mas, para o cientista político, é preciso olhar para a origem do PT e entender como o partido-símbolo da esquerda no Brasil foi mudando e se adaptando ao fisiologismo. 

O Partido dos Trabalhadores foi fundado em São Paulo e logo arregimentou apoio em toda a região Sudeste e Sul do Brasil. “Passou a receber apoio dos intelectuais, dessa turma que acha que sabe tudo. Mas, aos poucos, o partido entendeu que a entrega de favores renderia votos, e com isso começou a perder espaço em suas origens e ganhar corpo no Nordeste”, citou Lepre.

Uma vez no poder, aponta o professor, a esquerda se aparelhou e passou a adotar outras agendas, como o movimento woke e suas vertentes. “Os antigos coronéis foram sendo substituídos pelos ‘companheiros’, e isso tomou uma proporção sem tamanho, tudo pelo projeto de perpetuação no poder”, alertou. 

Autoritário, Lula não deixou sucessores no PT 

Quando um político passa a ser tratado como indispensável, surge uma questão que ultrapassa sua biografia eleitoral: a democracia está escolhendo repetidamente o mesmo líder — ou um líder e seu grupo político passaram a acreditar que a democracia precisa deles? 

Para Mario Sérgio Lepre, a resposta para essa pergunta está no que ele entende como “um tiro no pé” dado pela própria esquerda. Em sua busca desenfreada pelo poder, Lula não formou um sucessor. E isso pode, a curto prazo, ter um forte impacto nos planos da esquerda de se manter no poder.

“O José Dirceu foi queimado pela própria esquerda lá atrás, quando poderia ter sido ele no lugar da Dilma. E aí nós teríamos entrado em uma situação de real calamidade, no fim o Brasil até teve sorte. O Haddad também não me parece um nome forte suficiente para ocupar o lugar de Lula. Eduardo Campos e Tábata Amaral são de linhas auxiliares. O Jaques Wagner está em uma situação complicada. Então esse DNA autoritário não deixa alternativas”, completa Lepre. 

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