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Diálogo e ciência podem transformar atitudes sobre sexualidade e drogas no ambiente escolar.

Escola e protagonismo juvenil: Atuando com a prevenção na adolescência

Imagem: Unsplash (Foto: )

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A adolescência é um dos períodos mais complexos do desenvolvimento humano. Trata-se de uma fase marcada por transformações biológicas, emocionais e sociais profundas, nas quais os jovens constroem identidade, autonomia e formas de se relacionar com o mundo. Nesse contexto, temas como sexualidade, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e uso de substâncias psicoativas não são periféricos, e sim centrais para a formação integral dos estudantes.

Apesar disso, ainda existe um descompasso entre a realidade vivida pelos adolescentes e o espaço que esses temas ocupam na escola. Muitas vezes, questões relacionadas à sexualidade e à saúde são tratadas de forma pontual, superficial ou até evitadas, seja por tabu, insegurança institucional ou receio de conflitos com a comunidade. O resultado desse silêncio é preocupante, pois temos jovens expostos à desinformação, vulneráveis a comportamentos de risco e com pouca autonomia para tomar decisões conscientes.

Dados de organismos internacionais, como a UNESCO, indicam que programas estruturados de educação sexual podem aumentar significativamente o nível de conhecimento dos adolescentes e contribuir para mudanças concretas de comportamento, como maior uso de preservativos e redução de riscos associados à saúde sexual. Ainda assim, a implementação dessas práticas de forma consistente no ambiente escolar continua sendo um desafio.

Nesse cenário, é fundamental compreender que a escola não é apenas um espaço de transmissão de conteúdos, mas um ambiente estratégico de formação humana. Quando assume seu papel como promotora de saúde integral, ela amplia sua função social e passa a atuar diretamente na construção de sujeitos críticos, informados e responsáveis por suas escolhas.

Um dos caminhos mais promissores para essa atuação está no protagonismo juvenil. Diferentemente de modelos tradicionais, centrados exclusivamente no professor, abordagens que envolvem os próprios estudantes como agentes ativos do processo educativo têm demonstrado resultados expressivos. A chamada educação entre pares que consiste em jovens orientando outros jovens, favorece identificação, confiança e abertura para o diálogo, elementos essenciais quando se trata de temas sensíveis.

Experiências recentes no contexto escolar brasileiro mostram que, quando bem estruturadas, essas metodologias são capazes de gerar impactos relevantes. Em projetos voltados à educação em saúde, por exemplo, observa-se aumento significativo no nível de conhecimento sobre ISTs, maior intenção de uso de preservativos e desenvolvimento de competências socioemocionais, como empatia, liderança e comunicação.

Dentro dessa perspectiva que se insere o Projeto SESI Amigo e SESI Amiga, desenvolvido na unidade de Guarapuava PR, como uma iniciativa voltada à promoção da saúde entre adolescentes. A proposta parte do protagonismo juvenil, capacitando estudantes para atuarem como mediadores de informação e agentes de transformação dentro da própria comunidade escolar. Na prática, o projeto articula diferentes estratégias pedagógicas, como rodas de conversa, oficinas, atividades interativas e intervenções em outras escolas. Os temas abordados incluem educação sexual, prevenção de ISTs, métodos contraceptivos e discussão sobre o uso de substâncias psicoativas, sempre com linguagem acessível e fundamentação científica.

Mais do que transmitir conteúdo, a iniciativa busca criar espaços de escuta e diálogo. Um exemplo disso é o uso de perguntas anônimas durante as atividades, estratégia que permite aos estudantes expressarem dúvidas sem constrangimento. Outro aspecto relevante é a mudança de atitude. Quando o conhecimento é construído de forma participativa e contextualizada, ele tende a se traduzir em comportamentos mais conscientes, como maior intenção de uso de preservativos e reflexão crítica sobre situações de risco. Isso reforça a ideia de que educação em saúde não se resume à informação, mas envolve formação de valores e tomada de decisão.

Ainda assim, é importante reconhecer que projetos escolares, por si só, não resolvem todas as vulnerabilidades da adolescência. A efetividade dessas ações depende da continuidade, da articulação com as famílias e da integração com políticas públicas e serviços de saúde. A escola é parte fundamental desse processo, mas não atua isoladamente. Mesmo com essas limitações, iniciativas como o Projeto SESI Amigo e SESI Amiga evidenciam caminhos possíveis para uma educação mais conectada com a realidade dos jovens. Ao valorizar o protagonismo juvenil e o diálogo, a escola deixa de ser apenas um espaço de ensino e passa a se consolidar como um ambiente de cuidado, escuta e formação cidadã.

Nesse sentido, práticas educativas que integram conhecimento científico, diálogo e participação ativa dos estudantes apontam para um modelo mais eficaz e humanizado de educação. Mais do que prevenir riscos, essas ações contribuem para a construção de autonomia, senso crítico e responsabilidade social. Em um tempo marcado pelo excesso de informação e também pela desinformação, oferecer conhecimento confiável, acessível e contextualizado é uma responsabilidade coletiva. Falar sobre sexualidade, prevenção e saúde não estimula comportamentos de risco, ao contrário, reduz vulnerabilidades e fortalece a capacidade de escolha. Silenciar, por outro lado, é o que mais expõe.

Promover saúde na escola é, portanto, investir em futuro. É reconhecer que educar vai além do conteúdo. É formar indivíduos capazes de compreender a si mesmos, respeitar o outro e tomar decisões conscientes em uma sociedade cada vez mais complexa.

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