Monsenhor Luiz de Gonzaga Gonçalves já tinha quase duas décadas de sacerdócio quando soube, em Jaboticabal (SP), que a missa passaria a ser celebrada em português, e não mais em latim. "Foi um susto. Houve certo receio entre os padres idosos; mas os mais jovens, e especialmente o povo, estavam entusiasmados", recorda ele, hoje reitor da Igreja da Ordem, em Curitiba. "As alterações no rito, em 1969, foram o resultado mais evidente do Concílio Vaticano II", diz o cardeal Serafim Fernandes de Araújo, de Belo Horizonte.
A reforma litúrgica foi um dos pedidos dos padres conciliares no primeiro documento aprovado pelo concílio, em 1963, mas seus antecedentes remontam ao começo do século 20, explica o professor de Liturgia Sérgio Ferreira de Almeida, da Pontifícia Universidade Católica (PUCPR). "Até então, o padre falava e o coroinha respondia. Em 1909, o monge belga Lambert Beauduin começou a se perguntar se o povo se beneficiava verdadeiramente da missa se não entendia a língua", conta.A
O missal de 1969 representava uma ruptura nunca vista antes na Igreja, como escreve o então cardeal Ratzinger (hoje Papa Bento XVI) em sua autobiografia: "o prédio antigo foi demolido e outro construído em seu lugar." O núcleo da missa foi mantido, mas várias orações foram suprimidas ou simplificadas.
A grande modificação foi a permissão do uso das línguas de cada país o que não era exatamente novidade: católicos do Oriente, como os ucranianos, celebram em seu idioma desde o primeiro milênio. No Ocidente, a reforma foi além do que o concílio pedia: "Seja conservada a língua latina nos ritos latinos", solicitaram os bispos, acrescentando que se desse mais lugar ao vernáculo em alguns pontos da missa.
Outra mudança foi na orientação do sacerdote, que antes celebrava "versus Deum" (voltado para o sacrário) e agora, na maioria das vezes, celebra "versus populum" (de frente para o povo), embora o missal deixe ao padre a escolha. No mês passado, o cardeal Francis Arinze, prefeito da Congregação para o Culto Divino, alertava para uma tentação: o padre, de frente para o povo, pode querer se comportar como showman, mas Almeida acha que as "showmissas" estão com os dias contados.
Entre as vantagens do novo rito, o professor de Liturgia menciona o aumento de leituras bíblicas, que aos domingos passaram para três. Mas a reforma escondia perigos: "Alguns, por conta própria e não em nome do concílio, mas dele se servindo, quiseram fazer reformas pessoais", diz dom Jaime Coelho, arcebispo emérito de Maringá.
João Paulo II se esforçou, nos últimos anos de seu pontificado, em lutar contra os abusos. "Os abusos contra a Eucaristia são especialmente perigosos para a fé porque banalizam o sagrado", argumenta Almeida. Em "O Espírito da Liturgia", Ratzinger compara as missas "faça-você-mesmo" ao episódio bíblico em que os hebreus fizeram um bezerro de ouro, após a saída do Egito.
Almeida ressalta a importância dos símbolos no combate à banalização, como o incenso, pouco usado nas paróquias, e a cruz à frente das procissões: "ela mostra ao povo que é Cristo quem vai na frente" Para o teólogo Mário Betiato, professor da PUCPR, o desaparecimento do canto gregoriano levou à perda do sentido de mistério ironicamente, o Vaticano II pedia justamente destaque a essas expressões musicais da Igreja.



