
Eurocético é um neologismo que define aquele que não acredita na integração europeia. Eles sempre existiram, mas em tempos de bonança o discurso tinha pouca força. Ainda que houvesse críticas à integração, prevalecia a crença de que a união era o melhor para o continente no pós-guerra. A situação mudou e a região enfrenta atualmente a maior crise desde a criação do bloco. Em meio aos esforços para solução dos problemas econômicos, os eurocéticos ganham espaço. Entre eles, o mais conhecido é o morador da casa 10 da Downing Street, o primeiro-ministro inglês David Cameron.
A nova onda eurocética começou em meados do ano passado, quando Cameron reabriu oficialmente o debate sobre a realização de um referendo a respeito da permanência do Reino Unido na União Europeia. Em um artigo publicado no jornal "The Independent", o primeiro-ministro argumentou que a questão "não era tanto dizer se o país tem de estar dentro ou fora da União Europeia", mas sim "qual deve ser a relação" entre a Grã-Bretanha e o continente.
A decisão de reabrir o debate ocorre em um dos momentos mais delicados e problemáticos para Europa desde o pós-guerra. Após décadas de trabalho para a integração e os benefícios da união comercial, financeira, de defesa e até cultural, o cenário à frente parece muito tortuoso diante da crise financeira que se arrasta. É nesse ambiente que o discurso eurocético ganha força.
Entre o eleitorado britânico, a reação à situação econômica adversa já é evidente. Cidadãos criticam decisões austeras do governo inglês e muitos atribuem esse tipo de política à integração europeia, já que a austeridade tem se tornado cada vez mais um valor ligado à imagem de líderes como Angela Merkel.
Nesse cenário, uma parte da oposição a Cameron tem ganhado espaço, como é o caso do nacionalista Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês). Com um discurso pela saída da União Europeia e contrário aos imigrantes, o partido ganha adeptos. Em dezembro, levantamento do instituto de pesquisa britânico ComRes mostrou que a legenda recebeu apoio de 6% dos eleitores nos últimos meses e já conta com a simpatia de 14% do eleitorado britânico o que torna o partido a terceira força política do país, à frente dos Liberais Democratas, que sempre ocuparam este posto. Na pesquisa, conservadores tinham 28% e trabalhistas, 39%.
"Não há dúvidas de que o sucesso eleitoral da UKIP tornou a Europa um verdadeiro problema para os conservadores. Há uma enorme pressão de dentro do próprio Partido Conservador contra Cameron", diz o professor de política da Universidade Strathclyde e analista eleitoral, John Curtice. Para ele, pesquisas como a publicada em dezembro "forçaram" os conservadores a um discurso mais à direita, o que atende aos anseios de parte do eleitorado insatisfeito com a situação econômica do país.



