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História

Ascenção e queda

Há 90 anos, revolução russa marcou a formação do primeiro estado socialista

A Revolução Russa, um dos maiores acontecimentos do século passado, está completando 90 anos. Em outubro de 1917, os bolcheviques derrubaram o governo provisório instalado meses antes e tomaram o poder. Foi o início do que viria a ser a primeira experiência de um Estado socialista, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

O terreno para a revolução estava preparado desde o século anterior. Jovens idealistas sonhavam com o socialismo e com as idéias do filósofo alemão Karl Marx – de que um governo dos proletários levaria ao comunismo, uma sociedade ideal onde os homens seriam livres, viveriam em comunidade, tudo seria dividido e o Estado tenderia a desaparecer.

Nos três anos que antecederam a revolução, uma série de greves dos trabalhadores tomou conta do Império Russo. Em meio à Primeira Guerra Mundial, a população sofria com a fome. Em fevereiro de 1917, quando o povo tomou as ruas de São Petersburgo, o czar Nicolau II achou por bem abdicar do poder. Seguiu-se então a criação de um governo provisório, bastante desorganizado, que durou nove meses. Liderados por Lenin, em outubro os bolcheviques chegaram ao poder. Houve pouca violência, que viria mesmo, e com muita força, nos anos seguintes.

Entre 1918 e 1922, a Rússia foi palco de uma Guerra Civil que deixou milhares de inocentes mortos. A briga era principalmente entre dois grupos: os "vermelhos", comunistas e revolucionários, e os "brancos", defensores dos czares, burgueses e conservadores. "Havia uma simpatia da população por quem se posicionava contra o antigo regime, que oprimiu a população durante séculos", diz o professor Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos. Além disso, os bolcheviques tinham um discurso novo, revestido de generosidade. Para os camponeses, prometiam a reforma agrária. Para os trabalhadores, a socialização dos meios de produção. Para os demais, a paz.

Com a vitória do Exército Vermelho, o ideal socialista começou a ser colocado em prática. No campo, as terras da Igreja e de outros proprietários começaram a ser ocupadas pelos camponeses. A propriedade privada desapareceu. O mercado também sumiu e o sistema de funcionamento das fábricas mudou completamente. Nesse momento, o uso da violência foi completamente consentido por Lenin. O próprio Trotsky, líder do Comitê Revolucionário Militar, acreditava que a força deveria continuar a ser usada mesmo após a revolução. "Nós não entraremos no reinado do socialismo com luvas brancas e sobre um chão polido", disse.

Fato é que a ascensão dos bolcheviques ao poder deu início a uma das ditaduras mais sangrentas da história. Por que isso ocorreu? "Acredito que a resposta não pode ser simples. Ela envolve múltiplos fatores. Um deles é a própria concepção teórica da ditadura do proletariado, relacionada com as fases da construção da sociedade socialista, e sua interpretação com base nos ensinamentos históricos das revoluções burguesas. Outro fator que me parece importante, foi a luta das diferentes facções pela direção do Partido Bolchevique, envolvendo concepções sobre a direção da construção do sistema, e a maneira brutal como foi conduzida, culminando com a vitória de Stalin e a instalação do chamado stalinismo", diz a professora de Economia Política do Departamento de Economia da FEA/ USP, Lenina Pomeranz.

Quando Lenin morreu, em 1924, Joseph Stalin, então secretário-geral do Partido, tornou-se a figura proeminente da União Soviética. No seu governo, o terror foi adotado como política de Estado. Estima-se que de 3 a 9 milhões de pessoas foram executadas ou morreram de fome enquanto esteve no poder. Stalin colocou em funcionamento o chamado Grande Expurgo – a perseguição a supostos ou reais inimigos do Estado Soviético.

Foi também nesse período que a União Soviética viu um grande avanço de seu parque industrial, o desenvolvimento da ciência e maior acesso à educação. "A Rússia era um país atrasadíssimo que saiu do feudalismo e chegou ao capitalismo passando pelo socialismo. Foi um caminho absolutamente distinto do que fez a Inglaterra, França e EUA, por exemplo. É um caminho que deixaria Marx de cabelo em pé", diz Villa.

Se o socialismo está morto? Para o professor de História Contemporânea da USP Angelo Segrillo, não. "A idéia que o socialismo está morto é errada. A história tem muitos ciclos e as idéias do passado retornam. O liberalismo parecia morto após o Grande Depressão de 1930 e voltou com força total na década de 70, sendo hegemônico nos anos 1990", afirma.

A guerra fria de Putin

Recentemente, o presidente russo Vladimir Putin polemizou ao anunciar a retomada das patrulhas aéreas utilizadas no período da Guerra Fria. Uma demonstração de força num momento em que os Estados Unidos querem instalar um escudo antimísseis no Leste Europeu. Medida a qual Moscou não vê com bons olhos.

A iniciativa norte-americana, na prática, ressuscitou a Guerra Fria, avalia o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná, Dennison de Oliveira. "Inexistem alegações racionais para o que está sendo praticado ou proposto pelo presidente dos EUA, George W. Bush, exceto criar uma nova fonte de tensão que mantenha os gastos com o complexo industrial-militar em níveis aberrantes. É completamente sem propósito essa prática dos EUA, e acabará levando o país à ruína."

Oliveira lembra que nos tempos do comunismo soviético, no auge da Guerra Fria, os EUA gastavam US$ 1 bilhão por semana em armas. Hoje gastam o mesmo valor por dia, diz. "É natural que os russos reajam à altura, aumentando o grau de segurança com seus reconhecimentos aéreos intensivos."

Leonardo Arquimimo, pesquisador da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, argumenta que ainda se explora politicamente valores da Revolução Russa, como o orgulho da pátria-mãe, da Rússia como pária dos Estados Unidos. "Do ponto de vista estratégico, a retomada russa das patrulhas aéreas é patética."

Os vôos estratégicos de bombardeiros foi um tipo de operação militar abandonada em 1992, devido à crise econômica que afetou a região após a queda da União Soviética.

Consumindo o comunismo

Numa loja virtual de produtos "conservadores" dos Estados Unidos, uma camiseta de Che Guevara usando uma boina com um cifrão. Abaixo da foto do líder argentino, o texto: "Esta camiseta chegou a você pelo capitalismo". Ironia, mas é exatamente o que o capitalismo fez. Transformou o comunismo em produto.

Em Curitiba, uma loja de camisetas vende uma peça com o símbolo "CCCP" (URSS, em russo). De acordo com o proprietário, o número de vendas é relativamente pequeno, cerca de apenas 15 por ano, e os compradores não são desavisados de que acharam a combinação de letras bonita. São os engajados. "Geralmente quem vem aqui e compra essa camiseta é porque já veio com aquilo na cabeça. Normalmente são estudantes", diz Almir Pinheiro da Silva, o dono da loja, a Dr. Rock, no Shopping Metropolitan.

Na Avenida Batel, o bar Soviets tem como decoração grandes painéis que relembram pôsters do regime comunista. Os garçons usam uniformes da URSS. A instalação é toda metálica, como se fosse um galpão, para relembrar um ambiente militar.

O lugar ganhou esse tema comunista porque é um "vodca bar", local específico para a venda desse tipo de bebida. Segundo o proprietário, Gustavo Haas, nenhum componente ideológico ou político motivou a criação da casa.

"Fizemos uma série de pesquisas. Conhecemos uma rede inglesa chamada Revolution, que também é um vodca bar. Há muito tempo que o consumo desse tipo de bebida vem crescendo e resolvemos apostar nesse tema", diz. Numa das placas do bar, a frase, em russo: "Beba hoje e trabalhe amanhã". É tudo o que combate um verdadeiro comunista.

Enfrentando os símbolos do passado

Agora mais confiantes sob a proteção da União Européia, vários países do Leste Europeu têm colocado em prática medidas que buscam eliminar os símbolos e as memórias da ocupação soviética. Após a Segunda Guerra Mundial, a URSS ocupou esses países muitas vezes de forma violenta. Estátuas, nomes de rua e a foice e o martelo são símbolos que insultam moradores dessa região.

No último mês de abril, em Tallinn, capital da Estônia, as autoridades retiraram de um parque uma estátua de bronze de um soldado da URSS da Segunda Guerra Mundial. A medida gerou uma onda de protestos da comunidade russa no país, além de um ataque digital que fez o país praticamente parar.

O governo da Polônia mandou mudar nomes de ruas que tinham alguma ligação com o comunismo. Na Romênia, um relatório descreveu todas as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em outros países, negar a ocupação soviética é um crime.

A maioria das estátuas de Lêni e Stálin já foram retiradas há muito tempo. As que estão em questão agora são aquelas relacionadas com a guerra dos soviéticos contra o nazismo. Eles foram fundamentais para a derrota da Alemanha na Segunda Guerra.

Na Hungria, mais de 200 mil pessoas participaram de um abaixo-assinado para promover um referendo que votasse sobre a remoção de um memorial de guerra soviético de uma praça em Budapeste. Apesar do apelo da população, o primeiro-ministro negou-se a aprovar a votação, dizendo que a retirada do memorial provocaria mais custos do que benefícios aos húngaros.

Há dois anos, os representantes dos ex-países comunistas no Parlamento Europeu tentaram banir, sem sucesso, os símbolos como a foice e o martelo, assim como a suástica. O argumento foi o número de mortes imposto pelo regime comunista da URSS.

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