
A Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), que está supervisionando a destruição do arsenal da Síria, ganhou o Prêmio Nobel da Paz ontem, anunciou o Comitê do Nobel, em Oslo, na Noruega. A honraria teve um número recorde de 259 candidatos neste ano, incluindo 50 organizações, e o anúncio acabou surpreendendo, já que a OPAQ não era comentada como uma das favoritas.
Especialistas do organismo, apoiado pela Organização das Nações Unidas, estão trabalhando para eliminar o grande estoque de armas químicas da Síria após um ataque com gás sarin no subúrbio de Damasco que matou mais de 1,4 mil pessoas em agosto.
Segundo um acordo entre a Rússia e os Estados Unidos, o armamento químico sírio deve ser removido e destruído até meados de 2014.
"Certamente isso encorajará nossos funcionários a demonstrarem mais o que eles podem fazer em termos de contribuição para a paz e a segurança globais", disse Ahmet Uzumcu, diretor-geral da OPAQ à tevê norueguesa.
Para o presidente do comitê do Nobel da Paz, Thorbjoern Jagland, o prêmio é um lembrete para países como EUA e Rússia contra seus estoques de armas químicas, "especialmente porque pedem que outros, como a Síria, façam o mesmo".
"Nós temos agora a oportunidade de nos livrar de uma categoria inteira de armas de destruição em massa. Seria um grande marco na História se conseguíssemos isso", disse Jagland.
Mais cedo, a tevê estatal da Noruega NRK antecipou o anúncio, informando que a organização seria reconhecida pelo trabalho desenvolvido na Síria. Outras organizações e instituições já foram premiadas antes, como a Cruz Vermelha, a União Europeia e o Unicef.
O prêmio de US$ 1,25 milhão (R$ 2,75 milhões) será entregue em Oslo em 10 de dezembro, aniversário da morte do industrial sueco Alfred Nobel, que criou os prêmios em seu testamento, em 1895.
A missão da OPAQ na Síria é considerada inédita por ocorrer durante uma guerra civil em andamento um conflito que já matou mais de 100 mil pessoas desde 2011.
Integrantes do grupo chegaram a ser alvejados por franco-atiradores em 26 de agosto, mas esta semana Uzumcu disse que as autoridades sírias estão cooperando com o processo.
Prêmio é sinal de confiança
Primeiro diretor-geral da OPAQ, o diplomata brasileiro José Maurício Bustani ressalta a importância política da missão técnica da instituição para facilitar soluções pacíficas e evitar intervenções militares.
Hoje embaixador na França, Bustani dirigiu a OPAQ entre 1997 e 2002, deixando o cargo em um caso polêmico envolvendo a pressão dos EUA, pouco antes da invasão ao Iraque.
Sobre o significado do Nobel da Paz para a OPAQ, Bustani diz que ele não se dirige ao trabalho imediato que está sendo realizado na Síria.
"[O prêmio] reconhece que se trata de uma organização que vem lenta e discretamente fazendo um trabalho extremamente importante no processo de destruição de armas de destruição em massa. É uma mensagem de paz e também de confiança no caminho escolhido para resolver o problema sírio, isto é muito importante", diz.
Convenção
Há 20 anos ocorreu a assinatura do acordo que deu origem à OPAQ. A convenção entrou em vigor em 1997. Os países que assinaram o tratado se comprometem a proibir as armas químicas e deixaram os arsenais químicos sob seu controle serem destruídos.



