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O caso do assassinato de um imigrante por seus colegas alcoolizados mostra como a linguagem acaba por revelar a normalização da violência extrema.
O caso do assassinato de um imigrante por seus colegas alcoolizados mostra como a linguagem acaba por revelar a normalização da violência extrema.| Foto: Pixabay

Talvez eu seja sensível demais ao uso equivocado da linguagem, mas não consigo ignorar a ideia de que a forma como as pessoas falam expressa algo sobre a visão de mundo delas e sobre a maneira como elas pensam.

Três homens em Birmingham, na Inglaterra, moravam juntos num apartamento e foram recentemente condenados por homicídio. Os três vinham de países bálticos. Eles permitiram que um compatriota que não tinha onde morar, a vítima, morasse com eles. Mas, depois de uma sessão de bebedeira que durou de dois a três dias, eles o espancaram até a morte.

Um vizinho ouviu a confusão e viu os três homens saindo e carregando um saco preto. Era o corpo do homem assassinado. Eles o jogaram na rua e depois saíram para comprar mais bebida. O exame cadavérico revelou 50 ferimentos externos, uma hemorragia cerebral e um nariz quebrado, e o patologista concluiu que a vítima foi espancada selvagemente durante muito tempo. Não era um crime de difícil solução para a polícia.

Ao longo da minha carreira, lembro-me de vários assassinatos parecidos. Infelizmente, também sei bem o que promotores e policiais dizem sobre esse tipo de crime, o que demonstra a que ponto chegamos para absorvermos e aceitarmos a visão de mundo dos marginais.

O promotor do caso de Birmingham, em sua argumentação final, disse: “Não havia motivo para que eles matassem a vítima, mas eles estavam todos muito bêbados e talvez essa seja a explicação”. Isso quer dizer que os perpetradores talvez tivessem um bom motivo para matar a vítima. O argumento também aceita a violência extrema como um efeito farmacológico do álcool, embora não seja – ao contrário da falta de coordenação motora, por exemplo.

Pior ainda foi o que a policial encarregada do caso disse depois do veredito: “Foi um ataque brutal de um homem por três outros homens. Ele não teve nenhuma chance de se defender (...). Meus pensamentos estão com a família da vítima. Espero que o veredito lhes traga justiça e permita que eles fiquem em paz com essa morte trágica e sem sentido”.

Sua fala dá a entender que, se o assassinato tivesse sido um evento mais “cavalheiresco” – dois contra um ou até um contra um — ele teria sido notadamente menos hediondo e, portanto, a covardia, e não o assassinato em si, é que é repreensível.

A esperança de que o veredito leve justiça à família é, claro, um absurdo, a não ser que essa justiça seja acompanhada pelo castigo apropriado — o que certamente não acontecerá (os três assassinos ainda ouvirão a sentença definitiva). Se a sentença for leve demais, a família sofrerá com uma sensação ainda maior de injustiça, uma sensação ainda pior do que teria com uma absolvição, já que uma pena leve demonstrará que o Estado dá pouco valor à vida humana encerrada pela criminalidade.

O promotor e a policial não falaram no calor do momento, quando o uso desmedido da linguagem seria compreensível e perdoável. Suas falas foram pensadas e, mais do que isso, são típicas de promotores e policiais nessas circunstâncias. Eles mostram a que ponto os assassinatos “valentes” e “sensatos” se tornaram algo inevitável na vida britânica.

Theodore Dalrymple é editor colaborador do City Journal, ocupa a cadeira Dietrich Weismann no Instituto Manhattan e é autor de vários livros, entre os quais “Out Into the Beautiful World” e o recém-lançado “Grief and Other Stories”.

© 2019 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês
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