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análise

Psicologia explica por que não temos o hábito de verificar informações

Nossas peculiaridades psicológicas nos colocam em risco de acreditar em desinformação e notícias falsas

  • Lisa Fazio*
  • The Conversation
Não temos o hábito de questionar automaticamente as informações que lemos ou ouvimos | Pixabay
Não temos o hábito de questionar automaticamente as informações que lemos ou ouvimos Pixabay
 
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Um quiz rapidinho para você:  

-Quem engoliu Jonas na história bíblica?  

-Quantos animais de cada espécie Moisés levou na Arca?  

Você respondeu “baleia” à primeira pergunta e “dois” à segunda? É o que faz a maioria das pessoas... apesar de saber muito bem que foi Noé, e não Moisés, quem construiu a Arca, segundo o relato bíblico.  

Psicólogos, como eu, descrevemos este fenômeno como a ilusão de Moisés. É apenas um exemplo de como as pessoas são péssimas em matéria de tomar nota de erros factuais no mundo à sua volta. Mesmo quando conhecem a informação correta, os erros frequentemente lhes passam despercebidos e elas chegam a usar as informações incorretas em outras situações.  

Pesquisas de psicologia cognitiva mostram que as pessoas não possuem uma tendência natural a verificar informações e que temos dificuldade em comparar coisas que lemos ou ouvimos ao que já sabemos sobre um tema. Nesta era que vem sendo chamada de a era das fake news, essa realidade tem implicações importantes para o consumo de jornalismo, mídias sociais e outras informações públicas.

Leia também: A história das fake news nos EUA  

Deixar de notar algo que você sabe que é inverídico 

A ilusão de Moisés foi estudada muitas vezes desde a década de 1980. Ela ocorre com uma grande variedade de perguntas, e a conclusão principal é que, mesmo que as pessoas conheçam a informação correta, elas não notam a informação errada e respondem à pergunta assim mesmo. 

80% dos participantes no estudo original deixaram de observar o erro contido na pergunta, apesar de terem em seguida respondido corretamente à pergunta “quem levou os animais à Arca?”. Essa omissão ocorreu apesar de os participantes terem sido avisados que algumas das perguntas conteriam algo equivocado e apesar de lhes ter sido mostrado um exemplo de uma pergunta incorreta. 

A ilusão de Moisés demonstra algo que os psicólogos descrevem como falta de atenção ao conhecimento: as pessoas possuem os conhecimentos relevantes, mas não lançam mão deles.

Uma maneira pela qual meus colegas e eu estudamos essa falta de atenção ao conhecimento é mandar pessoas lerem histórias fictícias que contêm informações verdadeiras e falsas sobre o mundo. Uma história, por exemplo, diz respeito ao trabalho de verão que o personagem está fazendo em um planetário. Alguns dados da história são corretos: “Sorte minha, tive que usar um traje espacial antigo enorme. Não sei se eu deveria ser alguma pessoa em especial – quem sabe Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar sobre a Lua”. Outras informações são incorretas: “Primeiro tive que repassar todas as informações astronômicas básicas, começando pelo funcionamento do nosso sistema solar, do qual Saturno é o maior planeta, etc”.

Mais tarde submetemos os participantes a uma prova de conhecimentos gerais com algumas perguntas novas (qual pedra preciosa é vermelha?) e algumas perguntas relacionadas à informação contida na história (qual é o maior planeta do sistema solar?). Sempre nos deparamos com efeitos positivos da leitura das informações corretas dentro da história – as pessoas têm probabilidade maior de dar a resposta correta à pergunta “quem foi a primeira pessoa a pisar sobre a Lua?”. Também vemos efeitos negativos da leitura da desinformação – os participantes têm probabilidade menor de lembrar que Júpiter é o maior planeta e mais chances de responder que o maior planeta é Saturno. 

Esses efeitos negativos da leitura de informações falsas ocorrem mesmo quando a informação incorreta contradiz diretamente os conhecimentos anteriores das pessoas. Em um estudo, meus colegas e eu fizemos participantes passarem por uma prova de conhecimentos gerais antes de lerem as histórias. Assim, já sabíamos quais informações cada pessoa sabia ou não. Mesmo assim, os participantes aprenderam informações falsas com as histórias que leram posteriormente. De fato, mostraram probabilidade igual de captar informações falsas das histórias, independentemente de elas contradizerem ou não seus conhecimentos anteriores.

Leia também: “Fake news”: nunca foi tão barato enganar os leitores

Podemos melhorar nossa capacidade de flagrar informações incorretas?  

As pessoas frequentemente deixam de notar erros naquilo que leem e passam essas informações erradas adiante em situações posteriores. O que podemos fazer para prevenir essa influência da desinformação?  

Possuir informações especializadas ou conhecimentos maiores parece ajudar, mas não acaba com o problema. Mesmo pós-graduandos em biologia tentam responder perguntas distorcidas como “a água contém dois átomos de hélio e quantos de oxigênio?”, se bem que sua probabilidade de fazê-lo seja menor do que a de pós-graduandos em história (o padrão se inverte com perguntas ligadas a temas históricos). 

Muitas das intervenções que meus colegas e eu implementamos para tentar reduzir a confiança das pessoas em informações erradas fracassaram ou até tiveram efeito contrário ao desejado. Uma ideia que tivemos foi que os participantes teriam mais chances de notar os erros se tivessem mais tempo para processar a informação. Então apresentamos os relatos em formato de livro com fita de áudio, em apresentação mais lenta. Mas, em vez de usar o tempo adicional para detectar e evitar os erros, os participantes mostraram tendência ainda maior a repetir as informações erradas em uma prova posterior de conhecimentos gerais. 

Em seguida, experimentamos destacar as informações críticas em letra vermelha. Orientamos os leitores a prestar atenção especial às informações em vermelho, na esperança de que isso as ajudaria a notar e evitar os erros. Em vez disso, elas prestaram mais atenção aos erros e os repetiram mais frequentemente em provas posteriores. 

A única coisa que parece ajudar é atuar como um verificador de fatos profissional. Quando os participantes são instruídos a editar o relato e destacar quaisquer informações incorretas, têm menos chances de aprender desinformações contidas na história. Os resultados são semelhantes quando eles leem as histórias frase por frase e determinam se cada sentença contém ou não um erro. 

Vale notar que mesmo esses leitores “verificadores de informações” deixam muitos erros passar batidos e ainda aprendem informações falsas com as histórias. Na tarefa de detecção sentença a sentença, por exemplo, os participantes notaram 30% dos erros. Mas, dados seus conhecimentos anteriores, deveriam ter sido capazes de detectar pelo menos 70%. Portanto, esse tipo de leitura cuidadosa ajuda, mas os leitores ainda deixam muitos erros passar despercebidos e os reproduzem em provas posteriores.

Artigo: O poder do jornalismo contra as fake news

Peculiaridades da psicologia nos levam a não flagrar erros 

Por que nós humanos somos tão fracos em matéria de notar erros e desinformação? Os psicólogos acreditam que há pelo menos duas forças em ação.  

Para começar, as pessoas geralmente têm a tendência a acreditar que as informações são verdadeiras (afinal, a maior parte do que lemos ou ouvimos é verdade). Há evidências de que inicialmente processamos todas as declarações como sendo verdadeiras e que é preciso um esforço cognitivo para identificá-las mentalmente como falsas.  

Em segundo lugar, as pessoas tendem a aceitar informações, desde que sejam suficientemente próximas da informação correta. A fala natural muitas vezes inclui erros, pausas e repetições (“ela estava usando um vestido azul – ahn, não, um vestido preto”). Uma ideia é que para manter conversas, precisamos aceitar as informações “suficientemente boas” e levar o papo adiante. 

E as pessoas não caem nessas ilusões quando a informação incorreta é muito obviamente errada. Por exemplo, elas não tentam responder a pergunta “quantos animais de cada espécie Nixon levou na Arca?”, nem acreditam que Plutão seja o maior planeta do sistema solar, mesmo que tenham lido isso em uma história fictícia.  

Detectar e corrigir informações falsas é um trabalho difícil; para fazê-lo, é preciso lutar contra a maneira como nosso cérebro gosta de processar informações. O pensamento crítico, por si só, não vai nos salvar. Nossas peculiaridades psicológicas nos colocam em risco de acreditar em desinformação, mentiras e propaganda. Os verificadores de fatos profissionais prestam um serviço essencial de detectar informações incorretas passadas ao público. O trabalho delas é uma de nossas melhores chances de identificar e corrigir informações errôneas, antes de o resto de nós as ouvirmos ou lermos e as incorporarmos ao que sabemos sobre o mundo.

*Lisa Fazio é professora adjunta de psicologia na Universidade Vanderbilt.

Traduzido por Clara Allain.

©2018 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês

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