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Entrevista

“A questão da Síria faz parte de um xadrez geopolítico muito delicado”

Luiz Felipe Lampreia, diplomata e ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil

Luiz Felipe Lampreia: “Lugar definitivo do Brasil no Conselho de Segurança da ONU é questão de tempo” | Antônio More/Gazeta do Povo
Luiz Felipe Lampreia: “Lugar definitivo do Brasil no Conselho de Segurança da ONU é questão de tempo” (Foto: Antônio More/Gazeta do Povo)

Os problemas internos da Síria, com quase um ano de manifestações contra o ditador Bashar Assad e mais de 5 mil civis mortos, são agravados pela situação geopolítica do país. A análise é de Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2001). Ele explica que os sírios estão envolvidos em um embate ideológico entre sunitas e xiitas que opõe países do Oriente Médio. Lampreia esteve em Curitiba na última terça-feira para ministrar uma aula inaugural aos estudantes da faculdade de Relações Internacionais do Grupo Edu­­cacional Uninter. Diplomata de carreira, o ex-ministro representou o Brasil no Suriname, em Portugal e na Organização Mun­­dial do Comércio (OMC). Ele recebeu com exclusividade a reportagem da Gazeta do Povo para a entrevista em que também enfatizou a importância do papel do Brasil no contexto internacional.

O senhor afirmou em um texto no seu blog que uma das principais alternativas para a Síria seria a Rússia e a China orquestrarem uma trégua para que o conflito pare de vez. Mas existe vontade real por parte desses dois países para isso?

A China não está diretamente tão interessada. A Rússia sim, porque há muito tempo, desde os anos 50, tem uma aliança com a Síria, que é um país que tem um peso geopolítico muito importante na região. Então a Rússia estará disposta a jogar essa carta, como já mostrou isso. O chanceler russo Serguei Lavrov foi recebido com um herói na Síria.

Em que aspectos a situação geopolítica da Síria é importante?

A Síria sempre foi importante no Oriente Médio e, sobretudo hoje, faz parte de um xadrez geopolítico muito delicado porque é um país ligado ao Irã, junto com quem patrocina movimentos terroristas extremamente agressivos, como o Hezbollah e o Hamas. Embora não seja plenamente percebido aqui no Brasil, há hoje um conflito entre os países sunitas, liderados pela Arábia Saudita contra o Irã e seus aliados. Ainda que não seja um país de maioria xiita, a Síria alinhou-se com o Iraque, que é de maioria xiita e com o Irã que é totalmente xiita, contra os sunitas sauditas e todas as monarquias do golfo. É um embate geopolítico muito forte.

Na última semana, o Brasil apoiou uma resolução da ONU que condena a violência na Síria, mas no ano passado a diplomacia brasileira chegou a se abster na votação de uma resolução do Conselho de Segurança sobre a Síria. Como o senhor avalia essa postura?

A nossa postura foi a de tentar junto com a Índia e África do Sul uma função mediadora, para moderar a posição do presidente sírio Bashar Assad, mas isso não resultou em nada. E acho que perceberam que era muito fora da nossa zona interesse. O Brasil não tem peso sobre o governo da Síria, ia gastar o nosso capital diplomático em algo que é inviável.

Como estamos nos saindo na diplomacia internacional após a aproximação com o Irã durante o governo Lula e a tentativa de mediar a negociação de questões nucleares?

Foi realmente um episódio lamentável. Eu creio que a comunidade internacional absorveu esse problema. Mas a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse coisas pesadas e agressivas, que eu nunca vi uma secretária de Estado dizer em relação Brasil. Isso reforçou na cabeça dos americanos a convicção de que o Brasil não é um país totalmente confiável. É claro que o Brasil não está para se pautar pelo interesse dos países ocidentais, faz o que julga que deve fazer. De qualquer modo, ter uma situação negativa com os EUA – que têm um poder imenso – bloqueia uma série de coisas.

Que tipo de bloqueios?

Se não houvesse essa suspeita, os EUA poderiam ter anunciado o apoio ao Brasil para o Conselho de Segurança quando o Obama veio aqui. Ele anunciou [apoio] para a Índia um pouco antes. Por que não para o Brasil? É evidente que o Brasil vai entrar para o Conselho de Segurança algum dia, então já podia ir anunciando logo. Os EUA nos reconhecem como país mais importante da América Latina, mas não têm a mesma postura em termos globais. Eles não veem no Brasil um país que tenha condições de desempenhar um papel construtivo no tabuleiro internacional.

Em dezembro terminou mais um mandato provisório do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. O que o país pode fazer para se manter atuante e conseguir a vaga permanente nessa organização?

Pode fazer o que sempre fez na esfera regional e ter participação nos foros internacionais que discutem questões como direitos humanos e mudanças climáticas. O que bloqueia é que não há um consenso de que deve entrar mais países, que deva haver uma reforma no Conselho. Eu acho que o Brasil é o que tem mais chances, porque tem menos arestas. Se pensar na Índia, por exemplo, é um grande candidato, mas é inimiga mortal do Paquistão, é rival da China. E na América Latina não tem outro país, se não for o Brasil não tem outro.

O governo Dilma está tendo uma postura diplomática diferente do governo Lula?

Eu não creio que ela atribua uma grande importância à política externa, ao contrário de Lula, que se engajou mais. Ela claramente dedica mais tempo e mais atenção a questões internas, questões econômicas de infraestrutura e viaja menos.

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