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análise

Por que os psiquiatras não podem impedir os assassinatos em massa

Muitos dos responsáveis por essas chacinas têm problemas mentais, geralmente um transtorno grave de personalidade ou uma doença psicótica, mas tal fato, na prática, não tem nada a ver com um possível impedimento do ato em si

  • PorRichard A. Friedman *
  • New York Times
  • 20/10/2017 13:02
Mesmo que eliminássemos todos os males psiquiátricos da população, o índice de criminalidade cairia apenas quatro por cento | Pixabay
Mesmo que eliminássemos todos os males psiquiátricos da população, o índice de criminalidade cairia apenas quatro por cento| Foto: Pixabay

Uma das consequências do massacre de Las Vegas é que o governo, mais uma vez, está promovendo a ideia politicamente eficiente de que um serviço de saúde mental melhor acabaria com tais atrocidades. Paul D. Ryan, o presidente do Congresso, chegou a afirmar, na semana passada, que "a reforma da saúde mental é ingrediente básico para que possamos evitar e impedir que essas coisas voltem a ocorrer como no passado".

O público parece compartilhar dessa mesma ideia: uma pesquisa de 2015 descobriu que 63 por cento dos norte-americanos achavam que um serviço deficiente de saúde mental, e não de controle de armas, era responsável por tais massacres.

É verdade que muitos dos responsáveis por essas chacinas têm problemas mentais, geralmente um transtorno grave de personalidade ou uma doença psicótica, mas tal fato, na prática, não tem nada a ver com um possível impedimento do ato em si.

Por quê? Primeiro que a grande maioria desses assassinos evita o sistema de saúde. Sua intenção é matar gente e não procurar ajuda, e geralmente não se consideram psiquiatricamente doentes. Dos responsáveis pelas 92 chacinas documentadas entre 1982 e 2017, somente quinze por cento tinham tido algum contato anterior com profissionais da área.

É óbvio que qualquer avaliação ou tratamento por que esse pequeno número dos autores passou não os impediu de cometer atrocidades. E mesmo que todos tivessem sido atendidos, é pouco provável que os crimes pudessem ter sido evitados porque, de forma geral, é muito difícil, se não impossível, prever quem adotará um comportamento violento.

Stephen Paddock, o atirador de Las Vegas, é um bom exemplo disso. Com 64 anos, jogador inveterado e bem de vida, sem ficha criminal, ele tinha pouco em comum com o típico assassino em massa, que tende a ser o jovem revoltado, cheio de ressentimento, com um histórico de explosões violentas. Uma busca minuciosa em sua vida para explicar o motivo de tamanha barbárie até agora deu em nada. Seu irmão, Eric, comentou que Stephen era "o menos violento da família durante a infância". Não tenho dúvida de que, se Stephen Paddock tivesse visto um psiquiatra, não teria levantando nenhuma suspeita de perigo.

Em outras palavras, grande parte dos responsáveis por massacres é composta de homens brancos, paranoicos, revoltados e donos de armas, mas, por outro lado, é fato também que uma parcela mínima desse grupo demográfico comete esse tipo de crime.

Além disso, os doentes mentais contribuem muito pouco para a violência generalizada do país. Mesmo que eliminássemos todos os males psiquiátricos da população, o índice de criminalidade cairia apenas quatro por cento. (A "contribuição" dos assassinos em massa é ainda menor: em 2015, eles corresponderam por apenas 0,35 por cento dos homicídios com armas.)

A realidade preocupante é que a imensa maioria dos crimes violentos é cometida por gente saudável, portadora de armas, tomada pelas emoções do dia a dia – e é exatamente nisso que os políticos não querem que o país pense.

De qualquer forma, mesmo que não seja possível prever a violência humana, há muito que podemos fazer para modificar ou conter sua expressão. Por exemplo, pense no sucesso do uso de barreiras físicas simples para a prevenção do suicídio. Uma meta-análise de 2015 mostrou que a instalação de redes de segurança sob "pontos críticos", como a ponte Golden Gate, em San Francisco, é altamente eficiente na redução dos riscos – e fez o índice de suicídios cair de uma média de 5,8/ano para 2,4. Curioso é que, na maioria dos casos, não houve aumento no número de mortes em outros locais de risco, ou seja, eliminar um meio de autocídio não resultou na substituição de alternativas.

O mesmo parece valer para o homicídio: países que limitam o acesso a armas de fogo registram uma fração dos índices de mortes por esse meio nos EUA. A Austrália, por exemplo, que proibiu o porte depois de um massacre ocorrido em 1996, viu o número de homicídios cair pela metade e estacionar. Em 2012, o número de mortes por arma de fogo nos EUA foi de 29,7/milhão; na Austrália, 1,4/milhão.

Ao contrário do que muitos defensores de armas alegam, quem perde o porte de arma não encontra um meio alternativo de ferir a si mesmos e aos outros. Nos países em que há um controle razoável, por exemplo, não há uma epidemia compensatória de ataques à faca.

Então vamos parar de fingir que podemos identificar os assassinos em massa de antemão. O que podemos fazer em relação a eles – e o resto da população – é acabar com o acesso às armas que transformam seus impulsos em chacinas.

*Richard A. Friedman é professor de Psiquiatria Clínica, diretor da Psicofarmacologia Clínica da Faculdade de Medicina Weill Cornell e contribui com a coluna de opinião.

The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

"O que os vincula e que eleva sua probabilidade de matar dessa maneira em especial não é qualquer conjunto particular de crenças, mas um histórico de comportamento antissocial, às vezes violento."

Publicado por Ideias em Segunda, 2 de outubro de 2017
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