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Encarado a princípio como um movimento restrito a Nova York, onde Zohran Mamdani venceu a eleição para a prefeitura no ano passado, o grupo Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), a ala mais à esquerda do Partido Democrata, está ganhando projeção nacional às vésperas das midterms, as eleições de meio de mandato presidencial nos Estados Unidos que serão realizadas em novembro e renovarão a Câmara dos Deputados e cerca de um terço do Senado.
Em Nova York, as socialistas Claire Valdez e Darializa Avila Chevalier venceram primárias do Partido Democrata para substituir atuais deputados da legenda na eleição de novembro, e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez foi vitoriosa na disputa interna no seu distrito para tentar manter seu cargo nas eleições de novembro.
Porém, outros nomes do DSA também estão ganhando disputas internas dos democratas em outras regiões dos Estados Unidos.
Melat Kiros, de 29 anos, derrotou a atual deputada Diana DeGette e será a candidata do partido na disputa pela cadeira do 1º distrito do Colorado na Câmara federal nas midterms.
O DSA também venceu em junho as primárias para a prefeitura da capital americana, Washington, com a vitória de Janeese Lewis George.
“Em política, quem organiza meia dúzia de quarteirões às vezes vence quem acha que sobrenome ou tradição resolve a eleição”, afirmou a especialista em finanças e tributação Adriana Melo, em entrevista à Gazeta do Povo.
Ela destacou que o DSA deve sair de dois membros no Congresso americano para pelo menos cinco no próximo mandato, contando as prováveis vitórias de Valdez, Chevalier e Kiros e as reeleições de Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, deputada pelo Michigan.
“O raio de ação do grupo já passou de Nova York", diz a analista.
As primárias democratas em Michigan e Wisconsin, marcadas para agosto, serão o próximo teste para o DSA: o progressista Abdul El Sayed disputará a indicação do partido para a corrida ao Senado em Michigan, enquanto Francesca Hong buscará a candidatura democrata ao governo de Wisconsin.
"Bernie Sanders [senador por Vermont] continua como padrinho político direto [do grupo], tendo apoiado publicamente Kiros e El Sayed”, acrescentou Melo.
A ala socialista dos democratas tem hoje mais de 100 mil filiados e cerca de 150 candidatos apoiados neste ciclo. Em seu site, o DSA defende a substituição do capitalismo pelo "socialismo democrático" e apoia propostas como a redução do financiamento das polícias, um sistema público universal de saúde e um amplo pacote de investimentos estatais para combater as mudanças climáticas e reformular a economia, conhecido como Green New Deal.
Bannon afirma que socialistas já são “uma força nacional”
O Partido Republicano começa a ficar de olho nessa tendência, já que o presidente Donald Trump e outros integrantes da legenda governista têm afirmado que os Estados Unidos estão na mira de uma “ameaça comunista”, buscando destacar um contraponto para as midterms.
Em entrevista ao site Politico, o estrategista político Steve Bannon, que foi assessor presidencial no primeiro mandato de Trump (2017-2021), lamentou o fato de que só agora “o establishment acordou” para a força nacional do DSA.
“Não se trata apenas da cidade de Nova York, nem do centro de Manhattan, nem apenas dos imigrantes ou imigrantes ilegais nos distritos periféricos; isso vai se espalhar por todo o país. Sim, claramente, é Denver. É uma das cidades mais progressistas [dos Estados Unidos], mas ainda assim faz parte do Oeste americano. Ainda é o Colorado”, afirmou, fazendo referência à vitória de Kiros nas primárias.
Bannon disse que os socialistas democráticos “são uma força nacional e trabalharam nos bastidores para aperfeiçoar sua estratégia de atuação local e suas operações de contato direto com o eleitor”.
“É tarde demais para [as alas mais ao centro d]os democratas replicarem isso. Eu disse isso a pessoas do Partido Republicano, mas fui ignorado. Disseram que [Mamdani] era apenas um fenômeno passageiro, algo restrito à cidade de Nova York, e que ele nunca ganharia cadeiras no Congresso; a ideia predominante era a de que eles jamais conquistariam cargos federais, mas vimos onde eles conseguiram três”, afirmou, citando as três candidatas que derrotaram atuais deputados democratas nas suas primárias.
A ascensão do DSA também causa incômodo dentro das fileiras mais moderadas dos democratas, que acusaram candidatos da ala socialista de serem financiados por um comitê de ação política (PAC), o American Priorities, que recebe dinheiro de um “megadoador republicano alinhado ao movimento MAGA” – Faça a América Grande Novamente, sigla que designa os apoiadores de Trump.
A referência é ao empresário texano de origem palestina Hussein “Sam” Mahrouq, que, além de doar US$ 625 mil ao American Priorities este ano, também doou US$ 125 mil nas eleições de 2024 ao governador do Texas, Greg Abbott, e ao vice-governador, Dan Patrick, ambos do Partido Republicano.
“O Washington Post publicou recentemente um artigo de opinião assinado por dirigentes do [think tank de centro-esquerda] Third Way com o título direto de que os democratas deveriam combater o DSA. Isso não é alarmismo de fora do partido. É o próprio establishment reconhecendo que perdeu terreno”, disse Melo à Gazeta do Povo.
No artigo mencionado pela especialista, Jon Cowan e Matt Bennett, presidente e vice-presidente executivo da Third Way, respectivamente, afirmaram que as experiências de “gestões da extrema-esquerda” nos Estados Unidos têm sido um fracasso.
“O DSA afirma ser a resposta à indignação legítima com um status quo falido. No entanto, as políticas que ele apoia apenas agravam a situação”, escreveram Cowan e Bennett, que afirmaram que os mandatários do DSA ou apoiados pelo grupo são altamente impopulares, estão sendo substituídos nas urnas ou caminhando em direção ao centro.
“Em Seattle, a prefeita Katie Wilson — uma socialista democrática — está no cargo há apenas seis meses e já recuou de políticas de extrema-esquerda”, argumentaram.






