
No mundo das comparações, pode-se dizer que o arquiteto e designer Sérgio Rodrigues é uma espécie de Pelé do design de móveis brasileiro. Nome reconhecido e admirado internacionalmente, Rodrigues foi o único brasileiro a vencer a Bienal do Móvel de Cantu, na Itália. Até hoje o prêmio conquistado em 1961 figura na galeria dos mais importantes do design nacional. Seus móveis já rodaram pela casa de personagens célebres como a Rainha Elizabeth e o ex-presidente norte-americano John Kennedy.
No início deste mês, o designer esteve em Curitiba para a inauguração de um showroom com suas peças na loja Decormade, no Batel. Esbanjando simpatia, o senhor de 81 anos e um considerável bigode estilo mexicano que virou uma marca registrada conversou com a Gazeta do Povo sobre a produção brasileira de móveis e a influência de seu design.
Por Curitiba, o arquiteto carioca diz guardar um grande carinho. Afinal, foi na capital paranaense que ele começou uma trajetória de sucesso de quase 60 anos.
Embora sua obra tenha espalhado uma influência mundo afora, a maior herança de Rodrigues é a brasilidade, que sempre esteve presente intrinsicamente em sua produção. Mas não lhe pergunte de que forma. Nem mesmo o próprio designer consegue definir o que torna sua obra tão tupiniquim. "É uma coisa de espírito. Você percebe que tem alguma coisa de Brasil, mas não sabe exatamente o que é", diz.
Dono de um jeito único de criar, Rodrigues sempre andou às margens das tendências e modismos. Refletir o que vem de fora? O profissional nunca ligou para isso. "Arquitetos, designers e artistas em geral são criadores. Criadores criam a tendência. Aquele que depende da tendência não é criador, não é artista, não é designer. A tendência serve única e exclusivamente para os lojistas e produtores".
Globalização
Essa atitude reacionária lhe rendeu um dos maiores prêmios do design nacional. Em 1961, a Poltrona Mole sua criação mais conhecida conquistou a 4ª Bienal do Móvel, em Cantu, na Itália. "Fui perguntar porque tinha ganho o prêmio. Eram 400 concorrentes de 35 países: Japão, Estados Unidos e Dinamarca, por exemplo. E a Poltrona Mole era uma cadeira com quatro pernas de madeira e uma almofada. A resposta deles foi que essa era a primeira peça que não dependia de tendência nenhuma. Não dependia de globalização."
Para Rodrigues, ao mesmo tempo em que a globalização trouxe suas facilidades, destruiu características importantes do design de cada região. "Antigamente você olhava para um carro alemão e sabia que aquilo era um carro alemão. Agora você olha para um carro e não sabe onde foi desenhado. É tudo muito uniformizado", diz. "A globalização tira as características particulares regionais."
Apesar disso, Rodrigues não tem visão pessimista da produção do design brasileiro. Pelo contrário. "Ele está indo muito bem", diz sem hesitar. "Tem muita gente fazendo coisas com a cara do Brasil. Quando digo cara do Brasil não quer dizer que tem de ter palha ou madeira. Pega-se o espírito cultural do Brasil. Existem diversas manifestações artísticas. Você vê um boneco de barro de Mestre Vitalino (famoso artesão nordestino), aquilo ali é Brasil. Mas de repente no Vale do Jequitinhonha há outras manifestações completamente diferentes que também são Brasil."
Início curitibano
O showroom inaugurado na loja Decormade é o primeiro a revender em Curitiba uma ampla linha de móveis criados por Sérgio Rodrigues. Apesar disso, o início de sua carreira, ainda como arquiteto, teve a cidade como palco principal.
No começo da década de 1950, em pleno auge do modernismo, Rodrigues foi convidado a desenvolver parte do projeto do Centro Cívico. "A mim coube fazer o Palácio das Secretarias. Queria alguma coisa diferente. Quando fui contratado estava saindo da faculdade de arquitetura", conta.
O inusitado foi alcançado. "O edifício das secretarias foi considerado na época o mais alto do mundo em concreto armado (que têm uma estrutura metálica de suporte por dentro)", se orgulha.
Ainda na década de 1950 foi que entrou de vez no ramo do design, também na capital paranaense. Aqui abriu uma loja de móveis que vendia peças de outros profissionais. "Essa loja foi, durante seis meses, um sucesso. Mas um sucesso no sentido de visitas", diz. Nas vendas o sucesso não foi o mesmo. A loja comercializou apenas duas unidades durante todo o período. "Espero que agora, com esse showroom, eu venda mais", brinca o artista. Será que resta alguma dúvida quanto a isso?




