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Inclusão na prática

O cotidiano que virou ciência: como a EJA facilitou o acesso a direitos básicos

Foto do estudante na bancada de apresentação na Feira de Iniciação Científica do Sesi.
(Foto: Imagem enviada pela equipe pedagógica.)

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Aprender de verdade, ao contrário do que muitos pensam, não se trata apenas de memorizar conteúdo, mas sim de desenvolver a capacidade de construir o conhecimento a partir da percepção de como o ensino dialoga com a vida por meio da experiência, compreendendo que o cotidiano também é espaço de aprendizagem. Quando o ensino se aproxima dos desafios do cotidiano do estudante, transformando situações do dia a dia em oportunidades de investigação, torna-se capaz de promover mudanças reais.

No Sesi, essa concepção permeia os diferentes níveis de ensino. Na infância, a experimentação, a robótica e o contato com a ciência mostram que aprender pode ser uma aventura repleta de descobertas. Já na Educação de Jovens e Adultos (EJA), esse mesmo compromisso com o protagonismo se reinventa para dialogar com quem já carrega a bagagem e as urgências do mundo do trabalho. A trajetória na EJA exige disciplina, dedicação e muitas vezes pode ser solitária. É neste cenário que a jornada de ensino ganha um respiro: o "Momento EJA".

Aprender vale a pena em todas as etapas da vida

Periodicamente, a unidade do Sesi de Marechal Cândido Rondon reúne todas as turmas da EJA em encontros marcados por dinâmicas integradoras e palestras com temas transversais. O "Momento EJA" é um espaço pensado para romper o isolamento da rotina exaustiva do trabalhador que estuda à noite, permitindo a troca de vivências e o surgimento de debates críticos. Ao estimular que esses estudantes investiguem seus próprios desafios e participem ativamente de mostras e eventos científicos — ambientes historicamente distantes da realidade da EJA —, a escola valida a trajetória do trabalhador como solo fértil para a produção de conhecimento relevante.

Foi a partir da escuta ativa dos desafios cotidianos dos alunos da EJA que surgiu o projeto "A Cidadania na Palma da Mão". Durante os encontros, veio à tona uma barreira compartilhada por muitos alunos que cumprem jornadas extensas de trabalho e estudo: a dificuldade de manter documentos civis atualizados devido à incompatibilidade de horários com os órgãos públicos presenciais.

À primeira vista, a digitalização de documentos e acessibilidade online do portal Gov.br parecem a solução perfeita para este problema. No entanto, a pesquisa diagnóstica

aplicada pelos estudantes da EJA, que teve como público-alvo os alunos do SENAI, revelou um paradoxo silencioso: embora mais de 90% dos alunos têm acesso a internet através de smartphones, um terço do total nunca havia usado o portal Gov.br para emissão de documentos e 80% sentiam insegurança e dificuldade para navegar pelos sistemas governamentais. A constatação foi chocante, porque demonstrou que ter um aparelho em mãos e estar online não era garantia de exercício pleno da cidadania.

A turma do EJA foi além da teoria e respondeu na prática: desenvolveu um guia acessível com códigos QR que direcionavam diretamente aos serviços oficiais corretos, sem passar por dezenas de páginas de busca e prevenindo golpes virtuais. O próximo passo foi transformar o aprendizado em ação com a iniciativa "Pit Stop": Munidos do guia, os alunos da EJA assumiram o papel de agentes da cidadania, disseminando a informação pelos espaços compartilhados do SESI, SENAI e IEL e orientando os colegas sobre como utilizar os serviços de emissão de documentos do Gov.br através dos links rápidos.

E os resultados?

Como resultado 94,3% dos participantes relataram que o guia lhes deu mais autonomia para resolver pendências documentais.

O impacto social do projeto “A cidadania na palma da mão” ultrapassou as paredes da unidade e ganhou o devido reconhecimento acadêmico: foi o primeiro colocado na categoria EJA na Feira de Iniciação Científica do Sesi (FICSesi) 2026, realizada de 13 a 14/08 em Londrina, Paraná. A premiação reitera não apenas o rigor e a relevância social da pesquisa, mas também o protagonismo dos alunos que, na idade adulta, buscaram resolver uma dor coletiva, evidenciando que a ciência e a inovação também residem na vivência do trabalhador.

A experiência da unidade de Marechal Cândido Rondon evidencia o poder transformador da educação, e deixa claro que inovar não se trata de buscar fórmulas complexas, mas de resolver problemas reais. Quando o ensino se mescla à vivência do estudante e se converte numa ferramenta de transfigurar a realidade, a escola cumpre uma importante função social: ampliar possibilidades por meio do conhecimento e colocar a cidadania, na prática, ao alcance de todos.

Autoras: Daiane A. L. Weissheimer – Orientadora Pedagógica, Jhessica L. Bald – Professora de Ciências da Natureza, Karine F. Reschke - Professora de Ciências Humanas, Valdete Schwantes - Professora de Linguagens, Andreia Blum – Professora de Matemática e Caroline dos S. H. Kotters – Assistente Pedagógica

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