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Ciência Animal

Cães entendem a fala humana? Estudo revela como cérebro animal identifica palavras na fala contínua

Pesquisa indica que cães conseguem processar padrões da fala humana, com preferência por estruturas formadas por consoantes.
Pesquisa indica que cães conseguem processar padrões da fala humana, com preferência por estruturas formadas por consoantes. (Foto: Jamie Street/Unsplash)

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A ideia de que um cachorro pode “entender” o que seu tutor fala ganhou uma nova camada de evidências científicas. Um estudo publicado na revista Science mostra que o cérebro dos cães consegue identificar padrões na fala humana e separar um fluxo contínuo de sons em unidades equivalentes a palavras.

O mecanismo apresenta uma característica semelhante à observada em humanos: a preferência por consoantes na hora de localizar esses padrões.

A descoberta não significa, porém, que os animais compreendam a linguagem humana da mesma forma que uma criança ou que sejam capazes de acompanhar uma conversa. O que os pesquisadores demonstraram é algo mais específico: o cérebro canino consegue detectar regularidades estatísticas nos sons e utilizá-las para segmentar a fala.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Laboratório de Neuroetologia da Comunicação da Universidade Eötvös Loránd (ELTE), em Budapeste, na Hungria. Para chegar aos resultados, a equipe comparou a atividade cerebral de 20 cães e 20 humanos enquanto os participantes ouviam sequências de sons construídas especialmente para o experimento.

Cães conseguem separar palavras na fala

Quando uma pessoa fala naturalmente, não existe uma pausa perfeitamente marcada entre cada palavra. O cérebro precisa descobrir onde termina um termo e começa o seguinte a partir de diferentes pistas. Entre elas estão os padrões recorrentes dos sons que compõem as palavras.

Foi justamente essa capacidade que os pesquisadores investigaram. Os voluntários humanos e os cães ouviram fluxos contínuos de sílabas, sem pausas ou outros sinais acústicos indicando os limites entre as palavras. Os sons foram organizados em três condições.

Na primeira, os padrões recorrentes de consoantes funcionavam como uma espécie de “esqueleto” das palavras. As consoantes permaneciam organizadas em determinadas sequências, enquanto as vogais podiam variar. Na segunda condição, o princípio era invertido: eram as vogais que definiam os padrões. A terceira sequência era aleatória e não continha regularidades capazes de formar palavras.

O resultado foi particularmente significativo na condição formada pelas consoantes. Tanto humanos quanto cães apresentaram maior acompanhamento cerebral do ritmo das palavras quando elas eram estruturadas por esses sons.

Nos cães, não houve diferença relevante entre os fluxos estruturados por vogais e a sequência aleatória, enquanto os humanos conseguiram identificar também os padrões vocálicos, embora com menor eficiência do que os consonantais. Esse fenômeno é chamado de viés consonantal.

“Palavras são formadas por dois tipos principais de sons da fala: vogais e consoantes. Embora as vogais sejam mais fortes e perceptíveis, as consoantes geralmente formam o esqueleto das palavras”, explica o neurocientista cognitivo Attila Andics, um dos autores do estudo.

O que os eletrodos mostraram?

Para descobrir o que acontecia no cérebro dos participantes, os cientistas utilizaram a eletroencefalografia, conhecida pela sigla EEG. A técnica é não invasiva e registra a atividade elétrica cerebral por meio de eletrodos colocados no couro cabeludo.

No caso dos cães, os equipamentos foram posicionados de maneira semelhante aos utilizados nos humanos, permitindo comparar regiões e respostas cerebrais correspondentes. A equipe analisou, entre outros aspectos, a chamada sincronização neural: a tendência da atividade cerebral de acompanhar o ritmo de determinados sons.

Se o cérebro estivesse efetivamente identificando as palavras formadas pelos padrões de consoantes, seria esperado que sua atividade acompanhasse melhor o ritmo desses agrupamentos. Foi o que ocorreu.

Mesmo sem dominar a linguagem humana, cães conseguem identificar regularidades nos sons que escutam.Mesmo sem dominar a linguagem humana, cães conseguem identificar regularidades nos sons que escutam. (Foto: Jamie Street/Unsplash)

Além disso, os pesquisadores encontraram diferenças na atividade elétrica cerebral entre aproximadamente 350 e 550 milissegundos após o início das palavras.

Na janela de 450 a 550 milissegundos, tanto humanos quanto cães apresentaram respostas mais fortes para as sequências estruturadas por consoantes do que para os outros tipos de estímulo. Esse intervalo está associado, em pesquisas anteriores, ao acompanhamento e à segmentação de palavras na fala.

O resultado, portanto, não dependeu de os animais reconhecerem previamente as palavras utilizadas. Os pesquisadores trabalharam com palavras sem significado, criadas especificamente para que fosse possível testar a capacidade de identificar padrões sonoros.

Cães prestam mais atenção às consoantes?

A resposta encontrada pelo estudo é sim, pelo menos quando o objetivo é segmentar o fluxo contínuo da fala. O cérebro dos cães acompanhou de maneira mais eficiente os padrões definidos pelas consoantes do que aqueles baseados em vogais.

Isso é importante porque as vogais apresentavam maior energia acústica nos estímulos utilizados. Ou seja, a preferência dos cães não pode ser explicada simplesmente pela atenção aos sons mais fortes.

Para os pesquisadores, o resultado indica que os animais utilizam as consoantes porque a distribuição desses sons é mais útil para dividir uma sequência de informação em unidades menores.

A pesquisa amplia o conhecimento sobre a cognição canina, mas não demonstra que os animais compreendam o significado das frases.A pesquisa amplia o conhecimento sobre a cognição canina, mas não demonstra que os animais compreendam o significado das frases. (Foto: James Barker/Unsplash)

Outro dado chama a atenção. Entre os 20 cães analisados, 11 tinham tido contato com um ambiente rico em fala humana desde as primeiras semanas de vida, enquanto nove começaram a viver nesse tipo de ambiente mais tarde. Mesmo entre os cães de exposição tardia, o viés consonantal apareceu.

Parte desses animais havia passado os primeiros meses de vida em abrigos ou nas ruas, em vez de crescer em uma casa com contato intenso com pessoas. A diferença entre os grupos não foi significativa, o que sugere que a habilidade não depende necessariamente de uma exposição à fala durante uma janela muito específica do desenvolvimento.

Os próprios autores, no entanto, destacam que o tamanho reduzido da amostra e as informações incompletas sobre a história anterior dos animais recomendam cautela na interpretação desse resultado.

Isso significa que cães entendem conversas?

Não. E essa é uma distinção importante para interpretar a descoberta. O estudo mostra que cães conseguem segmentar a fala que escutam, identificando regularidades que ajudam a separar o fluxo sonoro em unidades semelhantes a palavras.

Isso é diferente de demonstrar que eles compreendem o significado de frases, acompanham uma conversa ou dominam uma estrutura linguística equivalente à humana.

A própria comparação entre as espécies reforça essa diferença. Enquanto os humanos também foram capazes de acompanhar os padrões formados por vogais, os cães não apresentaram o mesmo desempenho. Além disso, ambos acompanharam o ritmo das sílabas, mas a atividade cerebral humana mostrou uma sincronização mais forte com o ritmo dos sons individuais da fala.

Para os pesquisadores, isso indica que os humanos processam o fluxo sonoro em uma resolução mais fina.

A pesquisa também não determina se essa capacidade surgiu especificamente por causa da domesticação. Os autores consideram possível que a exposição frequente à fala humana tenha sido suficiente para moldar esse tipo de processamento, mas deixam em aberto a participação da história evolutiva dos cães.

Também não descartam completamente a hipótese de que o viés consonantal esteja relacionado a capacidades auditivas ou cognitivas mais antigas.

O principal achado, portanto, está menos na ideia de que os cães “falam” a mesma língua que os humanos e mais na demonstração de que o contato frequente com nossa fala pode estar associado a uma forma sofisticada de processamento cerebral.

Como resume o estudo, a exposição à fala pode ser suficiente para fazer surgir esse viés mesmo em um mamífero que não possui linguagem humana.

A descoberta amplia o conhecimento sobre a cognição canina e ajuda a explicar por que a convivência prolongada com seres humanos pode ter produzido adaptações no modo como esses animais percebem e organizam os sons.

Para quem conversa diariamente com o cachorro, ainda não é uma prova de que ele compreende cada frase. Mas é uma evidência de que, quando parece prestar atenção ao que está sendo dito, o cérebro canino pode estar fazendo muito mais do que simplesmente reagir ao tom de voz.

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