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Esculturas funcionais

“Calor, água e muita conversa para a madeira fazer a curva perfeita”

Entrevista com o artista plástico Artur Moreira

Móvel da coleção 2009 ainda não lançada oficialmente | Fotos: b2 Conteúdo/Divulgação
Móvel da coleção 2009 ainda não lançada oficialmente (Foto: Fotos: b2 Conteúdo/Divulgação)
Rupture: primeiro exemplar levou quatro meses para ficar pronto |

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Rupture: primeiro exemplar levou quatro meses para ficar pronto

Peça inspirada no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba |

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Peça inspirada no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba

Artur Moreira: longas horas de trabalho para obter formas curvilíneas |

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Artur Moreira: longas horas de trabalho para obter formas curvilíneas

Madeira, água e calor. Esses são os instrumentos utilizados por Artur Moreira para compor o seu trabalho, que ele define como "esculturas funcionais". Nascido em Minas Gerais e autodidata na arte de transformar pedaços de madeira em peças belas e repletas de utilidade, Moreira decidiu morar fora do Brasil há 12 anos. "A arquitetura européia sempre me encantou desde criança e foi isso que me trouxe para o exterior. Fui para a Inglaterra, me apaixonei, e segui para os Estados Unidos atrás de oportunidades para colocar meus planos em prática", conta ele que hoje reside em Nova Iorque. O artista mineiro ainda mantém a fábrica de móveis tradicionais em Nova Jersey onde tudo teve início, há dez anos. O lado artístico da profissão começou a ser explorado em 2007. Suas peças já foram expostas em Las Vegas, Aspen e em Nova Iorque na Semana de Moda e na ArtExpo, considerada a maior feira de artes plásticas do mundo. Também já teve peças arrematadas em leilões como o ARTrageous, que tinha obras de Yoko Ono, entre outras, e o Sunflowers After Hours, promovido pela atriz Susan Sarandon. Artur Moreira prefere não falar em valores, mas algumas de suas peças estão estimadas em até US$ 50 mil. Alguns móveis estão à venda, mas Moreira também trabalha sob encomenda pelo seu site - www.arturmoreira.com.

Em entrevista à Gazeta do Povo, ele fala sobre seu trabalho e a sua relação com o Brasil. Confira os principais trechos:

Gazeta do Povo – Como surgiu a idéia de fazer os móveis artísticos?

Artur Moreira – Trabalhava com móveis tradicionais, mas nunca me conformei com o limite imposto pelo "tradicional". Um dia resolvi libertar esse meu sentimento e comecei a produzir o que aqui nos Estados Unidos chamam de "esculturas funcionais".

Qual é a técnica utilizada?

Tentando resumir ao máximo: calor, água e muita conversa para a madeira fazer a curva perfeita, que sempre busco. O processo exige muita paciência. Uma peça como a Rupture, por exemplo, leva 25 dias, não consecutivos, para ser feita. O primeiro exemplar dessa peça levei quatro meses para concluir.

Como se faz as formas curvilíneas?

A técnica é parecida com a da construção de barcos: primeiro aqueço a madeira, que é muito dura e não tem tanta flexibilidade. Já aquecida, apresenta um aspecto emborrachado. Depois, molho a madeira para que volte à dureza inicial. Passados um ou dois dias, a madeira pega curvatura e é aquecida novamente. E por aí vai.

Qual madeira utiliza?

Uso vários tipos de madeira. Gosto do contraste entre a zebrawood e a cerejeira, por exemplo. O que não posso deixar de dizer é que, independentemente do tipo de madeira, trabalho com material de demolição aqui nos Estados Unidos. Procuro a madeira em casas antigas. Apesar da madeira ser meu material de trabalho, preocupo-me com a preservação da natureza.

Como foi a aceitação do seu trabalho no início e como está agora?

Desde o começo a aceitação foi ótima. Os principais comentários que ouço são de que as curvas parecem dar vida à madeira. Gosto disso e acredito que dão vida à madeira. O fato de ter vendido algumas peças a pessoas conhecidas ajuda bastante. Jay-Z (rapper), Richard Jefferson (jogador da NBA) e o McGreevey (ex-governador de Nova Jersey) possuem peças minhas. Não existe propaganda ou selo de qualidade melhores do que isso.

Como é a receptividade do Brasil com o seu trabalho e qual a relação que mantém com o país?

Fiquei surpreso com a aceitação. Imaginava que isso fosse possível, mas nunca nessa escala. Hoje estou recebendo algumas encomendas do Brasil através do meu site. A procura está tão boa que já penso em arrumar algum representante por aí. Brinco que os Estados Unidos são o meu escritório e o Brasil a minha casa. Está chegando a hora de levar meus móveis para casa.

Segue alguma escola ou tendência? De onde vem a inspiração para a criação das peças?

Não, nenhuma escola. Gosto muito de Niemeyer, Picasso e Dali. Pensando neles, crio minhas curvas. As curvas das montanhas de Minas Gerais, onde nasci, também me inspiram sempre, mas cada peça tem uma história. Uma das minhas preferidas é um relógio, inspirado no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. O prédio é fantástico e o arquiteto um homem genial.

Como surgiu a idéia de homenagear Niemeyer e por que a escolha pelo museu?

Apesar de ser mineiro, tenho um carinho especial pelo Paraná. Gosto de Curitiba, acho a cidade bonita e tenho bons amigos na região, por isso a escolha pelo Museu. Adoro Niemeyer. Admiro esse homem. Um dia chegarei perto das curvas perfeitas do mestre. Quero doar uma peça ao Museu. Se tiver a oportunidade e a honra de ser aceito, o farei sem pensar. Essa foi a razão de dar seu nome a um relógio.

São peças exclusivas e únicas?

Apesar de algumas terem o mesmo desenho, considero todas exclusivas e únicas. Trabalho artesanalmente, uma a uma. Além disso, a madeira é sempre diferente e os veios dela acabam por garantir essa exclusividade.

Quanto chega a custar uma peça?

Acho essa pergunta muito complicada. Para mim é como se perguntasse: "Quanto vale o seu melhor amigo?". Sei que já vendi muitas peças e que vou vender outras tantas, mas quando estou trabalhando em uma delas, é como se fosse a primeira. Existe todo um carinho, uma relação afetiva. Não gosto de pensar em valores. Tanto é verdade que sempre faço questão de saber para quem a peça está sendo vendida. Gosto de ter a sensação de saber onde ela está e me sentir mais próximo dessa maneira.

Como avalia o ano que passou?

2008, para mim, entra para a história. Pela primeira vez nos 30 anos da ArtExpo/NY móveis foram considerados obras de arte, como os quadros e esculturas, que tradicionalmente participam da feira. Coube a mim a honra de ser o primeiro a participar com móveis na maior feira de artes plásticas do mundo. Para 2009 espero um ano ainda melhor, não só na área das artes.

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