
Ouça este conteúdo
O governo de Donald Trump tem demonstrado um crescente interesse na América Latina, principalmente em relação à segurança da região, que se tornou um alvo estratégico da China nas últimas décadas. Um dos focos dos EUA é a Tríplice Fronteira, constituída por Paraguai, Argentina e Brasil, onde o país denuncia que há forte atuação de grupos armados como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e terroristas, como o libanês Hezbollah.
Há poucos dias, o governo paraguaio sancionou uma parceria militar estratégica com a Casa Branca, que permite o destacamento de militares americanos no país sul-americano, no chamado Acordo do Estatuto das Forças (Sofa, na sigla em inglês).
Junto a outras iniciativas já aprovadas pela Argentina, como a instalação de uma base americana no país e a autorização para entrada de tropas estrangeiras, a medida atesta que a região que envolve o território brasileiro será uma das prioridades da gestão republicana.
Como já sinalizado pelo governo Trump, um dos objetivos para a Tríplice Fronteira será o combate ao crime organizado, que tem crescido em toda a América Latina. Recentemente, o Brasil foi informado de que a Casa Branca avalia classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como terroristas, algo que tem preocupado a administração de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por abrir portas para novos atritos entre os dois países, após o tarifaço.
O PCC também estabeleceu ao longo dos últimos anos uma presença sólida no Paraguai. No ano passado, o governo de Santiago Peña tomou a decisão de classificar as facções brasileiras como terroristas, após a megaoperação contra traficantes no Rio de Janeiro. A Argentina seguiu pelo mesmo caminho na mesma época.
Principais mudanças esperadas com acordo entre EUA e Paraguai
O acordo posto em vigor entre EUA e Paraguai neste mês pode trazer uma série de mudanças para a região da Tríplice Fronteira.
As mais imediatas, segundo o professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília Ricardo Caichiolo, estão relacionadas a uma maior vigilância e troca de inteligência entre esses países. Segundo ele, o cenário será de maior monitoramento e integração entre as forças locais, e o principal desafio será gerenciar possíveis tensões políticas e a capacidade das redes criminosas de se adaptarem a essa pressão ampliada.
Entre as cláusulas da parceria estão a permissão temporária da presença de militares do Pentágono, civis e empresas americanas no Paraguai, com foco em desenvolver treinamentos, exercícios militares, estudos logísticos e troca de tecnologias, repetindo o modelo de cooperação já visto na Argentina. Todos os estrangeiros envolvidos nas missões terão imunidade semelhante à concedida a diplomatas.
Uma das estratégias que podem avançar com a parceria é a desmobilização de organizações criminosas e grupos terroristas que os EUA afirmam atuarem na região. Um dos argumentos usados por Washington para classificar facções brasileiras como terroristas é a alegada conexão com células do Hezbollah na Tríplice Fronteira.
Ainda durante o primeiro governo de Trump, em 2018, o subsecretário adjunto de Defesa para o Hemisfério Ocidental, Joseph Humire, defendeu perante o Congresso americano que havia evidências de relação entre o PCC e a milícia libanesa e que esses grupos tinham atuação sólida na fronteira e dentro do Brasil.
Se Trump priorizar o avanço das investigações, isso poderá pressionar o governo Lula a tomar medidas mais diretas contra esses grupos que evita classificar como terroristas. No ano passado, o governo americano passou a oferecer uma recompensa de até US$ 10 milhões por informações sobre os mecanismos financeiros do Hezbollah na região fronteiriça.
Reforço dos EUA na Tríplice Fronteira gera isolamento do Brasil na região
Para o Brasil, as mudanças teriam um duplo impacto. "Por um lado, [o acordo] potencializa o combate a ilícitos transfronteiriços; por outro, gera desconforto diplomático e preocupações sobre a soberania nacional devido à presença de uma potência extrarregional em sua vizinhança imediata", avalia o diretor do Ibmec, Ricardo Caichiolo.
Já a professora de Relações Internacionais da ESPM Denilde Holzhacker explica à Gazeta do Povo que um dos impactos mais diretos ao Brasil com o novo acordo firmado entre EUA e Paraguai é o isolamento regional.
Ela avalia que essas parcerias militares firmadas pelo governo americano com aliados regionais, como é o caso da Argentina e do Paraguai, podem trazer implicações práticas para o governo brasileiro, visto que possíveis operações contra o narcotráfico e o terrorismo podem acontecer perto da fronteira e demandar ações internas.
"Apesar de as ações serem no Paraguai, podemos esperar um maior fluxo de pessoas e controle na fronteira do Brasil", cita Holzhacker.
Ela ainda destaca o impacto político da decisão americana em ano de eleição presidencial, que expõe a resistência do governo Lula em aderir às ações de Trump na região, enquanto o pré-candidato de direita Flávio Bolsonaro apoia as medidas e mantém contato direto com a gestão republicana.
"Com isso, podemos esperar um impacto na dinâmica dos debates presidenciais em um tema muito sensível para o governo e muito importante para a opinião pública, um impacto possivelmente eleitoral", avalia.
Além dessas possibilidades, o acordo bilateral pode repercutir diretamente na relação do Brasil com a China. O Paraguai se tornou um importante ator no fluxo de comércio na Tríplice Fronteira tanto para o escoamento da produção brasileira com destino à Ásia quanto para a entrada de produtos chineses no Brasil.
Apesar de o Paraguai não ter afinidades políticas com a China, visto que é um dos poucos países no mundo que reconhece formalmente a independência de Taiwan, o acordo militar sinaliza uma atenção redobrada de Washington no Cone Sul (região que compreende Paraguai, Argentina, Uruguai, Chile e algumas partes do Brasil), visando minorar a influência chinesa.
VEJA TAMBÉM:








