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Cuba está no chão — e mais do que nunca. Apagões de mais de 11 horas por dia, filas de dois quilômetros para abastecer carros, cirurgias canceladas por falta de energia, lixo acumulado nas ruas.
A crise, agravada com o fim da ajuda venezuelana e o endurecimento das sanções de Donald Trump, transformou a ilha num caso humanitário grave — e trouxe de volta à tona um debate que o PT prefere manter na encolha.
Os chamados “movimentos sociais” pressionam o governo por mais apoio. Grupos como o MST, a Frente Brasil Popular, o Povo Sem Medo e a Aliança Bolivariana assinaram uma declaração conjunta em fevereiro cobrando que Lula “assuma um papel ativo” no socorro a Havana.
A Federação Única dos Petroleiros foi além: mobilizou sindicatos e partidos de esquerda na campanha “Petróleo para Cuba”. Foi uma tentativa de pressionar a Petrobras a furar o bloqueio americano.
Em um discurso para os militantes, em fevereiro, Lula fez o que sempre faz diante da torcida: culpou os Estados Unidos. “O nosso país é solidário ao povo cubano, que é vítima de um massacre de especulação dos EUA contra eles”, disse.
Neste mês, o governo começou a organizar, em silêncio, uma doação de 21 mil toneladas de alimentos e medicamentos para Havana — o maior carregamento humanitário que o Brasil enviará a um único país no período recente, segundo uma apuração da BBC News Brasil.
O assunto é tratado com discrição. Afinal, é ano eleitoral, e uma conta que o PT preferia não mostrar certamente vai aparecer durante a campanha: ao longo de mais de duas décadas no poder, os governos petistas destinaram bilhões de reais a Havana em financiamentos, repasses e acordos.
A conta ficou com o contribuinte brasileiro, pois Cuba nunca pagou. Veja a seguir como esse rombo foi construído, favor a favor.
1. O porto da Odebrecht
Em janeiro de 2014, Dilma Rousseff viajou até Cuba para inaugurar, ao lado do ditador Raúl Castro, o Porto de Mariel, a 40 quilômetros de Havana. Lula também esteve lá.
“Estou muito orgulhoso por viver até o dia de poder presenciar a construção de um porto desta magnitude, e mais feliz porque o Brasil colaborou com este novo momento que Cuba vive”, disse o petista.
O custo total das obras chegou a US$ 957 milhões. O BNDES entrou com US$ 682 milhões — dinheiro público, emprestado com prazo de 25 anos para pagamento, o mais longo já concedido pelo banco em toda a sua história. A obra foi executada pela Odebrecht.
Mas o principal nunca voltou: a grana.
2. A garantia em charutos
Para liberar centenas de milhões de dólares para as obras do Porto de Mariel, o governo petista aceitou uma contrapartida que se tornou um dos maiores símbolos dessa relação. Segundo documentos da época, o Brasil aceitou como garantia o dinheiro que Cuba ganha com a venda de seus famosos charutos.
O problema é que esse montante fica guardado num banco em Havana, sob a tutela da ditadura, sem que o Brasil tivesse qualquer noção real sobre os valores. Resumindo: se Cuba não pagasse, o governo brasileiro teria direito de penhorar a venda de charutos — mas dentro de Cuba, numa conta controlada pelo próprio devedor.
O Tribunal de Contas da União (TCU) criticou duramente o acordo e classificou as garantias como de “baixa qualidade”. Apesar dos avisos, o então presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou: “Nossos empréstimos são lucrativos para nós e têm baixíssimas taxas de inadimplência”.
3. Quantos aeroportos cabem numa ilha?
O Porto de Mariel não foi a única grande obra que o Brasil ofereceu de bandeja para a ditadura cubana.
O BNDES e o Proex (Programa de Financiamento de Exportações) também financiaram a modernização do Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, e de aeroportos regionais em Santa Clara, Holguín, Cayo Coco e Cayo Largo.
O governo do PT ainda bancou a construção de uma fábrica de soros e equipamentos de hemodiálise em Cuba. “Não há nenhum partidarismo na liberação dos recursos. Os critérios são baseados apenas na demanda das empresas e na capacidade de pagamento delas”, disse o então ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Em todos os projetos, o modelo era idêntico: as construtoras brasileiras recebiam à vista via BNDES, enquanto a dívida (a perder de vista) ficava com o regime cubano — e o risco, claro, era todo do contribuinte.
4. Médicos como moeda de troca
Em 2013, o governo Dilma lançou o Mais Médicos para levar atendimento a regiões carentes do país. O programa foi apresentado como solução para esse problema, mas também criou um mecanismo pouco transparente de repasse de recursos à ditadura de Havana.
Em vez de contratar os profissionais diretamente, o Brasil pagava à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que repassava os valores a Cuba. O regime ficava com a maior parte do dinheiro, enquanto os médicos recebiam apenas uma fração.
Vários cubanos desertaram do programa e processaram a Opas nos Estados Unidos, acusando a organização de participar de um esquema de trabalho análogo à escravidão. Em 2025, o Departamento de Estado dos EUA revogou os vistos de ex-funcionários do Ministério da Saúde da gestão Dilma, acusados de serem “cúmplices de um esquema de exportação de mão de obra forçada do regime cubano”.
Entre 2013 e 2017, o programa custou cerca de R$ 13 bilhões aos cofres públicos — mais da metade enviada ao exterior para o convênio com Havana.
5. O calote e quem pagou a conta
Em junho de 2018, Cuba pagou US$ 4 milhões de uma parcela de US$ 10 milhões devida ao BNDES. Depois disso, parou.
Com o calote formalizado, o banco acionou o Fundo de Garantia à Exportação (FGE), mecanismo público bancado pelo Tesouro Nacional. O BNDES foi ressarcido e o prejuízo (como previsto) passou para o contribuinte.
Não por acaso, a inadimplência coincidiu com a eleição de Bolsonaro: foi o regime cubano que encerrou o Mais Médicos e, na mesma tacada, deixou de pagar as parcelas do BNDES, após o novo presidente exigir que os médicos recebessem salário integral e fizessem o Revalida.
Lula, de volta ao poder em 2023, tentou colocar panos quentes: “Cuba vai acertar e todos vão acertar porque todos são bons pagadores e nunca deveram ao Brasil”, afirmou.
Cuba foi mais honesta. Em reunião com o Ministério da Fazenda, em fevereiro de 2024, a ditadura reconheceu a dívida, citou “choques externos diversos” (pandemia, embargos americanos, mudanças climáticas) e disse não ter condições de pagar.
Ao fim de 2023, a dívida vencida era de US$ 671,7 milhões. Somando as parcelas a vencer, o total chegava a US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 5,7 bilhões).
6. Os documentos secretos
Em junho de 2012, apenas um mês após a Lei de Acesso à Informação entrar em vigor, o governo foi na contramão da transparência que anunciava. O então ministro petista Fernando Pimentel (do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) assinou um ato colocando sob sigilo os documentos dos financiamentos brasileiros a Cuba e Angola.
A justificativa oficial era técnica: proteger “informações estratégicas” e cláusulas comerciais. Na prática, isso significava que contratos pagos com dinheiro público ficariam fora do alcance da sociedade por até 15 anos. O prazo vai até 2027.
O sigilo não valia para todo mundo. Órgãos como o Tribunal de Contas da União e comissões do Congresso podiam acessar os dados, desde que seguissem regras de confidencialidade. Ainda assim, o público em geral ficava no escuro.
Entre todos os países que receberam crédito do BNDES naquele período, apenas Cuba e Angola tiveram esse nível de proteção — não por coincidência, regimes autoritários e alinhados ideologicamente ao PT.
7. Devendo, mas sempre recebendo
Em setembro de 2023, já de volta ao poder, Lula viajou a Cuba para a Cúpula do G77+China e se reuniu com o ditador Miguel Díaz-Canel. Novos acordos de cooperação em saúde e agricultura foram anunciados.
Nísia Trindade, então ministra da Saúde, comemorou: “O Brasil se beneficia de um conhecimento de ponta que Cuba desenvolveu”.
Fora da pauta oficial, Lula e Díaz-Canel discutiram a dívida bilionária que Cuba reconheceu não ter condições de pagar. O petista, então, veio com outra solução generosa: propôs um escalonamento.
A oposição no Congresso resistiu — qualquer renegociação depende de aprovação legislativa, e ela não veio. A dívida segue em aberto.
8. Arroz e feijão
Em fevereiro deste ano, o governo enviou a Cuba duas toneladas de medicamentos contra tuberculose e Doença de Chagas. Agora, segundo a BBC News Brasil, a gestão de Lula prepara um carregamento muito maior.
Serão 21 mil toneladas de alimentos e remédios — mais do que o Brasil doou para todos os outros 22 países que ajudou no segundo semestre de 2025.
O petróleo está fora de cogitação, mas não por falta de vontade do PT. É que a Petrobras tem ações negociadas em bolsas americanas e poderia ser punida pelo governo dos EUA.
Em 2014, Lula disse que o Porto de Mariel provaria que Cuba poderia “atrair investimentos e produzir produtos de alta tecnologia”. Em 2026, o Brasil manda arroz e feijão.











