
O bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez, criticou duramente regimes autoritários que utilizam o nome de Jesus para legitimar o poder. Durante missa celebrada em Miami neste domingo (30 de agosto), o prelado, que vive no exílio desde 2019, afirmou que essas gestões profanam a fé ao ignorarem o sacrifício e o serviço ao próximo, focando exclusivamente na manutenção do domínio sobre o povo.
Qual é a principal crítica do bispo Silvio Báez aos regimes autoritários?
O bispo afirma que ditaduras desgastadas utilizam a religião como uma máscara hipócrita. Segundo ele, esses governos invocam o nome de Jesus para justificar o autoritarismo e o domínio sobre a população, mas evitam falar da cruz. Para Báez, a figura de um messias que serve, se humilha e dá a vida pelos outros é uma ameaça aos poderosos, pois desmascara a arrogância de quem deseja permanecer no comando para sempre. Ele reforça que não é possível professar a fé cristã sem seguir o caminho da humildade e do sacrifício real em favor das vítimas e dos mais pobres.
Como a Igreja Católica tem sido tratada pelo governo da Nicarágua?
A Igreja enfrenta uma perseguição implacável no país desde 2018. O regime Ortega-Murillo tem adotado medidas severas, como a expulsão de religiosas, o controle rígido sobre padres e a proibição de novas ordenações. Além disso, o governo confiscou fundos e propriedades eclesiásticas e forçou o exílio de lideranças importantes, como o próprio Báez e o bispo Carlos Enrique Herrera Gutiérrez, presidente da Conferência Episcopal. Essa repressão intensificou-se após a Igreja defender manifestantes em 2018, em um conflito que resultou em centenas de mortes segundo órgãos internacionais.
O que significa o conceito de tomar a cruz no contexto atual?
Para o bispo, tomar a cruz vai muito além de aceitar sofrimentos casuais; é uma escolha consciente de vida. Significa superar o medo de amar e se tornar vulnerável para restaurar a dignidade de quem sofre. No contexto político e social, ele explica que isso envolve entrar no mundo das vítimas para compartilhar suas angústias. É um ato de resistência contra sistemas baseados em mentiras e injustiças. Ele destaca que, em sociedades onde os poderosos criam leis baseadas em caprichos, quem busca a justiça acaba sendo alvo de calúnias, perseguições e tentativas de silenciamento.
Por que o prelado compara certas atitudes com o pensamento de Pedro?
Báez utiliza a figura bíblica de Pedro para ilustrar quem prefere o conforto ao sacrifício. Ele explica que pensamos como Pedro quando não aceitamos que, por vezes, a solução exige esquecer de si mesmo e ser o último. Isso se reflete naqueles que consideram imprudente denunciar abusos de poder, preferindo o silêncio ou acordos com opressores para não complicar a própria vida. O bispo defende que as mudanças reais na sociedade só acontecem quando se escolhe o caminho da pequenez e do sacrifício pessoal, colocando Deus e o bem-estar dos outros acima de interesses próprios.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.





