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Insetos

A praga dos percevejos

Apesar de não causar doenças, infestação do inseto provoca alerta de autoridades dos EUA

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Nova York - Não se apresse em achar que o percevejo comum não passa de um sugador de sangue pestilento de seis pernas. É possível olhar para ele, em vez disso, como Ci­­mex lectularius, o artrópode internacional do mistério.

Em comparação com outros insetos que picam o homem, ou mesmo que apenas perambulam pela comida que comemos, beliscam nossas plantações ou mordem nossos animais de criação, muito pouco se sabe sobre essa criatura cujo nome latino significa – vai entender – "besouro de cama". Apenas um punhado de entomologistas especializados o estuda e, até recentemente, ele não era prioridade na agenda de pesquisa por não transmitir doenças. A maioria das bolsas de estudo nos EUA é financiada pela indústria de pesticidas e pretende responder a apenas uma pergunta: como exterminá-lo?

Mas agora isso pode mudar.

Neste mês, a Agência de Pro­­teção Ambiental e os Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA emitiram uma declaração conjunta sobre o controle de percevejos. No entanto, não se tratou de uma declaração de guerra, nem de um plano de ação. Foi o reconhecimento de que o problema é grande, um lembrete de que as agências federais, na maior parte do tempo, se esmeram em conselhos e mais conselhos: tente uma série de providências, como passar aspirador, vedar fendas, usar calor e produtos químicos para matar os bichinhos.

Além disso, o comunicado menciona, por duas vezes, que a pesquisa sobre percevejos "tem sido muito limitada nas últimas décadas."

Pergunte a qualquer especialista por que os percevejos desapareceram há 40 anos e por que voltaram com força total na década de 1990, e mesmo por que não espalham doenças, e você ouvirá como resposta: "Boa pergunta".

"A primeira vez que vi um que não fosse um exemplar de 1957 sendo examinado numa lâmina de microscópio foi em 2001", conta Dini M. Miller, uma especialista em baratas da universidade Vir­­ginia Tech que incorporou os percevejos a seu repertório de pesquisas.

Os bichinhos provavelmente passaram a atacar carne humana no momento em que nossos antepassados se mudaram de árvores para cavernas. São "parasitas de ninho", que se alimentavam de morcegos e pássaros que vivem em cavernas, como as andorinhas, até que o homem se mudou para ali também. O que torna ainda mais intrigante o fato de não serem transmissores de doenças. (As picadas coçam e podem, em casos raros, causar choque anafilático, e po­­eira contendo fe­­zes e os despojos da troca de pele dos bichinhos tem provocado ataques de asma, mas essas são todas reações alérgicas, e não doenças.)

Os morcegos são fonte de raiva, Ebola, SARS e do vírus de Nipah. E outros insetos que picam são portadores de do­­enças – mosquitos, de malária e do vírus do Nilo Oci­­dental; carrapatos, da Doença de Lyme e de babesiose; piolhos, de tifo; pul­­gas, das várias pestes (bu­­bônica etc.); moscas tsé-tsé, da do­­ença do sono; barbeiros, da Doen­­ça de Chagas. E mesmo insetos que não picam, como moscas e baratas, transmitem doenças ao transportarem bactérias nas patas, nas fezes ou no vô­­mito.

Mas os percevejos, embora causem repugnância, são limpos.

Na verdade, é mais certo dizer que ninguém provou que não são, observa Jerome Goddard, um entomólogo da Universidade do Estado do Mississipi.

Mas não por falta de tentativa. Pesquisadores sul-africanos os alimentaram com sangue contaminado pelo vírus da aids, mas o ví­­rus morreu. Os cientistas de­­mons­­traram que os percevejos são capazes de armazenar o vírus da hepatite B por se­­manas, mas, quando picam chimpanzés, a infecção não pega. Pesquisadores brasileiros foram os que chegaram mais perto, ao conseguirem que os bichinhos fizessem a transferência do parasita de Chagas de um camundongo para ratos de laboratório.

Combate

As soluções mais antigas para combate dos percevejos eram ar­­riscadas: pólvora ou gasolina nos colchões, edifícios fumigados com enxofre ou gás de cianeto. (A marca mais conhecida era Zy­­klon B, que mais tarde tornou-se tragicamente famosa em Ausch­­witz.)

Finalmente, em 1950, os percevejos passaram pela primeira vez a ser combatidos com DDT (o primeiro pesticida mo­­derno, que originou o termo dedetização), e depois com ma­­lation, diazinon, lindano, clordano e dichlorovos, à medida que de­­sen­­volviam resistência a cada um desses pro­­dutos.

Hoje, muitos pesticidas não funcionam, e os que funcionam estão proibidos – embora seja uma questão em aberto até que ponto se deve temer mais os percevejos ou esses venenos.

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