
Ouça este conteúdo
Em 10 de setembro de 2025, Charlie Kirk, ativista político conservador dos Estados Unidos, morreu assassinado com um tiro no pescoço. O crime foi cometido durante um evento no campus da Universidade do Vale de Utah, no qual Kirk, sob um cartaz que dizia Prove Me Wrong (“prove que estou errado”), incentivava os estudantes a desafiarem suas opiniões conservadoras.
Após sua morte, a figura de Kirk se tornou um símbolo para o movimento conservador. A Turning Point, organização que o ativista fundou para difundir seu ideário e mobilizar os mais jovens, recebeu numerosas doações e pedidos de filiação. Donald Trump o qualificou como um “mártir da liberdade” e um “grande herói americano”.
No primeiro aniversário de seu assassinato, parece que o tempo não foi tão benevolente com a figura de Kirk, com a continuidade da Turning Point e, sobretudo, com o movimento MAGA ("Make America Great Again") que Kirk contribuiu para unir em torno de Donald Trump.
O colapso online da figura de Kirk e a fratura do MAGA midiático
Apesar do apoio recebido após a morte de seu fundador, a Turning Point enfrentou muitos problemas para encontrar um sucessor à altura de Kirk. Sua esposa, Erika, assumiu o comando e dirige atualmente a organização, mas nenhum ativista da Turning Point consegue reunir a audiência que os vídeos de Kirk eram capazes de atrair.
A isso se soma o fato de que Charlie Kirk, que deixou um grande rastro de vídeos após sua morte, foi transformado em um “meme” no mundo das redes sociais: sua figura passou a ser usada por seus críticos para satirizar seu próprio ideário político.
Por exemplo, a música criada com IA para sua homenagem, intitulada “We are Charlie Kirk”, é utilizada agora de maneira irônica para parodiar a imagem de Kirk e do movimento que liderava. O vídeo que mostra o momento do disparo foi editado inúmeras vezes para simular o assassinato de figuras como Netanyahu ou Epstein. Viralizaram seus argumentos defendendo o direito ao porte de armas, seus tweets recomendando a Taylor Swift “abandonar o feminismo e se submeter ao seu marido” e suas declarações sobre religião, imigração, Israel ou política externa.
A chamada “Kirkificação” foi muito além de transformar Kirk em um personagem da internet. Sua imagem e suas palavras aparecem agora inseridas em filmes, videogames e vídeos gerados com inteligência artificial. Inclusive o áudio do seu assassinato foi reutilizado como som em vídeos do TikTok. A paradoxo é evidente: o ativista que dedicou boa parte de sua vida a dominar o ecossistema digital se tornou, depois de morto, um personagem cujo significado ninguém mais controla.
A memificação também modificou a forma como sua figura é lembrada. Para seus admiradores, e especialmente para uma geração de jovens que se sentia desconfortável nos campus norte-americanos, Kirk era o jovem que tornou o conservadorismo atraente.
Para seus detratores, ele era um polemista que explorava a polarização e utilizava uma retórica deliberadamente provocativa. Kirk é retratado como um manipulador que debatia com universitários muito menos preparados que ele para expô-los, e que empunhava um evangelismo político altamente caricaturado nos memes que circulam agora.
E tudo isso ocorreu ao mesmo tempo em que figuras muito midiáticas, como Candace Owens ou Tucker Carlson, que anteriormente haviam formado uma frente unida ao lado de Kirk em apoio a Trump, entraram em uma espiral de teorias da conspiração sobre os verdadeiros motivos do assassinato de Kirk.
Owens, amiga pessoal de Kirk na época e muito próxima da Turning Point, renegou o movimento e chegou a acusar algns de seus membros de terem participado da morte de Kirk.
A fratura não é somente pessoal; é também política. A direita norte-americana se encontra cada vez mais dividida entre aqueles que mantêm uma aliança incondicional com Israel e aqueles que consideram que os Estados Unidos devem abandonar as guerras externas; entre os que defendem o establishment republicano e os que o consideram parte do problema; e entre aqueles que veem Trump como o instrumento necessário para transformar o país e os que creem que sua presidência acabou por reproduzir aquilo contra o qual o populismo conservador dizia se rebelar.
O problema para a Turning Point é que controlar uma organização é muito mais simples do que controlar um ecossistema digital. Kirk conseguia conectar setores muito distintos da direita porque era, ao mesmo tempo, ativista, comunicador e polemista. Após sua morte, cada uma dessas funções começou a se dividir entre outras figuras. E nenhuma parece capaz de ocupar sozinha o espaço que ele deixou.
O grande legado de Kirk pode se perder: os jovens já não apoiam Trump
Para além de seu impacto midiático, Kirk era conhecido por ter sido um dos artífices da vitória de Trump em 2024 ao mobilizar um grupo muito específico de eleitores: os homens jovens.
No entanto, esse nicho de eleitores voltou a perder o interesse por Trump: são os mais críticos em relação à sua política externa, especialmente com a guerra do Irã, ficaram desapontados com a gestão dos arquivos de Epstein e dão extrema importância às políticas de habitação e acessibilidade econômica.
Aqui surge uma das grandes contradições no legado de Kirk: o caráter “antisistema” com o qual ele soube vestir o voto conservador de muitos jovens voltou-se contra eles agora que o “sistema” é representado por Trump e pelo Partido Republicano. As mesmas expectativas que Kirk ajudou a criar — menos guerras, menos intervencionismo, mais liberdade individual e uma melhora tangível das condições econômicas — podem se transformar em fonte de frustração quando o governo não cumpre o prometido.
Os dados apontam para uma deterioração da intenção de voto republicana particularmente forte entre os menores de 30 anos. Trump obteve em 2024 um resultado muito melhor entre os jovens do que em eleições presidenciais anteriores, especialmente entre os homens. No entanto, durante seu segundo mandato, sua aprovação entre os eleitores de 18 a 29 anos caiu drasticamente. A economia, o preço da habitação e as guerras externas aparecem agora entre as principais fontes de descontentamento.
Isso transforma as eleições de meio de mandato de novembro de 2026 em um teste especialmente interessante, que servirá para comprovar se invocar o nome de Charlie Kirk ainda pode fazer o que ele fazia pessoalmente: convencer jovens que até então não encontravam um lugar no Partido Republicano de que aquele era o seu lugar.
Objetivo 2028: JD Vance presidente
E se o apoio dos conservadores ao mandato de Donald Trump fosse apenas um meio para um fim?
Trump chegou ao poder impulsionado por um movimento que não se limitava a querer ganhar eleições, mas que pretendia transformar a própria identidade do Partido Republicano. Kirk entendeu antes de muitos outros que, para conseguir isso, era necessário conquistar uma nova geração.
Apesar das promessas não cumpridas e do fato de que a unidade desse movimento MAGA está rachada no momento, a Turning Point continua apostando em Donald Trump. No entanto, o verdadeiro candidato da Turning Point é o vice-presidente J.D. Vance. Católico convertido, próximo aos setores intelectuais da nova direita norte-americana, Vance — que ainda não apresentou oficialmente sua candidatura para 2028 — recebeu o apoio público da organização fundada por Kirk.
Mas Vance está longe de ser uma figura pacífica dentro dessa nova direita. Sua posição sobre Israel o colocou em confronto com alguns dos setores mais tradicionais do Partido Republicano, enquanto sua proximidade com Tucker Carlson e outros grandes nomes do ecossistema de podcasts conservadores lhe permite manter um vínculo com uma audiência jovem e radicalmente anti-establishment, mas também o aproxima de um espaço no qual o antissemitismo ganhou visibilidade. Vance defendeu que Carlson tem um lugar dentro do movimento conservador e tentou se apresentar como um ponto intermediário entre as distintas posições sobre Israel. Uma estratégia que pode servir para não perder nenhuma das duas alas, mas que também deixa aberta a questão de até onde ele está disposto a ir.
Sua dimensão religiosa também gera interrogações. Sua conversão ao catolicismo e sua proximidade com os intelectuais da direita pós-liberal fazem parte de um movimento que já não entende o cristianismo apenas como uma questão privada, mas como uma peça central de seu projeto político. É uma direita diferente da republicana tradicional: mais desconfiada das elites, menos entusiasmada com as guerras externas e muito mais disposta a travar uma batalha cultural aberta.
E aqui volta a aparecer Charlie Kirk. Sua aposta parecia consistir em utilizar Trump como o veículo para fazer algo maior: incorporar os jovens ao movimento conservador, transformar o Partido Republicano e preparar uma geração de líderes que pudesse continuar o projeto quando Trump saísse de cena. Vance poderia ser o próximo passo dessa operação.
Mas ainda não está claro quem está utilizando quem. Kirk podia pensar que Trump serviria para construir uma nova direita; Trump, por outro lado, pode terminar utilizando essa nova direita para prolongar seu próprio movimento para além de sua presidência. Vance se encontra precisamente no meio dessa tensão: precisa conservar a confiança de Trump, mas também demonstrar que pode liderar aqueles que chegaram ao conservadorismo não por lealdade ao presidente, mas por rejeição ao establishment que agora Trump representa.
As eleições de meio de mandato de novembro serão um primeiro teste dessa capacidade de mobilização. Mas o verdadeiro teste virá em 2028, quando os jovens que Kirk converteu em eleitores republicanos tiverem que decidir se continuam fazendo parte do movimento sem Trump na cédula de votação. Então se verá se Charlie Kirk conseguiu utilizar Trump para construir algo que pudesse sobreviver a ele ou se, finalmente, foi Trump quem utilizou Kirk para moldar uma geração política à sua medida.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Un año después del asesinato de Charlie Kirk, la fractura en la derecha MAGA pone a prueba su legado.



