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Profissionais de saúde atendem pacientes com Covid-19 na unidade de terapia intensiva do Hospital das Clínicas de San Lorenzo, Paraguai, em 16 de março de 2021
Profissionais de saúde atendem pacientes com Covid-19 na unidade de terapia intensiva do Hospital das Clínicas de San Lorenzo, Paraguai, em 16 de março de 2021| Foto: DANIEL DUARTE/AFP

América do Sul está passando por uma nova onda da pandemia. O Brasil é, de longe, o país com a pior situação, mas os vizinhos da região, com poucas exceções, também estão seguindo uma tendência de alta nos casos de Covid-19 nas últimas semanas. A variante do coronavírus identificada em Manaus já está presente em todos os departamentos do Paraguai e se espalhando no Peru e no Uruguai. Mas mesmo países onde a nova cepa foi identificada em poucas amostras, como o Chile, estão registrando mais infecções diariamente.

Neste cenário, governos estão adotando novas medidas para frear a disseminação da Covid-19. A Argentina, a partir de segunda-feira, vai suspender por tempo indeterminado todos os voos procedentes do Brasil, Chile e México. Só poderão entrar no país os aviões “necessários ao regresso de nacionais e residentes estrangeiros que se encontrem nos destinos indicados”, segundo comunicado da Casa Rosada. No Chile, 75% da população foi colocada em confinamento parcial. O Uruguai cancelou aulas presenciais e ordenou o fechamento de academias.

O número de óbitos, felizmente, não segue a mesma tendência das infecções na maioria dos países da América Latina, quando analisados os dados de novas mortes pela doença nos últimos 15 dias em comparação com a quinzena anterior. As exceções são Brasil, Uruguai, Paraguai e Venezuela, segundo o site Our World in Data.

Enquanto isso, a vacinação contra a doença tem patinado. À parte de Chile e Uruguai, a administração diária de doses por 1000 habitantes está abaixo de 2,5. Brasil e Argentina aplicaram ao menos uma dose em 6% da população, mas nos demais o índice não passa de 3%.

Vacinação rápida não livra Chile e Uruguai de nova onda

O Chile tem uma das campanhas de vacinação mais rápidas do mundo, mas isso não impediu que uma nova onda de Covid-19 surgisse no país. Nesta sexta-feira, o país registrou 7.626 novos casos, o número mais alto em um único dia desde o começo da pandemia. O pico anterior havia sido registrado em junho do ano passado. Agora, o total de casos ativos supera os 40 mil pela primeira vez. Além disso, o número de pacientes internados é o maior desde que a pandemia começou.

O fato é que, apesar de 16% da população estar totalmente vacinada e 32% ter recebido ao menos uma dose, os demais ainda correm risco de contrair a doença e a imunidade de rebanho ainda está longe de ser alcançada. Isso, junto ao aumento de circulação de pessoas no país durante a temporada de verão e ao relaxamento de medidas contra a propagação do vírus, ajuda a explicar por que houve uma disparada de casos, especialmente a partir do fim de fevereiro. Especialistas também afirmam que o descuido com cuidados pessoais (uso de máscaras, evitar aglomerações) e a sensação de segurança trazida pela rápida campanha de vacinação também podem ter sido fatores relevantes para aumento das infecções.

A variante P.1 do coronavírus, identificada em Manaus e que, estima-se, pode ser até duas vezes mais transmissível do que as demais cepas do vírus, foi identificada no Chile. O Ministério da Saúde do país informou nesta quarta-feira que ao menos seis casos da nova variante foram confirmados, apesar das recentes restrições de viagem impostas aos viajantes com passagem recente pelo Brasil. Contudo, ainda não é possível estabelecer uma relação entre a P.1 e o aumento de casos no Chile.

No começo da semana, o governo do presidente Sebastián Piñera anunciou uma nova quarentena para mais de 13 milhões de chilenos, que passou a valer nesta quinta-feira (25). A decisão veio depois de um aumento de 35% nos casos nas últimas duas semanas, para evitar que os hospitais cheguem ao limite do atendimento. Haverá ainda um confinamento mais radical na região metropolitana de Santiago durante o fim de semana, no qual idas a supermercados também estarão restritas. Haverá pouquíssimas exceções para circulação de pessoas durante estes dois dias.

O número de óbitos por Covid-19 no Chile passa de 22,5 mil. Houve um aumento nos registros diários em março, mas desde então o número de mortes tem ficado estável.

A situação do Uruguai é semelhante. O país tem o segundo maior índice de vacinados da América do Sul, apesar de ter iniciado a campanha apenas no fim de fevereiro. Ao menos 13% da população já recebeu uma dose da vacina. Contudo, o país está vivendo o pico da pandemia, com novas infecções e mortes diárias em alta. A variante brasileira P.1 já foi detectada em ao menos sete regiões do país e pode estar ligada ao aumento de infecções.

Médicos uruguaios estão preocupados com a saturação de leitos de terapia intensiva. “O comportamento linear de duas semanas permite uma previsão confiável: a ocupação define a saturação, em nível de país, em duas semanas, tanto pela porcentagem da Covid-19 quanto pela porcentagem da ocupação total das camas", alertou a Sociedade Uruguaia de Medicina Intensiva no domingo passado.

Diante desta situação, o governo uruguaio ordenou o fechamento de escolas, escritórios públicos e academias até o fim da Semana Santa. Também recomendou que as pessoas fiquem em casa, apelando à liberdade responsável das pessoas e seguindo a política de não imposição de confinamento, que marcou a resposta do Uruguai à pandemia até agora. Shoppings, bares e comércios continuam abertos no país, seguindo protocolos sanitários e algumas restrições de horários.

“Não houve grandes surtos [no comércio], seja em uma loja de calçados ou em uma loja de roupas. Não houve por dois motivos fundamentais: os protocolos são seguidos e a capacidade [de lotação] é respeitada”, disse o diretor geral do Ministério da Saúde do Uruguai, Miguel Asqueta.

Apesar de estar registrando mais mortes diárias per capita do que Bolívia, Argentina, Colômbia e Equador, o Uruguai ainda é a nação da região com o menor número de mortes per capita desde o começo da pandemia.

Variante brasileira no Paraguai e no Peru

O Paraguai está vivendo o pior momento da pandemia, com recorde de registro diário de novas infecções e mortes pela doença. Assim como em várias regiões do Brasil, há filas para internações em unidades de terapia intensiva e os profissionais de saúde estão tendo que tratar mais pacientes ao mesmo tempo do que o recomendado.

O Ministério da Saúde do Paraguai confirmou que a variante P.1 “já circula em vários departamentos do país”, depois que 500 amostras foram enviadas ao Brasil para confirmação. “Estamos vendo um aumento de jovens hospitalizados. Pode se dizer que cerca de 60% dos hospitalizados por Covid-19 são pacientes com menos de 60 anos”, disse Guillermo Sequera, diretor geral de Vigilância Sanitária do Paraguai, em coletiva de imprensa nesta semana.

A situação forçou o governo paraguaio a impor uma nova quarentena durante a Semana Santa, já a partir deste sábado. “Durante a vigência destas medidas, todos os habitantes devem permanecer nas suas casas ou onde se encontram e podem realizar deslocamentos mínimos e indispensáveis ​​para a reposição de alimentos, medicamentos e produtos de limpeza entre as 5h e 20h”, disse o chefe de gabinete, Hernán Huttemann, ao jornal Última hora.

A cepa brasileira do coronavírus também preocupa o Peru. Um estudo publicado nesta semana mostrou que na capital, Lima, 39% dos casos de Covid analisados eram decorrentes da P.1, e há grande preocupação entre especialistas de que a variante possa rapidamente se espalhar pelo país. “Provavelmente em um ou dois meses [a variante representará] 80% ou 90% dos casos. É de se esperar que ela se torne a forma predominante, a menos que outra apareça”, disse ao jornal El Comercio Pablo Tsukayama, principal pesquisador do Laboratório de Genômica Microbiana da Universidad Peruana Cayetano Heredia (UPCH).

O Peru também está vivendo um dos piores momentos na pandemia. Nesta quarta-feira, registrou o maior número de casos em um único dia desde o início da pandemia (11.260), com uma média diária em torno de oito mil. As mortes aumentaram em janeiro, com uma média de cerca de 200 óbitos por dia desde então. Assim como nos demais países, o governo peruano também anunciou quarentena durante a Semana Santa em todo o território, proibindo, inclusive, o deslocamento com carros particulares na próxima semana.

Argentina se fecha

A Argentina também começou a perceber um aumento dos casos de Covid-19 desde março, mas a situação epidemiológica não é tão grave quanto a que foi observada em outubro do ano passado e em janeiro deste ano.

A principal preocupação das autoridades de saúde é um aumento de casos da variante P.1. Por isso, o governo argentino suspendeu todos os voos provenientes do Brasil, Chile e México a partir de segunda-feira. Os argentinos que estiverem regressando ao país terão que fazer dois testes de coronavírus, ao chegar ao país e sete dias depois do ingresso – e terão que pagar pela testagem. Os positivados terão que cumprir quarentena em locais “dispostos pelas autoridades nacionais correspondentes até que se efetue o traslado seguro para sua residência”. A estadia também deve ser paga pelo viajante.

Na Colômbia, a pandemia também está avançando, mas, assim como na Argentina, está longe do pior momento da Covid-19 no país, que ocorreu no começo deste ano. Apesar disso, medidas restritivas, como toque de recolher, serão impostas durante a Semana Santa na capital, Bogotá, e em cidades onde a ocupação de leitos de UTI é alta. Situação semelhante ocorre no Equador, onde governos municipais estão impondo restrições onde há mais registros de casos.

Venezuela em quarentena radical

A pandemia também está avançado na Venezuela. O ditador Nicolás Maduro anunciou na semana passada uma "quarentena radical" para frear a propagação da variante P.1, que já está em circulação no país. A medida ficará em vigor até o domingo de Páscoa.

Mesmo havendo desconfiança em relação aos dados apresentados pelo regime, eles indicam uma tendência de crescimento de casos de Covid-19 no país. No começo de março, a média diária de infecções registradas era de 400. Agora a média já passou de 800 casos por dia, segundo levantamento da Reuters. É preciso considerar que o cenário provavelmente é pior do que mostram os dados oficiais, e um dos motivos é a baixa capacidade do país em diagnosticar novos casos.

A situação da Venezuela é especialmente preocupante porque as condições dos hospitais, que já sofriam com a falta de recursos antes da pandemia, são muito precárias. Devido à falta de transparência do regime a à perseguição aos críticos, é difícil saber qual é a real situação em relação à ocupação de leitos. A imprensa local afirma, com base em relatos de entrevistados, que a capacidade de atendimento está chegando ao limite em alguns hospitais.

A Academia Nacional de Medicina do país afirma que a Venezuela é a nação com a maior taxa de profissionais de saúde mortos durante a pandemia, embora não haja um levantamento oficial. A ONG Médicos Unidos Venezuela relatou nesta sexta-feira que, entre 23 e 25 de março, 14 trabalhadores da área da saúde morreram por Covid-19 na Venezuela, segundo dados extraoficiais.

A Venezuela também é o país que menos vacinou na América do Sul. O país recebeu cerca de 600 mil doses da China e da Rússia, mas nem todos os profissionais de saúde foram imunizados ainda, segundo a imprensa local. Maduro foi vacinado no começo de março, com a Sputnik V.

A oposição está tenteando comprar vacinas por meio da iniciativa Covax. O governo de Juan Guaidó pediu a liberação de 30 milhões de dólares de recursos venezuelanos que estão congelados nos EUA para ingressar no Covax e investir na logística de distribuição dos imunizantes pelo país.

Maduro disse nesta semana que as vacinas da AstraZeneca, que devem ser enviadas ao país por meio da Covax se o acordo for fechado, não entrarão na Venezuela, por causa dos "efeitos colaterais".

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