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Quando a Educação transforma histórias em protagonismo

Literatura, HQs e Criatividade

Imagens: Acervo pessoal das autoras. (Foto: Colégio Sesi - Guarapuava)

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Em um cenário educacional marcado por desafios como a baixa proficiência leitora, a dificuldade de engajamento dos estudantes e a necessidade de formação crítica, torna-se urgente repensar práticas pedagógicas que formem sujeitos capazes de compreender o mundo, questioná-lo e transformá-lo. 

A urgência dessa mudança se evidencia em dados recentes sobre a proficiência leitora no Brasil. Dados do Relatório Brasil do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e de outras avaliações educacionais têm apontado, de forma recorrente, que muitos jovens brasileiros registram média de proficiência em leitura baixa comparada com outros países. Concluem a educação básica com dificuldades de interpretação, argumentação e leitura crítica, competências essenciais para a participação ativa na sociedade. Apenas 50% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível mínimo ou acima de letramento em leitura esperado até o final do ensino médio, em contraste com 77,4% dos estudantes dos países da OCDE.

Estudos recentes complementam a dimensão desse problema, o hábito de leitura no Brasil está em queda, com 53% da população considerada não leitora e apenas 47% dos brasileiros leram ao menos um livro nos três meses anteriores, número inferior ao registrado em 2007, quando os leitores representavam 55% (Instituto Pró-Livro/Retratos da Leitura).

O letramento em leitura é definido como a capacidade de compreender, avaliar, refletir sobre e interagir com textos, com o propósito de alcançar um objetivo, desenvolver conhecimento e potencialidades e participar da sociedade. No entanto, para muitos estudantes brasileiros, a leitura não está presente de forma significativa em sua rotina.

Diante disso, é preciso ampliar o olhar sobre o que forma um leitor. As histórias em quadrinhos (HQs) se destacam como uma potente ferramenta nesse processo. Elas articulam texto e imagem, tornando narrativas complexas mais dinâmicas e acessíveis, favorecendo múltiplas camadas de interpretação. São histórias que possuem os fundamentos básicos das narrativas como enredo, personagem, tempo, lugar e desfecho. Mais do que entretenimento, consolidam-se como um gênero literário capaz de estimular o desenvolvimento de competências cognitivas complexas, como síntese, inferência e análise crítica, ao mesmo tempo em que dialogam diretamente com a cultura juvenil. Quando os estudantes não apenas leem, mas também criam HQs, eles mobilizam habilidades de pesquisa, seleção de informações e textualização do conhecimento em uma linguagem autoral, fortalecendo o protagonismo e a autonomia.

É nesse contexto que se insere a prática pedagógica do Almanaque em Histórias em Quadrinhos, desenvolvida com estudantes da educação básica. O projeto partiu de uma reflexão sobre o apagamento histórico de mulheres negras que desempenharam papéis fundamentais em áreas como ciência, política, música e ativismo social, mas que ainda são pouco conhecidas no ambiente escolar. Utilizando a linguagem dos quadrinhos, os estudantes tornaram-se autores e pesquisadores: investigaram essas trajetórias e as reconfiguraram em narrativas visuais, retratando essas mulheres como personagens centrais, muitas vezes com aspectos de super-heroínas, forjadas na resistência e na inteligência.

Ao produzir o almanaque, as estudantes não apenas superaram a condição de meros receptores de informação, mas também se engajaram ativamente na construção de um conhecimento mais equitativo. A prática evidencia como a articulação entre literatura, pesquisa e produção criativa permite que temas complexos, como racismo estrutural e desigualdade de gênero, sejam abordados de forma acessível e sensível.

Quando o estudante cria, ele se envolve; quando interpreta, ele compreende; quando narra, ele se reconhece como parte da história. A criatividade deixa de ser um elemento secundário e passa a ocupar lugar central na educação. Ela se torna uma ferramenta de inclusão, de expressão e de transformação social. Ao permitir que diferentes vozes sejam representadas, a escola cumpre um de seus papéis mais importantes: garantir que todos tenham a oportunidade de se ver, se reconhecer e se posicionar no mundo. 

Em tempos de excesso de informação e fragilidade do pensamento crítico, investir em práticas que conciliem leitura, criação e reflexão é mais do que uma estratégia pedagógica: é um compromisso com a formação integral dos estudantes. Afinal, educar é, também, possibilitar que cada sujeito se torne autor de sua própria história e agente de transformação na sociedade em que vive.

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