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O El Niño de 2026 foi confirmado em maio pelos especialistas, com quase 100% de probabilidade. Em menos de uma semana, já tinha virado munição para uma guerra que pouco tem a ver com meteorologia.
O secretário-geral da ONU usou os prognósticos para exigir o fim imediato dos combustíveis fósseis. Ativistas rotularam o evento como um “Super El Niño potencializado pela ausência de planejamento”. Nas redes, sobraram previsões de catástrofe iminente, do colapso da produção agrícola e do pior fenômeno em 140 anos.
O exagero chegou a tal ponto que o próprio Cemaden, o órgão federal responsável pelo monitoramento de riscos e emissão de alertas de desastres, passou a evitar o prefixo “super” — porque, quando projeções extremas não se confirmam, é a autoridade científica que paga o preço.
Os modelos climáticos usados para estimar a intensidade do fenômeno também não ajudaram a pacificar o debate. Alguns cenários apontavam para um El Niño forte, com pico próximo de +2,1°C. Outros trabalhavam com uma intensidade bem mais moderada, em torno de +1,3°C. Ou seja, as próprias ferramentas de previsão divergiam sobre a força do fenômeno.
Existe até um nome técnico para essa limitação: “barreira de previsibilidade da primavera boreal”, uma fase em que as previsões sobre a evolução do evento se tornam menos confiáveis. Mas quase ninguém parecia interessado nela.
Nada disso é novidade. O debate climático global funciona há anos como um campo de batalha em que dois exércitos disputam uma narrativa que passa longe de proteger quem mora em áreas de risco (cerca de 8,27 milhões de brasileiros, segundo o IBGE) ou precisa tomar decisões diante da possibilidade de uma seca ou de uma enchente.
De um lado, os alarmistas tratam as projeções extremas como inevitáveis e as usam para justificar uma intervenção econômica global. Do outro, os mais céticos veem tanto exagero nas previsões que acabam desconfiando até dos alertas legítimos.
No meio dos dois, estão o morador de encosta e o produtor rural, que não sabem em quem confiar. Eles pagam o preço de um tema sequestrado pela polarização e, o pior, de depender de um Estado que continua sem agir.
Fato, palpite e política
A expressão “consenso científico” virou uma bandeira. Mas o principal problema é que ela passou a empacotar três debates diferentes como se fossem um só: a física do clima, as projeções dos modelos climáticos e as políticas governamentais de resposta.
Para desfazer essa confusão, é preciso separar o que é fato, palpite e política.
A física é incontestável. O efeito estufa gerado pela atividade humana é um fenômeno mensurável. No entanto, é aqui que o debate deveria começar, e não terminar.
As projeções de impacto, como a intensidade do El Niño de 2026, dependem de modelos matemáticos que divergem entre si. Questionar essas projeções não é negar a ciência, e sim exigir rigor técnico — já que a imprecisão desses cálculos pode levar a decisões desastrosas.
As políticas públicas de reação tampouco são verdades científicas. Elas representam escolhas que envolvem impostos, restrições e prioridades de governo.
Misturar esses três elementos no mesmo balaio costuma ser um truque para tentar proteger decisões administrativas contra qualquer crítica. Mas a guerra cultural climática embolou tudo ainda mais.
Quem aponta exageros em um modelo matemático logo é acusado de contrariar a própria física do clima. Se você pergunta sobre os custos ou a eficiência de uma política pública, pode ser chamado de negacionista. E divergências técnicas viram ataques morais entre grupos de cientistas.
O resultado é menos espaço para discutir o que realmente importa: o que os governos estão fazendo na prática?
Jogo de cena
A COP30 foi uma versão brasileira desse jogo de cena. Em novembro de 2025, Belém recebeu representantes de quase 200 países para debater o futuro climático do planeta — com o governo Lula se apresentando como liderança internacional da agenda ambiental.
Poucas semanas antes, porém, o Ibama havia autorizado a Petrobras a avançar na perfuração da Foz do Amazonas. A então ministra do Meio Ambiente Marina Silva até reconheceu publicamente a contradição, mas Lula preferiu recorrer à sua cartilha de sempre: evocou o fantasma do imperialismo para silenciar os críticos.
“Temos que explorar o petróleo antes que o Trump ache que é dele”, disse o presidente, papagueando a campanha “Brasil Soberano”, criada para vender a ideia de independência contra pressões externas e ganhar fôlego nas eleições deste ano.
O episódio deixou claro que os interesses da política petista atropelam a lógica de suas próprias narrativas. E, no fim, a participação brasileira se resumiu a muita briga simbólica e nenhuma clareza sobre o que, de fato, é prioridade.
Histeria e realidade
Em entrevista à Gazeta do Povo, o agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, sócio-fundador da consultoria Rural Clima, apontou o contraste entre a histeria do debate climático e a realidade de quem vive do campo. Seus clientes não estão interessados em vencer disputas ideológicas — eles precisam decidir quando plantar, quanto investir e como administrar riscos.
Sua avaliação sobre o fenômeno de 2026 é firme. “Dizer que será um Super El Niño ou um El Niño catastrófico é uma falta de respeito com a população. Afirmações assim só geram pânico”, diz Santos.
O meteorologista não ignora a realidade climática e confirma a influência do El Niño nos próximos meses. Sua crítica é sobre o tom sensacionalista usado para divulgar a previsão.
Segundo ele, fatores importantes para o Brasil, como o comportamento do Oceano Atlântico, recebem muito menos atenção do que os alarmismos. “O Atlântico tem peso muitas vezes maior no clima do país do que o próprio El Niño”, afirma.
“O resto é especulação”
Santos ainda lembra que o El Niño de 2015/16, um dos mais intensos da série histórica, não desencadeou o mesmo terror climático que o termo “Super El Niño” sugere. E destaca um efeito colateral dessa narrativa: “Isso coloca em xeque a credibilidade da previsão do tempo, que já é algo duvidoso para parte da população, principalmente a urbana”.
Diante da incerteza, ele defende um retorno à sobriedade técnica, sem exageros. “O certo é dizer que o fenômeno virá e poderá causar problemas, como excesso de chuvas no Sul, veranicos no Centro-Norte e ondas de calor mais intensas. O resto é apenas especulação”, diz.
A guerra cultural, no entanto, prefere a especulação. E, enquanto os profetas gritam sobre o apocalipse, os políticos fazem pouco caso do que já aparece nos relatórios oficiais. O clima pode até passar por mudanças, mas as encostas continuam no mesmo lugar.
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