Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Descoberta Cristã

Arqueólogos decifram inscrições medievais na Sala da Última Ceia em Jerusalém

A Última Ceia" (1495-1498), pintura mural icônica de Leonardo da Vinci.
A Última Ceia" (1495-1498), pintura mural de Leonardo da Vinci. (Foto: Wikimedia Commons )

Ouça este conteúdo

Uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu decifrar, em 2025, dezenas de inscrições antigas nas paredes de um dos locais mais simbólicos do cristianismo em Jerusalém. Os registros, que foram invisíveis a olho nu durante séculos, revelam a presença de peregrinos de diversas partes do mundo medieval, incluindo nobres austríacos, que visitaram o local conhecido como Sala da Última Ceia.

O estudo foi conduzido por especialistas da Academia Austríaca de Ciências (ÖAW) e da Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA). Ao todo, os pesquisadores identificaram cerca de 40 elementos de grafite antigo em arqueologia nas paredes do edifício conhecido como Cenáculo, situado no Monte Sião.

Entre os achados estão inscrições, símbolos religiosos e cinco brasões de famílias nobres europeias. 

VEJA TAMBÉM:

História e fé: como o local da Última Ceia preserva marcas de peregrinos há séculos?

Segundo a tradição cristã, a Sala da Última Ceia é o espaço onde Jesus teria realizado sua última refeição com os apóstolos antes da crucificação. O edifício atual foi construído durante as Cruzadas no século XII, mas o local é venerado por peregrinos desde, pelo menos, o século IV.

Ao longo dos séculos, visitantes deixaram assinaturas, desenhos e mensagens nas paredes. Marcas silenciosas de fé e devoção que hoje ajudam a reconstruir aspectos da história medieval cristã. 

Sala da Última Ceia, onde foi descoberto os inscritos cristãos medievais.Sala da Última Ceia, onde foi descoberto os inscritos cristãos medievais. (Foto: Wikimedia Commons )

Grafites revelaram peregrinos medievais e conexões entre Europa e Oriente Médio

Entre as descobertas mais relevantes está um dos chamados grafites austríacos de Jerusalém: um brasão associado à região da Estíria, na atual Áustria. Os pesquisadores atribuíram o símbolo ao nobre Tristram von Teuffenbach, que participou de uma peregrinação a Jerusalém em 1436.

Ele integrou uma comitiva liderada por Frederick III, então arquiduque da Áustria e futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico. A viagem reuniu cerca de cem nobres que percorreram a Terra Santa visitando locais considerados sagrados. 

Outra descoberta importante é uma inscrição armênia com a expressão “Natal de 1300”. O registro pode ajudar a esclarecer um debate histórico sobre a possível passagem do rei armênio Het'um II of Armenia por Jerusalém após a vitória de seu exército na batalha de Wādī al-Khaznadār, na Síria, em 1299. 

Além dessas marcas, os pesquisadores identificaram inscrições medievais no local sagrado deixadas por visitantes de diferentes regiões. Há registros ligados a peregrinos da Armênia, da Síria, da Sérvia e de territórios que hoje correspondem à Alemanha e à República Tcheca. 

Curiosamente, o maior grupo de grafites foi produzido por cristãos de língua árabe vindos do Oriente Médio. O conjunto desses registros ajuda a ampliar a compreensão sobre a diversidade cultural e geográfica dos peregrinos medievais que viajavam até Jerusalém. 

Tecnologia ajudou a revelar inscrições e ampliar compreensão sobre peregrinos medievais

Muitas das inscrições estavam extremamente desgastadas e eram praticamente invisíveis. Para revelá-las, os pesquisadores recorreram à tecnologia digital para decifrar inscrições, combinando fotografia multiespectral com uma técnica conhecida como Imagem de Transformação de Reflectância (RTI). 

Esse método registra a superfície das paredes com diferentes ângulos de iluminação, permitindo identificar marcas muito sutis. Depois da documentação no local, as imagens foram analisadas em laboratório, onde os registros fotográficos foram combinados digitalmente para tornar as inscrições legíveis. 

Entre os achados mais curiosos está um fragmento de inscrição em árabe que menciona “…ya al-Ḥalabīya”. A forma gramatical indica que o grafite foi deixado por uma peregrina cristã da cidade de Aleppo, na atual Síria – um raro vestígio material de peregrinação feminina na Idade Média. 

Os pesquisadores também identificaram desenhos e símbolos associados à tradição cristã, como representações de objetos ligados à Última Ceia. Um deles mostra um cálice, um prato e um pão redondo com um furo no centro, semelhante ao tradicional pão de Jerusalém. 

De acordo com o historiador Ilya Berkovich, integrante da equipe de pesquisa, o conjunto dessas inscrições oferece um retrato mais amplo da circulação de peregrinos na Jerusalém medieval.

“Quando analisadas em conjunto, as inscrições fornecem uma visão única sobre a origem geográfica dos peregrinos. Essa diversidade era muito maior do que sugeria a perspectiva tradicional da pesquisa, dominada por fontes ocidentais”, afirmou em nota à imprensa. 

Para os pesquisadores, os grafites não são apenas marcas deixadas por viajantes. Eles constituem um valioso patrimônio histórico religioso e um testemunho direto da devoção e das experiências de peregrinos medievais que cruzaram continentes para visitar os locais considerados sagrados da história cristã. 

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Tudo sobre:

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.