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Imigração

Aumenta o número de africanos na Europa

Usando rotas perigosas, imigrantes ilegais da África fogem da miséria em busca do sonho de prosperidade no continente europeu. Só em 2014, mais de mil africanos foram para Melilla, na Espanha

Africano aguarda em alojamento temporário na Espanha. No dia 18 de março, 500 pessoas cruzaram a fronteira em Melilla | Juan Medina/Reuters
Africano aguarda em alojamento temporário na Espanha. No dia 18 de março, 500 pessoas cruzaram a fronteira em Melilla (Foto: Juan Medina/Reuters)

Foram mais de sete horas agarrando-se ao topo de uma cerca de com arame farpado, com as mãos e os pés ensanguentados, suportando um vento frio que castigava os penhascos da costa africana do Mediterrâneo.

Os 27 imigrantes subsaarianos estavam no limite entre a miséria econômica da África e os sonhos de prosperidade da Europa: de um lado, estava Marrocos; do outro, o enclave espanhol de Melilla.

A sede, a fome e a fadiga finalmente venceram os imigrantes. Um por um, desceram a duras penas as escadas que as autoridades tinham colocado do outro lado da cerca. A polícia os entregou aos marroquinos.

O grupo formava parte de uma onda de africanos que, com a chegada da primavera no Hemisfério Norte, se esforça para chegar a Europa em quantidade cada vez maior, arriscando a vida em busca de um futuro melhor. Usam rotas perigosas e tentam cruzar o Mar Mediterrâneo em embarcações precárias, com destino à ilha italiana de Lampedusa, ou atravessar deserto, selvas e montanhas para escalar a cerca que os separa de Melilla e de outro enclave espanhol no Norte da África: Ceuta.

Não há dados consolidados de imigração para a Espanha no ano de 2013, porém, nos primeiros três meses de 2014, a quantidade de imigrantes que chegaram a Melilla já é superior ao 1 mil do mesmo período do ano passado. Somente em 18 de março, 500 pessoas – cifra sem precedentes – completaram o trajeto. Semanas antes, as autoridades marroquinas haviam impedido a chegada de 700 imigrantes.

Toda a Europa está sentindo a pressão migratória africana. A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que houve um aumento de 300% na quantidade de imigrantes que tentam chegar por mar, via ilha de Lampedusa, neste ano.

A Itália resgatou cerca de 4 mil imigrantes em alto mar nos últimos dias, de acordo com o governo. Neste ano, os italianos salvaram 15 mil africanos e outros 300 mil esperam na Líbia para tentar fazer a perigosa travessia.

Para os imigrantes de Melilla, a maioria dos quais passou os dois últimos anos atravessando o centro e o oeste da África, sua detenção no enclave é tão somente um revés temporário. É possível que em poucas semanas tentem de novo chegar à Europa. Dezenas deles ficam feridos em cada tentativa e frequentemente há mortes, incluindo as de 15 pessoas que se afogaram perto de Ceuta em 6 de fevereiro, quando guardas espanhóis dispararam balas de borracha na sua direção.

A Suprema Corte espanhola proibiu o uso de balas de borracha em tumultos após esse incidente. Isso pode encorajar os imigrantes. "Eles não se sentem tão ameaçados", disse Anke Strauss, da Organização Internacional da Imigração.

Perigos no caminho não intimidam imigrantes

Nas ruas de Nador, há muitos imigrantes com muletas, que ficaram feridos tentando cruzar a fronteira, e outros esperando para tentar fazer a travessia.

O monte Gurugú faz a divisa entre Nador e Melilla. Em suas encostas arborizadas se instalam milhares de imigrantes. Eles vivem em tendas e se preparam para escalar a cerca durante a noite.

Para todos eles, o cruzamento do cerco é o fim de um empenho que toma anos e que inclui longas travessias em terrenos inóspitos.

"Nem me lembro há quanto tempo saí de casa", comenta um jovem de aspecto senegalês que sobe a montanha levantando consigo garrafas de plástico vazias que recolheu enquanto buscava comida em lixões de aldeias vizinhas. "Não posso voltar com as mãos vazias depois de tudo pelo que passei. Impossível", afirma.

À distância, começaram a escutar ruídos de sirenes e gritos. Eles disseram que era a polícia marroquina que fazia a patrulha diária pela montanha detendo imigrantes. Apesar da presença policial, centenas de imigrantes tentaram escalar o muro essa noite. Vinte e sete deles foram presos no alto do cerco, enquanto os outros foram rejeitados.

Assim que põem os pés em terras espanholas, os africanos são alojados em acampamentos de refugiados e alguns meses depois são levados para a parte continental da Espanha, onde será decidido se serão repatriados – o que é complexo, uma vez que muitos não têm documentos e mentem sobre sua nacionalidade – ou não. O mais provável é que sejam libertados e possam ficar no país.

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