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Entrevista

“Chamar Mladic de herói é ultrajante”

Gustavo Silva, jornalista e escritor

Vala comum encontrada na vila Cerska com restos mortais de bósnios muçulmanos mortos em Srebrenica, durante a Guerra da Bósnia | AFP
Vala comum encontrada na vila Cerska com restos mortais de bósnios muçulmanos mortos em Srebrenica, durante a Guerra da Bósnia (Foto: AFP)
Jovens servo-bósnios fazem manifestação a favor do ex-general Ratko Mladic, preso em Haia |

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Jovens servo-bósnios fazem manifestação a favor do ex-general Ratko Mladic, preso em Haia

Oito mil pessoas foram assassinadas em Srebrenica por serem muçulmanas durante a Guerra da Bósnia (1992-1995). Colocado em prática pelo então general Ratko Mladic – hoje aguardando julgamento no Tribunal de Haia, na Holanda –, o genocídio fazia parte da estratégia de limpeza étnica do político sérvio Radovan Karad­­zic, também prisioneiro em Haia.

O massacre em Srebrenica é uma das barbaridades cometidas durante a guerra que traumatizou a região dos Bálcãs, um conflito que o mundo ignorou. A explicação para o absurdo da in­­diferença internacional é a "falta de relevância política e geoeconômica" da Bósnia-Herzegóvina, de acordo com o jornalista Gus­­tavo Silva, autor do livro Da Rosa ao Pó – Histórias da Bósnia Pós-Genocídio, publicado há pouco pela Tinta Negra, do Rio de Ja­­neiro.

Depois de receber notícias sobre a guerra, na época trabalhando em televisão, Silva experimentou um tipo de angústia jornalística que só passaria com um trabalho de reportagem. Então entrou em um avião para Sarajevo disposto a ouvir histórias de várias testemunhas da guerra, além de participar da Marcha da Paz, uma caminhada de 110 km em direção a Srebrenica.

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, o jornalista compara Mla­­dic a Hitler, diz que não en­­controu "os ódios étnicos" que a mí­­dia internacional associa ao país e explica como os Rolling Stones conseguiram "sintetizar a Bósnia" em canções como "Gim­­me Shel­­ter".

Como tem sido para você acompanhar o noticiário a respeito da prisão do Mladic, so­­bretudo quando o ex-general diz que "não teve nada a ver" com Srebrenica?

Não é de se espantar a reação de Ratko Mladic ao negar seu en­­volvimento com o genocídio em Srebrenica. Trata-se de uma tática de sua defesa. Felizmente, são muitas as evidências à disposição do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) que o ligam diretamente ao fato. É gratificante saber que, mesmo de­­pois de 16 anos, um dos maiores criminosos do século passado se­­rá fi­­nalmente julgado. Por outro lado, é lamentável assistir às demonstrações de apoio a Mladic na Sérvia e nas regiões de maioria sérvia da Bósnia. Como você reagiria a uma passeata em prol da memória de Adolph Hitler, ou se Joseph Goebbels fosse celebrado em festivais de propaganda? Mla­­dic faz parte desse time. Chamá-lo de herói, como os ultranacionalistas sérvios o fazem, deveria ser algo ultrajante para qualquer pessoa.

Acompanhar os eventos em países distantes por meio de agências internacionais é às vezes uma experiência angustiante. Há muita informação de­­sencontrada, muitas "fontes oficiais" e até teorias conspiratórias de todos os lados. Você pode comentar um pouco a discrepância entre as notícias di­­vul­­gadas para o mundo e o que você descobriu in loco, durante a viagem para a Bósnia-Herze­­góvina?

Sinto que a Bósnia-Herzegó­­vina ainda é retratada como um país movido por ódios étnicos, o que não se confirma quando se visita o país. Há uma série de concepções erradas sobre a região – muitas delas desenvolvidas no período da guerra –, como a de que sérvios, croatas e bosniaks (termo para designar os bósnio-muçulmanos) cultivam rancores que datam de tempos antigos. Nada mais falso. Há de se levar em conta também a diversidade do país, que, muitas vezes, é "achatada", simplificada demais no noticiário, e acaba criando cenários que não correspondem ao real. A cosmopolita Sarajevo é uma Bós­­nia totalmente diferente de Banja Luka, a capital administrativa da República Sérvia (uma das duas entidades pela qual a Bósnia foi dividida com os acordos de paz), que, por sua vez, é um outro mundo se comparada a Mostar, principal cidades dos croatas na Bósnia.

Você abre cada capítulo do livro com trechos de canções dos Rolling Stones. Por quê?

Os trechos das canções estão relacionadas aos acontecimentos de cada capítulo, sejam eles históricos, relativos ao massacre, ou "presentes", ligados à minha ex­­periência ou a outros personagens. Como sou apaixonado por música, a ideia também é um ca­­pricho pessoal. Mas, depois da viagem, também percebi que ninguém sintetizou tão bem a Bósnia como a banda, na canção "Gimme Shelter". Tudo no país, como nos versos, "está a um tiro de distância", mas também "está a um beijo de distância".

Você viajou também para Ruanda. É possível encontrar semelhanças entre as barbaridades ocorridas no massacre perpetrado pelos hutus e a Guer­­ra da Bósnia?

A maior semelhança, sem sombra de dúvida, foi o descaso da comunidade internacional com ambos os países. A falta de relevância política e geoeconômica foi determinante para selar o destino de Ruanda e da Bósnia como palco de grandes massacres. Vale lembrar que tropas da ONU acompanharam, sem interferir, o de­­senrolar e o desfecho dos dois ge­­nocídios. Em Srebrenica, há ainda a ironia de que a cidade era uma área de segurança supostamente protegida pelas Nações Unidas.

Poderia falar um pouco so­­bre o processo de trabalho que deu origem ao livro?

Viajei sozinho para a Bósnia-Herzegóvina. As pesquisas sobre o país e, em especial, por Srebre­­nica, começaram com um semestre de antecedência. A dificuldade em elaborar uma bibliografia para o projeto foi grande, pois a maioria dos livros que utilizei precisaram ser importados – alguns foram comprados diretamente na Bósnia. Os custos de um intérprete, que cheguei a cotar, eram inviáveis para um trabalho bancado do próprio bolso. Por um lado, tenho certeza de que deixei de ouvir histórias incríveis de sobreviventes da guerra, que engrandeceriam ainda mais o trabalho. Em contrapartida, não ter um tradutor rendeu situações engraçadas, como da vez que tive uma "conversa" de cinco minutos com uma senhorinha em uma papelaria sem pronunciar uma palavra sequer. No fim, ainda consegui comprar o que queria.

Uma das dificuldades de um trabalho como o do livro Da Rosa ao Pó parece ser o equilíbrio entre a sensibilidade para entender e se aproximar das fontes e a frieza para conseguir lidar com fatos perturbadores. Poderia comentar como você viveu essa situação?

Vivi de maneira plena esse dilema no Memorial de Potocari, em 11 de julho, quando foi realizada a celebração anual em ho­­menagem às vítimas de Srebre­­nica. No evento, foram enterradas 534 pessoas. Surgiu a questão: como fazer imagens de algo que é vital para dar a dimensão de um massacre mas, ao mesmo tempo, não ser invasivo e desrespeitoso com os familiares? Com minha máquina fotográfica, registrei desde o momento em que os caixões começaram a ser levados em direção às covas até a reação dos familiares em vê-los enterrados. Porém, em um certo momento, a tristeza e o choro daquelas pessoas me contaminaram de tal maneira que parei com tudo e me uni a elas. Um jornalista que trata tudo como apenas notícia, com frieza e distanciamento, não é honesto com o seu leitor. O envolvimento é fundamental para a compreensão do texto. No fim, a sensibilidade é algo que vem com o clima do momento que você vivencia, que impõe os limites das perguntas e abordagens.

Serviço

Da Rosa ao Pó – Histórias da Bósnia Pós-Genocídio, de Gustavo Silva. Tinta Negra, 200 págs., R$ 29,90.

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