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I. O descanso: deter-se num mundo que não sabe parar
O verão não é apenas uma estação do ano: evoca férias, descanso e uma forma própria de viver. Mesmo quem não consegue descansar de verdade percebe que o verão significa, em maior ou menor grau, descanso: talvez um que se projeta para o futuro, talvez um que se recorda com nostalgia. Em todo caso, o verão desperta em nós uma promessa: a possibilidade de deter-se, assim como o sol parece deter-se no céu de janeiro.
As férias, assim compreendidas, não são um simples parêntese no calendário laboral ou acadêmico. Constituem um gesto cultural de enorme densidade antropológica: a afirmação segura de que o homem não existe apenas para produzir, render ou cumprir funções. São um reconhecimento —cada vez mais frágil — de que a vida humana precisa de pausas que não se justificam por sua utilidade. Não se descansa simplesmente por esgotamento do corpo ou do espírito produtivo, nem para voltar a produzir melhor. As férias, quanto mais verdadeiras forem, escapam da lógica da utilidade e se justificam a si mesmas.
Nossa cultura, no entanto, vive um paradoxo cada vez mais visível: anseia pelo descanso, mas não sabe bem o que fazer com ele. O descanso é planejado, medido, avaliado. Descansa-se para render, desconecta-se para voltar a conectar-se melhor. Muitos de nós já experimentamos isso alguma vez: volta-se das férias mais cansado do que se foi, não por excesso físico, mas por incapacidade de deter-se interiormente.
Não se trata de um problema psicológico individual, mas de uma crise cultural do tempo. O tempo deixou de ser o âmbito em que a vida se desdobra para se tornar recurso. Administra-se, otimiza-se, consome-se. Até o descanso foi absorvido por essa lógica: deve justificar sua existência mostrando resultados. Mas quando o descanso precisa provar sua utilidade, deixa de ser descanso.
O descanso, em seu sentido mais próprio, ainda não é ócio nem festa. É algo mais elementar: a interrupção da obrigação de produzir. Parece um gesto mínimo, mas hoje é quase subversivo.,
O descanso, em seu sentido mais próprio, ainda não é ócio nem festa. É algo mais elementar: a interrupção da obrigação de produzir
II. O ócio: a utilidade do inútil
Se o descanso é a detenção, o ócio é a forma que essa detenção adota quando não se vive como vazio, mas como presença. Aqui, a reflexão do filósofo alemão Josef Pieper resulta decisiva. Para Pieper, o ócio não é o contrário do trabalho, mas seu fundamento espiritual. Não é mera inatividade nem simples pausa funcional em vista de uma nova produtividade: é uma disposição da alma.
Quando se descansa para render melhor, quando se “desconecta” para otimizar a concentração futura, o ócio já foi colonizado pela lógica do trabalho. Pieper é claro: se o ócio for concebido como pausa funcional, deixa de ser ócio e se torna parte do processo produtivo.
O ócio é inútil em sentido estrito: não serve para algo mais, não se ordena a um fim externo, não se justifica por seus efeitos. No entanto, nessa inutilidade reside sua utilidade mais profunda. Aqui podemos formular com mais detalhe a expressão que dá título a este ensaio e que também é o título de um conhecido livro: a utilidade do inútil. O ócio não é útil porque produz resultados, mas porque restitui ao homem uma relação não instrumental com o tempo, com o mundo e consigo mesmo. Sua utilidade não é funcional nem mensurável; é antropológica, existencial.
Caminhar sem destino, ler sem pressa, conversar sem objetivo, deixar o tempo passar sem administrá-lo: esses gestos não servem para nada, e precisamente por isso servem para algo essencial. Devolvem ao tempo sua espessura e à vida sua dignidade não instrumental. O ócio não foge do mundo, mas o aceita e o abraça tal como é.Numa cultura que suspeita de tudo o que não rende, o ócio aparece como algo inquietante, inclusive culpado. Mas é precisamente nessa inutilidade que o homem recupera algo que havia perdido: a possibilidade de habitar o tempo em vez de consumi-lo.
III. A festa: culminação do ócio e afirmação do ser
Para Pieper, o ócio não culmina na mera quietude individual, mas na festa. A festa não é um acréscimo nem uma recompensa eventual, mas a expressão mais plena do ócio. É o ócio em chave comunitária e afirmativa. A festa não se justifica por sua utilidade: não produz nada, não resolve problemas. Precisamente por isso é essencial.
A sobremesa se prolonga sem ser planejada. Ninguém olha o relógio porque, embora o tempo continue avançando, o relógio perdeu seu poder e encanto sobre nós. A festa existe porque o mundo é bom e digno de ser celebrado; nisso se funda sua dimensão afirmativa. Não nasce da ausência de dificuldades, mas da afirmação de que o bem segue sendo mais real que o mal. Por isso pode haver festa mesmo em meio ao sofrimento, mesmo —como lembra Pieper— em meio à guerra. A festa não nega a dor, mas se nega a conceder-lhe a última palavra. É um ato de resistência: uma afirmação do ser diante de tudo o que o reduz, e do amor a esse ser tal como é.
Caminhar sem destino, ler sem pressa, conversar sem objetivo, deixar o tempo passar sem administrá-lo: esses gestos não servem para nada, e precisamente por isso servem para algo essencial
Às vezes a festa adota a forma simples de um almoço de verão à sombra de uma árvore. Uma mesa improvisada, pratos simples e o vento entre as folhas. Come-se sem pressa, conversa-se sem agenda, e o riso irrompe de repente quando alguém, no meio da refeição, se desvia para contar uma anedota colorida, obrigando todos a deter-se e a ceder por um instante o controle a algo maior que a própria conversa. A sobremesa se prolonga sem ser planejada. Ninguém olha o relógio porque, embora o tempo continue avançando, o relógio perdeu seu poder e encanto sobre nós. Nada disso serve para algo, e no entanto nessa inutilidade se revela uma verdade incomensurável: a vida pode se sustentar sem outra justificação ulterior que a própria vida.A festa resulta incômoda para uma cultura orientada ao rendimento. Parece tempo perdido, energia desperdiçada, recursos mal empregados. E, no entanto, é precisamente nessa aparente inutilidade que reside sua verdade. A festa devolve ao tempo sua densidade, à comunidade sua forma e ao homem a experiência de que a vida não se reduz a produzir nem a sobreviver.
Outras vezes a festa acontece quando a noite cai. O calor cede e a escuridão nos reúne. Algumas luzes mínimas —uma lâmpada, algumas velas— bastam para criar um mundo. Há vinho e cerveja compartilhados, vozes que se misturam, música que aparece e se apaga, alternada com silêncios que não incomodam. Alguém ri com estrépito; outro escuta sem pressa. A noite não é aproveitada: é vivida. O tempo já não corre. Não há finalidade, só gratuidade. A festa noturna se basta em seu presente.Nessas cenas convergem intuições que G. K. Chesterton e Roger Scruton souberam formular em registros distintos. Chesterton teria reconhecido nessa mesa ao ar livre e nessa noite compartilhada a alegria do ordinário: a maravilha que não precisa de explicação. Scruton teria visto a suspensão do uso, a demora e a beleza que só existe enquanto não é consumida. Ambos coincidem no essencial: quando tudo deve servir para algo mais, nada pode ser verdadeiramente celebrado.
IV. Epílogo: a resistência do inútil
Defender o descanso, o ócio e a festa não é uma forma de evasão nem uma nostalgia romântica. É, como compreendeu com lucidez Josef Pieper, uma forma silenciosa mas decisiva de resistência cultural. Ali onde uma civilização exige resultados, otimização e rendimento mesmo do tempo livre, deter-se, demorar-se e celebrar se convertem em gestos contraculturais, não porque se oponham frontalmente ao mundo, mas porque se negam a aceitar sua redução ao produtivo.
Pieper viu com clareza que a crise moderna não consiste simplesmente no excesso de trabalho, mas na perda daquilo que o transcende. Quando o ócio desaparece, o trabalho deixa de ser meio e se torna fim; quando todo o tempo se ordena à produção, a vida se empobrece mesmo ali onde parece prosperar. Defender o inútil —o descanso que não serve, o ócio que não rende, a festa que não produz— é, nesse sentido, defender o limite sem o qual o homem já não pode habitar humanamente o mundo.
Essa resistência não consiste em negar a realidade, mas em afirmá-la de outro modo. Não foge do mundo: recusa-se a tratá-lo unicamente como material disponível. Diante de uma cultura que transforma o tempo e o homem em recursos, o descanso interrompe a lógica do uso, o ócio restitui uma relação não instrumental com o real e a festa celebra o ser como digno de amor, mesmo quando não haja razões funcionais para fazê-lo.
Num mundo exausto, aprender a descansar, a perder tempo e a celebrar sem motivo funcional não é um luxo reservado a épocas de abundância: é uma necessidade espiritual. Como lembrou Pieper, só ali onde o homem é capaz de deter-se e afirmar gratuitamente o mundo pode conservar-se algo essencial: a possibilidade mesma da verdade, da alegria e do sentido.
Defender o inútil hoje é, em última análise, defender aquilo que faz com que a vida valha a pena ser vivida.
©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: Verano, vacaciones y la utilidad de lo inútil



