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Quinta-feira Santa: leia relato sobre celebração no Brasil do século 19

Procissão do Fogaréu na cidade de Goiás (GO), em 2022: tradição antiga.
Procissão do Fogaréu na cidade de Goiás (GO), em 2022: tradição antiga. (Foto: EFE/Weimer Carvalho)

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Reconhecida como patrimônio cultural imaterial de dois estados, Bahia e Goiás, a Procissão do Fogaréu é tradicionalmente realizada na Quinta-Feira Santa. O ato remonta à prisão de Jesus no Monte das Oliveiras, como descrita nos Evangelhos. A tradição surgiu no século 18 e é mantida em diferentes cidades dos dois estados, incluindo Serrinha (BA) e Goiás (GO). Em Salvador (BA), foi realizada até 1874, organizada pela Irmandade de Misericórdia.

A partir de então, a celebração acabou por ser proibida, como relata o escritor e pesquisador Manoel Querino (1851-1923) no livro A Bahia de Outrora, publicado em 1916. Em um capítulo da obra, transcrito abaixo com a ortografia atualizada, ele descreve a procissão e explica os motivos para seu fim na capital baiana: os populares costumavam agredir as pessoas que representavam o Gato da Misericórdia, personagem criado para substituir os soldados romanos – precisamente porque eles também eram alvo de violência.

“A PROCISSÃO DE FOGARÉUS

Representava a captura do Nazareno, à noite, no Jardim das Oliveiras pelos judeus, guiados pelo maldito discípulo que ia entregar o Divino Mestre aos seus algozes, sendo o sinal convencionado o ósculo na face.

Na quinta-feira santa, ou de Endoenças, às oito horas da noite, desfilava a enorme procissão de fogaréus da igreja da Misericórdia. O préstito era assim constituído; na frente, um indivíduo com o estandarte, ao qual o povo dava o nome de Pendão, com a vistosa inscrição em letras de ouro — S. P. Q. R., atestando a solidariedade do povo romano cora as arbitrariedades que iam praticar com Jesus Cristo.

Depois, vinham os sete passos da Paixão, em painéis, cada um guarnecido por dois sacerdotes e dois irmãos da Misericórdia, conduzindo tocheiros, com os respectivos balandraus, vestimenta com capuz e mangas largas. Possantes etíopes conduziam pesadas lanternas de ferro, pendurados do topo de fortes varas de madeira. Nelas ardiam estopa, breu e aguarás, produzindo enorme clarão. Os irmãos da Misericórdia abriam alas à passagem das diversas dignidades do clero, e, bem assim, aos músicos da orquestra, que acompanhavam os cânticos.

O fagote, instrumento de madeira, de timbre melancólico, imprimia sensível tristeza ao ato. Duas personagens jocosas quebravam a imponência da solenidade. Uma, o enxota cães ou farricoco, trajando túnica roxa, com capuz, que lhe cobria a cabeça e o rosto, mal deixando perceber os olhos e a boca, conduzia uma baliza reluzente, para o exercício do seu cargo.

A outra, com igual uniforme, era designada pelo nome de Gato da Misericórdia. Competia-lhe a função de dar o sinal preciso para o préstito parar ou prosseguir, servindo-se de atroadora matraca. Esta personagem, durante o itinerário da procissão, era constantemente perseguida por populares, apesar de estar garantida por praças de polícia.

O primeiro ponto visitado era a igreja de Nossa Senhora da Ajuda. Ali a imagem de Cristo, conduzida pelo respectivo escrivão, era colocada numa banqueta, preparada para esse fim; o capelão cantava três vezes o Senhor Deus, Misericórdia, findo o que retiravam-se todos, repetindo a mesma cerimônia, em todas as igrejas do Curato da Sé.

Ao recolher a procissão, havia sermão, pregado por um dos afamados oradores sagrados do tempo. Terminado este ato, os irmãos, convidados e pessoas gradas encaminhavam-se para a sala das sessões, e, ali, lhes era oferecido pelo provedor, em exercício, farta mesa, com empadas, frigideiras, doces, pasteis e vinho velho do Porto.

Na provedoria do conselheiro Manuel Pinto de Souza Dantas extinguiu-se a procissão de fogaréus, em consequência de grande conflito, que tomou proporções assustadoras, acontecendo serem alguns irmãos atingidos por pedras, atiradas no Gato da Misericórdia. Decorreu isso em 1874. Em substituição, adotou-se a cerimônia do Lavapés, missa cantada, e procissão do Santíssimo no claustro.”

Fonte: A Bahia de Outrora, Manuel Querino.

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