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No final de abril de 2007, Enéas Carneiro abandonou o tratamento para leucemia, iniciado havia cerca de um ano. O médico e deputado federal sentia que a quimioterapia não fazia mais efeito, e decidiu passar seus últimos momentos em casa, no Rio de Janeiro.
Ele morreu dias depois, aos 68 anos, e teve suas cinzas jogadas na Baía de Guanabara, conforme pedira à família. Apesar da importância histórica de Enéas como recordista de votos, a imprensa dedicou pouco espaço à sua partida.
A cobertura também ignorou que o cardiologista era considerado uma autoridade médica internacional. Enéas foi tratado como um personagem exótico, quase cômico.
Quase duas décadas depois, no entanto, o político tem circulado como nunca na internet, graças ao fenômeno dos “cortes” — clipes virais com mensagens simples e diretas, compartilhados com facilidade no WhatsApp e em diferentes redes sociais.
O formato é perfeito para o discurso de Enéas. Afinal, o médico era conhecido justamente por seu grande poder de síntese, pela fala acelerada e pela disposição para o confronto.
Meme antes dos memes, ele passou por um processo que os estudiosos chamam de “musealização digital”. Em vez de ser esquecido, ou registrado apenas em documentos tradicionais, Enéas foi “guardado” em dezenas de canais do YouTube — um dos mais populares, o Enéas TV, conta com mais de 500 vídeos.
Nem direita, nem esquerda
Mas esse revival de Enéas Carneiro, também “descoberto” por uma geração que não o viu em debates ou no horário eleitoral, não é fruto apenas de suas habilidades midiáticas. Os novos e velhos admiradores na verdade se interessam por outro aspecto de sua trajetória: a mensagem.
Porque, por trás do estilo caricatural, havia um pensamento estruturado. O fundador do Prona (Partido de Reedificação da Ordem Nacional) rejeitava os rótulos de “direita” e “esquerda”. Para ele, o importante era definir se o Brasil seria um país livre para tomar as próprias decisões ou controlado por interesses estrangeiros.
A obsessão de Enéas era a soberania nacional. Ele foi pioneiro na discussão sobre o nióbio e denunciava a exportação de minérios brutos “a preço de banana”. Chamava a preocupação internacional com a Amazônia de “gritaria” e “farsa” criada para saquear nossas riquezas. Em pleno fim da Guerra Fria, defendia que o Brasil deveria fortalecer suas Forças Armadas e fabricar uma bomba nuclear.
O fundador do Prona era estatista, protecionista, conservador nos costumes e desconfiado do Ocidente liberal. Hoje, certamente, seria um inimigo do que se convencionou chamar de “globalismo”.
“Direita neofascista”
Embora considerasse os polos ideológicos “obsoletos e ultrapassados”, Enéas Carneiro é considerado uma espécie de “pai simbólico” da atual direita brasileira para a maioria dos pesquisadores acadêmicos.
Em artigos, dissertações e teses produzidas principalmente a partir dos anos 2010, o médico também é visto como uma figura que antecipou comportamentos associados a movimentos contemporâneos considerados radicais pela universidade brasileira.
A saber: discurso antissistema, exaltação aos valores morais, desprezo pelo Congresso e outras instituições tradicionais (incluindo a imprensa), apreço pela autoridade e defesa de um comando centralizado para resolver os problemas do país.
O historiador Odilon Caldeira Neto, por exemplo, uma das principais referências locais no estudo da chamada “extrema direita”, dedicou boa parte de sua formação a analisar a trajetória do deputado.
Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, ele acredita que Enéas ocupou um vácuo deixado por setores autoritários e conservadores após o fim do regime militar. O acadêmico chega a apontar o Prona como “a maior expressão da direita extremista (e/ou neofascista) brasileira” durante a sua existência.
Vale lembrar que o cardiologista já recebia o rótulo de fascista quando era vivo (e o termo ainda não havia sido banalizado pela esquerda militante das redes sociais). Mas ele respondia tranquilamente, destacando sua origem mestiça e seu apreço à democracia — desde que houvesse ordem e disciplina.
“Homens brancos irritados”
Ainda segundo Caldeira Neto, o cardiologista “pavimentou o caminho” para a nova direita brasileira e Jair Bolsonaro — que frequentemente o cita como influência e chegou a propor na Câmara, em 2017, um projeto de lei para incluir seu nome no Livro dos Heróis da Pátria.
O pesquisador Matiás Lopez, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, também identificou essa continuidade, mas com relação aos eleitores. Seus estudos revelam um perfil semelhante entre os admiradores de Enéas e Bolsonaro: os dois grupos são formados por homens jovens, brancos, com ensino superior e renda de classe média.
Esse público se formou politicamente pela internet e desenvolveu uma forte desconfiança dos políticos tradicionais e da mídia hegemônica. São pessoas que estudaram, se esforçaram e seguiram as regras, mas encontraram um mercado de trabalho instável e uma sociedade marcada por promessas não cumpridas.
Lopez usa um termo importado da sociologia americana, e bastante usado pela esquerda identitária, para definir esse fenômeno: “homens brancos irritados”.
Estatista e antiliberal
Carimbos woke à parte, o fato é que Enéas representa um ideal de meritocracia e excelência intelectual para seus seguidores. Saiu da extrema pobreza no Acre e se tornou um cientista respeitado. Não aceitava ver o país governado por pessoas despreparadas e criticava duramente o “analfabetismo funcional” das elites políticas.
Mas há uma contradição importante nessa herança. Enquanto o bolsonarismo e boa parte da direita atual defendem o liberalismo econômico (com privatizações, menos impostos e Estado mínimo), o fundador do Prona era estatista e intervencionista.
Ele via o mercado financeiro internacional com suspeita e acreditava que o governo deveria ser o tutor do povo. Para Enéas, as privatizações eram “negociatas” que entregavam as riquezas e setores estratégicos para os “donos do mundo”.
O “eneísmo” do século 21, portanto, funciona menos como um projeto político e mais como uma identidade moral e, digamos, emocional.
Ícone pop
A nova tribo dos admiradores de Enéas Carneiro não se limita a compartilhar vídeos antigos — muitos deles editados como se fossem comentários sobre o Brasil atual, para reforçar a ideia de que o político “já sabia de tudo” décadas atrás.
Há também grupos de discussão, contas no Instagram dedicadas a recuperar materiais impressos raros e até iniciativas para transformá-lo em ícone pop. Como a campanha “Enéas, o Brasil te pede desculpas”, que saiu do virtual para o mundo real por meio de camisetas, bonés, pôsteres, botons e adesivos.
Outra referência dessa comunidade é o livro “Enéas, o Brasileiro por Excelência” (2022), de André Garcia Brito de Morais. Ao lado da biografia “Meu Nome É Enéas” (2025), de Renato Velloso, a obra se tornou uma espécie de porta de entrada para quem quer ir além dos cortes virais.
Originalmente concebido como um trabalho de conclusão de curso (Garcia estudou Jornalismo nas Faculdades Metropolitanas Unidas, em São Paulo), o título foi ampliado e já vendeu mais de 10 mil exemplares — quase tudo na base do boca a boca em círculos “eneístas”.
“O livro foi escrito com entusiasmo juvenil e falta de fontes”, admite o autor de 28 anos, que hoje atua na área de assessoria de comunicação e também é sócio em um pequeno comércio na capital paulista.
“O trabalho surgiu de uma certa angústia que eu tinha, de não saber me posicionar [ideologicamente]. Tenho mais simpatia pela direita, mas o Enéas me chamou atenção porque não se dizia nem de esquerda nem de direita, e era preocupado com as causas sociais”, diz, em entrevista à Gazeta do Povo.
“Enéas, O Brasileiro Por Excelência” resgata a trajetória e as ideias do político com uma linguagem acessível, o que explica o interesse do público leigo pela obra. Não por acaso, ao falar de seus leitores, Garcia acaba traçando um perfil que dialoga com a pesquisa do chileno Matiás Lopez.
“Muitos eleitores do Enéas eram pessoas que saíam da faculdade e não conseguiam emprego”, afirma. “A pessoa estuda, encontra um Brasil sem oportunidades e procura um modelo político. O Enéas propunha transformar o brasileiro em trabalhador e estudioso, não em oportunista”.

Prona e PL
Enéas Carneiro entrou para a história política brasileira nas eleições presidenciais de 1989, as primeiras após o fim do regime militar. Candidato pelo recém-criado Prona, ele teve cerca de 360 mil votos e eternizou um dos bordões mais marcantes de todos os tempos: “Meu nome é Enéas”.
O médico voltaria a concorrer à Presidência em 1994 e 1998. Em 94, com pouco mais de um minuto de horário eleitoral, surpreendeu ao conquistar o terceiro lugar com mais de 4,6 milhões de votos, superando figuras tradicionais como Leonel Brizola e Orestes Quércia.
Quatro anos depois, com apenas 35 segundos de tempo na televisão, chegou à quarta colocação, com cerca de 1,4 milhão de votos. No ano 2000, tentou a prefeitura de São Paulo, mas obteve apenas 3% dos votos válidos.
Seu maior desempenho eleitoral veio em 2002, quando se elegeu deputado federal por São Paulo com cerca de 1,57 milhão de votos — um recorde histórico, superado apenas em 2018 por Eduardo Bolsonaro.
Em 2006, já debilitado pela leucemia, o político se reelegeu com aproximadamente 387 mil votos, mas morreu sem assumir o cargo.
Naquele mesmo ano, o Prona foi incorporado ao Partido Liberal (PL), dando origem ao Partido da República (PR). Em 2019, o PR voltou a se chamar PL, um movimento que desagradou parte dos antigos aliados de Enéas.
Desde então, a sigla deixou de existir formalmente, embora grupos de admiradores tenham feito tentativas esporádicas de reativá-la junto ao Tribunal Superior Eleitoral, sem sucesso até o momento.
Questão de princípios
Para o cientista político Cláudio Preza, professor da PUCRS, não há uma continuidade do “DNA político” do Prona no atual PL — apenas o resultado de circunstâncias. Segundo ele, candidatos se filiam a partidos que têm espaço e verbas públicas, e a estrutura institucional brasileira leva a um “cenário partidário, ideológico e eleitoral caótico”.
Preza também comenta a suposta baixa “eficácia legislativa” de Enéas na Câmara, apontada por muitos analistas. O professor reconhece os limites do deputado, porém relativiza os critérios.
“Como outsider, é possível que ele não tenha conseguido desempenhar da forma esperada, mas temos que rever quais são os parâmetros de desempenho. Talvez ele não tenha se adaptado ao sistema institucional, até por questões principiológicas”, diz o professor.
Bom combate
Cláudio Preza contesta a narrativa acadêmica que classifica Enéas como precursor de uma “extrema direita brasileira”. Segundo ele, o contexto de 1989 era “bastante complexo” e não permitia o uso dessas categorias com a mesma clareza de hoje.
“Naquele momento histórico, nós não poderíamos falar como falamos agora em direita, esquerda, extrema direita e extrema esquerda como conceitos claros da ciência política”, explica.
Quanto à influência de Enéas na direita atual, o cientista político reconhece que o cardiologista tinha “uma forte posição republicana” e valorizava a meritocracia. Já com relação à estética e à retórica, ele é cauteloso: “Acho que a ascensão das redes sociais influenciou mais”.
Por fim, Preza reflete sobre a principal herança deixada por Enéas Carneiro. Para ele, o legado é “o da resiliência de quem tem bons propósitos e faz o bom combate”.
O professor completa: “O Enéas deveria ser avaliado pelo respeito ao republicanismo e por ser um exemplo de que é possível manter-se fiel aos princípios — e, a partir daí, tentar mudar as estruturas de uma maneira madura”.







